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O PSDB quer a extinção do PT. O fato é que, perdidos na pré-história, ambos apavoram-se com o pesadelo da interlocução perdida, da irrelevância política e não imaginam por onde se reinventar

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Carlos Melo,
O Estado de S.Paulo

24 Janeiro 2016 | 06h00

Aparentemente, é uma guerra de extermínio. Não basta vencer, o inimigo deve ser eliminado. É a política por todos os meios, exceto os mais legítimos: formulação de projetos, alternativas para o País, saídas mais gerais, sistêmicas e, digamos assim, mais políticas, estão descartadas. O caudaloso rio de disputas, acusações e ressentimentos acumulados em que se navega há anos trouxe o sistema político a esta corredeira que se precipita ao abismo sem perceber que algo diferente e desconhecido se delineia logo mais a diante.

O PSDB vai à Justiça pedir a extinção do PT. Toma o todo pela parte corrompida dos adversários. Não tem disposição para dialogar com a parcela da sociedade que, em 2014, significou mais da metade do eleitorado. Descarta processos pedagógicos (e trabalhosos) de disputa, como o convencimento. É possível, sim, que, do ponto de vista legal, sobrem motivos para riscar o PT do mapa. Uma grana preta, afinal, foi desviada dos cofres públicos e, supostamente, financiou campanhas. Com religiosa convicção, tucanos atiram pedras, expulsam os vendilhões do templo. Ou, antes, trata-se de cálculo deliberado para retomar espaços da ira de radicais avulsos?

A prudência tem sido tachada de parcialidade ou covardia, mas seria mais prudente esperar por julgamentos formais, não? Mesmo verossímeis, as denúncias que sustentam a ação tucana ainda são fruto de delações premiadas que, de quando em quando, também atingem próceres do PSDB, que, de pronto, as desqualifica. É incoerente acatar fontes que se despreza quando não convém. Os tucanos precisam decidir se essas delações são ou não legítimas, afinal, para tudo. Reclama dos “vazamentos seletivos”, que, vê-se, só são tolerados na tubulação do vizinho.

É certo que, em circunstâncias trocadas, petistas fariam o mesmo. Não perderiam a chance, pelo menos, do discurso inflamado e furioso do qual, no passado, se mostraram especialistas. Nesse jogo sem fair play, a garganta do inimigo é a meta. Simples assim: a galera exige, o gladiador executa. Tanto quanto alguns tucanos, alguns petistas aplicam as mesmas receitas conhecidas e, ao final, “mortadelas” e “coxinhas” são da mesma miséria nutricional: reduzida atenção com o País, exagerado zelo consigo próprios. Indignação seletiva.

No entanto, o busílis é outro: o sistema se fragmenta. Em cacos, transmuta-se. O quadro partidário, não tarda, será outro, diferente do qual nos acostumamos. PT e PSDB já não representam a sociedade como há pouco faziam. Não mais parcelas tão amplas. Buscam, na verdade, sobreviver à ruína que já experimentam. Sem o PT, o PSDB é pão sem manteiga, Palmeiras sem Corinthians, Romeu sem Julieta. O mesmo serve para o PSDB. Morrem abraçados.

Passada a eleição de 2014, abalados pela crise de 2015, ambos perderam espaço e a centralidade das forças políticas que até recentemente conduziam. É provável que não se deem conta do processo e, por isso, relutem aceitar a realidade da crise sem precedentes: o País se transforma sem saber para onde, como e para quê, se para melhor ou pior. Petistas e tucanos debatem-se numa resistência inócua, com lances performáticos como “pedir” a extinção do outro. Não é apenas erro, é patético: partidos não se extinguem por medida judicial, mas por irrelevância política.

E este processo parece ter começado. No PT, a liderança já não lidera para além dos corredores das sedes, da militância orgânica ou fundamentalista. Históricas frações à esquerda já resultam em novas legendas (PCO, PSTU, PSOL, Rede Sustentabilidade, Raiz). A antiga área de influência se descola (PSB e, logo, o PCdoB). Sindicalistas e movimentos logo mais encontrarão outras referências de corporativismo e abrigo no Estado. Aliados inconfiáveis (PMDB, PDT, PSC e quejandos) se desvencilham do passivo à espera de saltar do vulnerável barco governista.

No PSDB, não é diferente. Não mais há “a oposição” (no singular), mas “as oposições” (no plural). Fragmentados, novos grupos vão se conformando: a Rede, de Marina Silva, almoça tucanos em pleno dia, sufocando-os numa torrente de palavras imprecisas a respeito da sustentabilidade democrática, social e ambiental. Pelo liberalismo econômico ousado e sem pudor, o Partido Novo os janta nas críticas ao papel e tamanho do Estado que os tucanos envergonham-se de expressar. À direita, alternativas mais conservadoras (e radicais) ocupam espaços que, desde o ocaso do malufismo, imaginava-se reserva do PSDB. Até o satélite DEM se afasta.

PSDB e PT se agarram, assim, um ao outro como forma de preservação. Antagonistas escolhidos e sparrings mútuos. Quem apostou num sistema político tendendo ao bipartidarismo gastou fichas em vão. Hoje, a polarização é social e está nas ruas, nas famílias, nas redes. Perigosamente, sem direção nem freios. Perdidos na pré-história desse novo momento, tucanos e petistas apavoram-se com o pesadelo da interlocução perdida e da irrelevância política, não imaginam por onde se reinventar. O fantasma da extinção política assombra a ambos os dinossauros.

CARLOS MELO É CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER

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