Hai Zhang/The Queens Museum
Hai Zhang/The Queens Museum

Diretora do Queens Museum ataca política anti-imigração de Trump

Laura Raicovich dirige um museu cuja equipe é composta de 5% de beneficiários de um programa de regularização de imigrantes que Trump pretende encerrar

Robin Pogrebin, The New York Times

14 Outubro 2017 | 16h00

No mês passado, quando corriam notícias de que o presidente Donald Trump pretendia acabar com o programa de regularização de imigrantes ilegais que chegaram aos EUA ainda crianças (Daca, na sigla em inglês), Laura Raicovich, presidente e diretora executiva do Queens Museum de Nova York escreveu no Twitter: “É preciso defender o Daca, impedir sua dissolução e aprovar leis que o tornem permanente.” 

O crítico de arte Tyler Green comentou: “É primeiro diretor de museu que vejo tomar posição sobre o Daca.” E Raicovich respondeu: “Neutralidade é ficção.” 

Museus exibem com frequência arte política. Menos frequente são diretores assumirem posições políticas. Mas Ricovitch, de 44 anos, que há três dirige o Queens Museum, não foge de temas explosivos, particularmente, imigração e Daca. 

O Daca é um assunto ligado ao museu. Cinco por cento de seu pessoal é beneficiário do programa, além de o museu funcionar em um distrito no qual vivem 91 mil imigrantes ilegais que podem ser favorecidos – o maior número entre das cinco divisões administrativas de Nova York.

Quando as investidas políticas de Trump se voltaram para as instituições culturais – especificamente, com a proposta do presidente de cortar fundos para a Dotação Nacional para as Artes –, pelo menos dois diretores de museus de Nova York se sentiram obrigados a entrar na briga. 

Alguns museus responderam com a rápida montagem de exposições politicamente relevantes. Para protestar contra a ordem executiva de Trump sobre imigração, o Museu de Arte Moderna reapresentou em fevereiro parte de sua coleção permanente de obras de artistas de países de maioria muçulmana cujos cidadãos foram proibidos de entrar nos Estadios Unidos. E o Museu do Brooklyn organizou, em apenas cinco semanas, sua recente exposição A Herança de Lynch: Enfrentando o Terrorismo Racial nos Estados Unidos.

Mas em Queens, onde se falam 165 línguas, Laura Raicovich parece estar traçando roteiro próprio focalizado na comunidade, com ênfase em fazer do museu um santuário para a grande população imigrante do bairro. 

“Levo minha gestão muito a sério – e não apenas no sentido administrativo”, disse ela numa entrevista recente. “Preocupação e equidade têm de ser parte de trabalho.” E explica: “Isso não é abstração, é a realidade. Trata-se de pessoas com as quais trabalho e convivo todos os dias. Este museu interage com imigrantes.”

No dia da posse de Trump, em janeiro, o Queens Museum fechou suas galerias em solidariedade a uma greve convocada por centenas de artistas – entre eles Cindy Sherman, Richard Serra e Louise Lawer – para combater, como disseram os organizadores, “a normalização do trumpismo – uma mistura tóxica de supremacia branca, misoginia, xenofobia, militarismo e oligarquia”. O museu convidou a população a fazer cartazes, buttons e flâmulas de protesto, fornecendo de graça o material. 

Como vários imigrantes residentes passaram a ter receio de aparecer em público – Raicovich disse que a frequência caiu visivelmente após a eleição -, o museu vem realizando eventos próximos das casas das pessoas, em seus quarteirões. “Xenofobia não é nada de novo”, disse a diretora. “Nosso trabalho apenas foi intensificado.”

Um diretor de museu que assuma posições políticas se arrisca a afastar colaboradores, doadores e potenciais futuros empregadores, que podem discordar do diretor ou considerar seus argumentos inapropriados. Até agora, a diretoria do museu tem apoiado Raicovich. 

“Vivemos uma época de engajamento e ela é uma líder engajada que pôs valores como diferença e diversidade no centro de sua administração”, disse o presidente de honra do museu, Mark J. Coleman. 

Dois políticos municipais pediram o afastamento de Raicovich. Um deles, a vereadora Rory I. Lancman, disse em entrevista neste mês que está aguardando o resultado de uma investigação interna do museu sobre uma questão. 

“O museu discriminou de tal modo uma organização judaica que não vejo como a diretora possa continuar a sua frente”, disse Lancman, do Partido Democrata. “Dei à diretoria a oportunidade de fazer uma investigação interna aprofundada e me provar com dados novos que não foi culpa da presidente e ela não precisa ser afastada, mas por enquanto a diretoria não fez nada.”

Coleman disse que a direção do museu não detalhou o andamento da investigação, que ele espera ver concluída até fins de novembro.

Raicovich disse que a polêmica em questão, envolvendo uma decisão sobre um evento de Israel tomada pela diretoria, teve a ver simplesmente com a aplicação de uma norma de locação de espaço que não permite levantamento de fundos para patrocínio artístico, leilões e eventos políticos. A diretoria decidiu cancelar a proibição inicial e permitir o evento ao descobrir que um funcionário do museu havia levado o embaixador de Israel a acreditar que a locação seria permitida.

“Não foi uma decisão antissemita”, disse Racovich. “Trata-se de uma acusação dolorosa. Não sou assim. Minha avó ajudou jovens judeus a fugir da Itália fascista durante a guerra. Meu marido é neto de sobreviventes do Holocausto. Dediquei minha carreira à liberdade de expressão, à inclusão e ao civismo.” 

Além de montar exposições multimídias como as da artista Patty Chang The Wandering Lake e Never Built New York, sobre projetos arquitetônicos não realizados, o museu promove o Movimento Internacional do Imigrante, espaço comunitário na Avenida Roosevelt que proporciona educação, saúde e serviços legais gratuitos. E, nos próximos anos, o museu terá uma filial da Biblioteca Pública de Queens.

“Os programas curatoriais do mais alto nível têm de ter raízes também no mundo real”, disse Raicovich. “Para participar responsavelmente de uma democracia, o cidadão precisa estar envolvido num engajamento cívico no qual a cultura desempenhe um papel decisivo, assim como os museus.” / Tradução de Roberto Muniz 

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