Disputa política faz de massacre algo corriqueiro (O abominável na sala de jantar)

Realidade e moralidade estão se tornando tão evasivas que massacres como o que ocorreu em Orlando, nos Estados Unidos, já fazem parte daquilo que batizamos de “um novo nível de normalidade”. O fato nu e cru de que alguém assassinou 49 pessoas inocentes desapareceu no turbilhão da disputa política mais rasteira

Lee Siegel, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2016 | 16h00

Lee Siegel

O mundo todo vive um momento em que se observa uma intolerância espetacular com a maneira como são as coisas e, ao mesmo tempo, uma tolerância formidável com as piores coisas que acontecem. De um lado, nos Estados Unidos e Brasil, o establishment político está mudando drasticamente; na Grã-Bretanha, um acordo internacional já antigo é radicalmente solapado. De outro, assassinatos em massa se tornam o que as pessoas gostam de chamar de “novo nível de normalidade”, termo que se tornou popular e que evidencia como uma situação abominável hoje é assimilada pela vida americana no geral.

Há cerca de duas semanas, o abominável ocorreu mais uma vez, quando um atirador de 29 anos chamado Omar Mateen matou a tiros 49 pessoas num clube noturno frequentado por gays em Orlando, Flórida. Nas horas que se seguiram ao ataque, o país reagiu com horror, e depois com indignação. Então, à medida que começaram a vir à tona fatos sobre o que havia ocorrido, começou esse processo de normalização.

E fomos informados de que Mateen havia telefonado para a polícia e declarado que estava matando as pessoas em nome do Estado Islâmico. Isto deu vazão a várias alegações, refutações e análises. Se Mateen agiu em nome do EI, então o terrorismo islâmico radical era uma ameaça maior do que alguém imaginava para os Estados Unidos. Que o país devia adotar ações imediatas. E que a candidatura de Donald Trump para presidente seria fortalecida. E, de fato, Trump aproveitou rapidamente a oportunidade para responsabilizar Barack Obama pelo ataque, declarando que o presidente não protegera o país, e insinuando que Obama de algum modo era cúmplice do próprio EI. O que sugeria, portanto, nas terrivelmente inescrupulosas maquinações de Trump, que Hillary, aliada de Obama, não estava apta para liderar o país.

Especialistas decidiram opinar, fazendo uma diferenciação. Mateen recebera ordens do EI para realizar o ataque ou tinha decidido por conta própria agir em nome do grupo? Com essa distinção, dois termos foram introduzidos: ou Mateen foi “orientado” ou “se radicalizou”. O processo de normalização do abominável completava assim seu primeiro estágio.

E outros especialistas intervieram. Um minuto, disseram, Mateen foi orientado, se radicalizou ou era um psicótico que disse agir em nome do EI por vontade própria, mas na verdade não tinha nenhuma ligação com a organização extremista? Uma nova dimensão do processo de normalização surgiu. Se Mateen era um lobo solitário perpetrando um massacre, isso significava que Obama não devia ser responsabilizado, mas sim o lobby das armas, que há muito tempo tem obstruído todos os esforços para se controlar a posse de armas nos Estados Unidos.

Agora tínhamos dois discursos concorrentes e um outro decorrente dos dois. Mateen seria a prova de que o país está cercado de terroristas domésticos. E, subjacente a essas duas perspectivas, um outro tema contencioso: o controle de armas. Para as pessoas que acreditam que Mateen foi inspirado pelo EI, o massacre de Orlando era uma razão para todo americano possuir uma arma para se proteger. Para os que entendem que ele é mais um americano insano, o massacre é um argumento a favor de se manter as armas semiautomáticas e pistolas com pentes de munição de grande capacidade longe das mãos dos cidadãos comuns.

Calma, alegou um outro grupo. O massacre de Orlando não foi um ato terrorista de modo algum. Foi um crime de ódio, pura e simplesmente. Mateen claramente escolheu o clube noturno de Orlando como alvo porque era um lugar de reunião de gays. O real significado da atrocidade foi que, apesar de todos os seus avanços, os gays ainda estão vulneráveis, e especialmente por causa desses avanços, o que criou uma reação virulenta, que também faz parte de um rechaço reacionário que tornou Trump o candidato republicano à presidência. O predomínio de fato do discurso estrangeiro versus doméstico provam que os gays mais uma vez foram empurrados para a marginalidade.

A partir daí, à medida que as agências de notícias conscientemente, e às vezes com grande humanismo e eloquência, reportaram o tormento dos últimos momentos das vítimas de Orlando e o calvário dos sobreviventes, a angústia dos sobreviventes, o fato nu e cru de que alguém assassinou 49 pessoas inocentes desapareceu no turbilhão da política.

Políticos liberais e alguns conservadores insistiram em novas leis para restringir a posse de armas. Muitos políticos conservadores continuaram batendo na tecla da ameaça mortal do terrorismo estrangeiro como justificativa para todo americano ter uma arma em casa para sua autodefesa. Trump continuou a acusar Obama e Hillary pelo que ocorreu em Orlando. Hillary e Obama continuaram a lamentar a incapacidade do Congresso de enfrentar o lobby das armas. Organizações de gays e lésbicas condenaram a indiferença para com as reais motivações de Mateen, que neste momento foi exposto como um gay enrustido que odiava suas próprias tendências sexuais.

Esta é a maneira como uma atrocidade abominável se torna apenas mais um assunto de bate-papos informais na TV a cabo e de conversas na hora do café.

Quanto às pessoas comuns, decentes, que não têm nenhum programa político ou social, justificável ou não, estão apenas tentando preservar seu equilíbrio mental minimizando a violência para salvar nossa política, e a condenando para proteger nossa humanidade. Não me lembro de alguma vez em que realidade e moralidade se tornaram tão evasivas, ou tão difíceis de definir. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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