Zweites Deutsches Fernsehen
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Distopia que influenciou '1984' e 'Admirável Mundo Novo' é lançada

'Nós', do russo Ievguêni Zamiátin, foi resenhado por George Orwell três anos antes do autor inglês publicar sua distopia

André Cáceres*, Colaboração para o Estado de S. Paulo

11 Março 2017 | 16h00

Utopia é uma palavra cunhada por Thomas More (1478-1535), um político, advogado e escritor inglês canonizado 400 anos após sua morte. Publicado em 1516 em latim, o livro Utopia descrevia o sistema político de uma ilha imaginária. O neologismo de More significa algo como “não lugar” em grego, ou seja, transmite a ideia de um local que, por ser perfeito, não existe. O contrário da utopia é a distopia, estilo literário de clássicos como Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury e A Laranja Mecânica (1962), de Anthony Burgess. 

Com a ascensão de Donald Trump à Casa Branca, os títulos do gênero retornaram às prateleiras e listas de mais vendidos, o que faz de 2017 um ano propício para o resgate da obra do russo Ievguêni Zamiátin (1884-1937), tido por muitos como o pai da distopia. Escritor, editor e dramaturgo crítico do regime soviético, Zamiátin viu seu principal livro, Nós, ser censurado. A obra só foi publicada em 1924, nos Estados Unidos, quando um manuscrito cruzou a cortina de ferro e foi traduzido.

No futuro distante de Nós, a pequena fração da população que sobreviveu a uma guerra se submeteu ao Estado Único, uma ditadura totalitária que supre as necessidades do povo e suprime seus direitos. Governada pelo Benfeitor, eleito anualmente por unanimidade e sem oposição, a sociedade é completamente livre de diversidade. Identificados por números, todos perderam suas individualidades e vivem em casas de vidro onde só podem baixar as cortinas nas duas “horas pessoais” às quais têm direito diariamente. A vida sexual é controlada por talões com tíquetes rosas cujos canhotos devem ser assinados pelos parceiros registrados previamente junto ao Estado. Ditada pela “Tábua das Horas”, um cronograma unificado, a rotina de atividades, trabalho, exercícios físicos e refeições é comum a todos. Em dado momento, uma pintura “antiga”, do século 20, de uma avenida cheia de pedestres heterogêneos, é descrita no livro como “inverossímil” – afinal, no Estado Único todos vestem os mesmos uniformes azuis.

A narrativa é em primeira pessoa e Nós é, na verdade, o caderno de anotações de D-503, engenheiro responsável pela construção de uma espaçonave. As notas do protagonista são um relato documental de sua sociedade, mas também apresentam tom confessional e digressivo. Um verdadeiro burocrata dos números, D-503 muitas vezes não sabe se expressar a não ser pela matemática. “A liberdade e o crime são tão indissoluvelmente conectados entre si como… Bem, como o movimento do aero e sua velocidade: se a velocidade do aero = 0, então ele não se move. Se a liberdade de uma pessoa = 0, então ela não comete crimes”, escreve em uma de suas anotações.

No início, o protagonista vê a moral como um problema matemático, e até mesmo as descrições que oferece são geométricas: “suas sobrancelhas escuras subiam alto até as têmporas, formando um engraçado triângulo agudo que apontava para cima”. À medida que D-503 se envolve com I-330, uma mulher misteriosa e subversiva, até mesmo a linguagem que ele utiliza fica mais subjetiva e hesitante. O contato com um grupo rebelde o faz ser diagnosticado com uma grave doença: a imaginação. 

Ievguêni Zamiátin editou traduções para o idioma russo de H. G. Wells e Jack London, autores dos primórdios da ficção científica que possivelmente o inspiraram para compor a distante realidade de Nós. Em uma resenha de 1946, George Orwell identificou semelhanças entre a obra de Zamiátin e outro clássico distópico. “A primeira coisa que qualquer um notaria a respeito de Nós é o fato — nunca mencionado, creio — de que Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, deve, em parte, originar-se dele”, escreve Orwell. Claramente o autor inglês bebeu da fonte de Nós em seu livro 1984, publicado três anos depois.

Além dessa resenha de Orwell, a edição da Aleph traz uma carta em que Zamiátin se dirige a Stalin. “Se eu for verdadeiramente um criminoso que merece punição, não creio que mereça uma punição tão grave quanto a morte literária. Por isso, peço que essa sentença seja comutada pela deportação da URSS”, solicita Zamiátin. Antes de morrer precocemente de um ataque cardíaco, o escritor se radicou na França e colaborou com o cineasta Jean Renoir, sendo um dos roteiristas do filme O Submundo (Les Bas-Fonds, 1936).

Nós foi adaptado para o cinema pelo diretor checo Vojtech Jasny em 1982, um filme extremamente fiel ao livro, transcrevendo ipsis litteris muitos dos diálogos e pensamentos de D-503. Um romance que inaugurou todo um gênero, Nós se apresenta em uma interessante estrutura episódica em formato de diário e brinca com a noção intercambiável de distopia e utopia de maneira irretocável e perturbadora. Ievguêni Zamiátin, tão ofuscado e boicotado em sua própria pátria, mas ao mesmo tempo tão influente para a literatura do século 20, merece finalmente ser redescoberto.

*André Cáceres é jornalista, escritor, colaborador do 'Aliás' e autor do livro 'Cela 108', da editora Multifoco

Nós

Autor: Ievguêni Zamiátin

Tradução: Gabriela Soares

Editora: Aleph

344 páginas

R$ 59,90

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Literatura

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