Francesca Myman/Editora Morro Branco
Francesca Myman/Editora Morro Branco

'Diversidade na ficção científica melhora a ciência', diz escritora transgênero

Em entrevista exclusiva, Charlie Jane Anders fala sobre cenário mais inclusivo na literatura e sobre seu novo livro, 'Todos os Pássaros no Céu', que está sendo lançado no Brasil

André Cáceres  , O Estado de S. Paulo

12 Agosto 2017 | 16h00

“A sociedade é a escolha entre liberdade sob regras alheias ou escravidão sob as suas.” A frase mais reveladora de Todos os Pássaros no Céu é proferida por um computador, a despeito de o livro ser protagonizado por uma dupla de personagens igualmente interessantes. Após faturar os prêmios Nebula e Locus, e ser indicado ao Hugo, três dos mais importantes da literatura fantástica, o romance de Charlie Jane Anders, publicado originalmente em 2016, chega ao Brasil pela nova editora Morro Branco. 

Todos os Pássaros no Céu conta a história de Patricia e Laurence, amigos de infância excluídos pelas outras crianças, que se reencontram após um hiato de alguns anos, dessa vez em lados opostos de uma verdadeira guerra entre facções que querem salvar o planeta, cada uma à sua maneira – ela é uma bruxa; ele, um cientista. Os protagonistas do livro são tão díspares que parecem pertencer a gêneros literários diferentes. O que os une é o fato de ambos serem outsiders, ocuparem as margens. Na escola, sofrem bullying; na sociedade, parecem desajustados. 

Para a autora, romances sobre pessoas que “se sentem em casa no mundo” não são tão interessantes: “Eu me sinto muito próxima dessas personagens. Sempre me interessei por outsiders, pessoas que se sentem incompreendidas, ou que sentem que o mundo não faz sentido. Em parte porque ninguém quer ler uma história sobre pessoas que têm tudo resolvido”, afirma Charlie, que tem experiência pessoal sobre o que é estar à margem. “Levar a vida como transgênero definitivamente me mostrou o que é ser outsider, sentir que as pessoas não vão te compreender. Essa experiência me definiu”, diz a escritora por telefone em entrevista ao Aliás. Mas ela ressalta que qualquer um pode compreender esse drama: “A maioria das pessoas se identifica com o sentimento de não pertencimento, ou de ser uma espécie de outsider, ou de que há algo estranho sobre você”, acrescenta.

É justamente a dicotomia representada por Patricia e Laurence que evidencia a tônica da literatura de Charlie: “Sou obcecada, como escritora, por reconciliar opostos. Fazer o que parece polarizado trabalhar junto. Eu acredito que muito do que vemos como contraditório não tem que ser assim. Não precisamos escolher entre um e outro”, defende ela. Esse recurso é recorrente em sua obra, aparecendo também em uma premiada noveleta publicada em 2011. “Six Months Three Days e Todos os Pássaros no Céu têm muito em comum. Ambos usam uma relação entre um homem e uma mulher para opor ideias contrastantes. Se um romance é interessante, sempre é sobre pessoas discordantes e que têm de aprender a se entender” acredita Charlie.

Essa reconciliação de antagonismos reflete, em um nível individual, a condição de transgênero, que borra as fronteiras entre sexos social e culturalmente tidos como opostos; e em nível político, a ruptura representada pela polarização destrutiva que acomete não apenas os Estados Unidos, mas também o Brasil e o mundo como um todo. “Esse último ano foi um despertar para mim, por ver como as coisas podem regredir aqui nos EUA. Eu pensei que nós estávamos fazendo mais progresso do que realmente estávamos.”

Há um outro nível de leitura interessante para Todos os Pássaros no Céu. Laurence representa a ciência e, por consequência, a tecnologia; enquanto Patricia, como uma bruxa, lida com a natureza. O subtexto ambiental é claro, como a própria autora comenta: “Eu não quero que esse livro dê lição de moral para o leitor, mas a raça humana não vai sobreviver se não encontrarmos uma maneira de fazer tecnologia e natureza trabalharem juntas. Parte da oposição entre esses dois personagens é uma tentativa de encontrar uma terceira via para pensar sobre nosso planeta e nossos problemas ambientais.”

Essa questão do mágico no mundo real permeia a literatura latina durante todo o século 20, e não é uma coincidência: Charlie cita como referências para seu livro nomes como Gabriel García Márquez e Isabel Allende. “O que eu aprendi com o realismo mágico é que o estranho pode fazer parte da vida real. Você não precisa fazer o fantástico ser um intruso. Na fantasia tradicional, temos o mundo real e o mundo mágico, e eles nunca se tocam”, pondera a autora. “Uma coisa que eu realmente quis fazer e sobre a qual eu pensei muito em Todos os Pássaros no Céu é a ideia de que a magia deve parecer um sonho. Quando há algo mágico na história, eu queria que soasse onírico, que tivesse uma lógica de sonho.”

O sucesso de Charlie demonstra a diversidade na nova geração da literatura especulativa, refletida em nomes como N.K. Jemisin, autora negra que terá A Quinta Estação (Morro Branco) publicado em novembro e os chineses Cixin Liu, de O Problema dos Três Corpos (Suma) e Ted Chiang, de História da Sua Vida e Outros Contos (Intrínseca). “Ao mesmo tempo em que fizemos, eu espero, avanços para tornar a ficção científica mais inclusiva para outros grupos minoritários, os cientistas, acadêmicos, funcionários de empresas de tecnologia, estão tendo problemas com essa questão”, informa a autora. “As máquinas são capazes de moldar nosso mundo. Seria muito ruim se esses computadores estivessem sendo programados apenas por um grupo étnico, porque ele tem seus próprios preconceitos, ideias e opiniões, e pode não perceber o quanto isso afeta o que está construindo. Pode-se argumentar que a diversidade na ficção científica é necessária não apenas para aprimorar nossa imaginação coletiva, mas para melhorar nossa ciência e tecnologia. Nós precisamos de mais pessoas inteligentes com diferentes perspectivas nessa conversa”, conclui.

Todos os Pássaros no Céu

Autora: Charlie Jane Anders

Tradução: Petê Rissatti

Editora: Morro Branco

480 páginas

R$ 49,50

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Literatura Ficção Científica Fantasia

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