Eirini Vourloumis/The New York Times
Eirini Vourloumis/The New York Times

Documenta 14 mostra o revival grego

Exposição quinquenal de arte contemporânea explora a Grécia e investe na crise dos refugiados

Jason Farago, The New York Times 

22 Abril 2017 | 16h00

ATENAS, Grécia – Mesmo hoje, num supersaturado calendário mundial de eventos, nenhuma exposição se compara à Documenta, uma colossal mostra alemã de arte contemporânea, reinventada mais ou menos a cada cinco anos como um “museu de cem dias”. 

Das 13 edições realizadas até agora, duas se tornaram marcos na história recente: a quinta, livre de regras, sob curadoria do suíço Harald Szeemann, em 1972, que equalizou pintura e escultura com arte conceitual e happening; e a erudita 11ª edição, organizada pelo nigeriano Okwui Enwezor, em 2002, edição que propunha um ecossistema de arte global do qual a Europa não seria mais o centro. Mas todas as Documentas, desde a primeira, em 1955, foram manifestos sobre a atual relevância e os caminhos da arte, e todas foram realizadas em Kassel, uma desagradável cidade ao norte de Frankfurt destruída por bombas aliadas na 2ª Guerra Mundial. 

Até este ano. 

A 14ª edição da Documenta, sob curadoria do polonês Adam Szymczyk, de 46 anos, está sendo compartilhada por Kassel e Atenas – cidade golpeada pela crise financeira e migração descontrolada e capital de um país cujas relações recentes com a Alemanha não envolvem exatamente colaboração. Szymczyk e a maior parte de sua equipe de curadoria vivem na Grécia há anos. A parte ateniense dessa mostra de duas cidades foi inaugurada no dia 8, com a presença dos presidentes de ambos os países. 

As boas-vindas locais foram dadas em meio ao ceticismo. A imprensa alemã também viu com desconfiança a ampliação da Documenta para a capital de um país que alguns alemães ainda chamam depreciativamente de "schuldenland", ou "país devedor". 

Uma avaliação completa terá de esperar até junho, quando a segunda metade da exposição será aberta em Kassel. O que posso dizer por enquanto é: se a mostra ficar longe das grandes edições de 1972 e 2002, a decisão de Szymczyk de dividir a Documenta foi acertada. A Documenta helenizada é às vezes poderosa, muitas vezes, obscura e, em certos aspectos, exaustivamente pretensiosa. Algumas partes me lembram do aplicativo de aluguel de apartamento Airbnb, que permite a jovens cosmopolitas ver “a cor local” gastando pouco. 

Os temas mais importantes da mostra – migração, dívida, unidade europeia ameaçada, antecedentes históricos do populismo e da intolerância – são velhos conhecidos dos atenienses. Agora que essas perturbações ganharam o mundo, a Grécia pode ser o melhor lugar para se começar a discuti-las. 

Há trabalhos de cerca de 160 participantes, e quase todos vão expor também em Kassel. Para cada nome conhecido, como os pintores americanos Vija Celmins, R. H. Quaytman e Stanley Whitney, há dez dos quais você nunca ouviu falar (geralmente, por bons motivos...). O realismo socialista albanês, estranhamente, ganhou destaque. A mostra se espalha por 40 locais, alguns distantes, como o Porto de Pireus, mas a sede mais importante é provavelmente o Museu Nacional de Arte Contemporânea, ou EMST, instalado numa antiga cervegjaria eleantemente adaptada. As inevitáveis dores de cabeça burocráticas e financeiras eram de certa forma esperadas por Szymczyk, que optou por trabalhar com instituições públicas em lugar de ricos museus particulares. Um bom naco do orçamento de cerca de US$ 40 milhões da Documenta foi para as quase falidas organizações artísticas gregas – o que pode ser visto como justificativa artística para que a eurozona repasse fundos, medida à qual a Alemanha continua resistindo. 

Os destaques da programação do EMST incluem Tripoli Canceled, um requintado filme do artista residente em Nova York Naeem Mohaiemen, filmado num velho Boeing 747 estacionado no decadente Aeroporto Hellenikon, de Atenas. O piloto segue todo o ritual para anunciar a decolagem, mas o avião nunca decola. Como os milhares de migrantes no país cujo deslocamento está bloqueado pelas regulamentações da União Europeia, o avião está imobilizado na Grécia. 

Um letárgico vídeo das artistas britânicas Rosalind Nashashibi e Lucy Skaer revisita locais pintados por Paul Gauguin no Taiti. As mulheres filmadas quase nunca olham para a câmera. Esse filme honesto, conscientemente inconcluso, é um modelo de como se representar eticamente outras culturas sem fugir dos riscos envolvidos. 

Uma grande galeria do EMST apresenta a música do compositor soviético Arseny Avraamov, cuja Sinfonia de Sereias, que tem como fundo explosões de granadas e zumbidos metálicos, é um caso clássico de obra de arte para um futuro que nunca chega. Música e som têm grande atenção nesta Documenta, especialmente na parte apresentada no Conservatório de Atenas, a mais antiga escola de música da Grécia. Músicas eruditas modernas de compositores gregos como Jani Christou e Bia Davou são justapostas ao som ágil de um raro sintetizador, o EMS Synthi 100, que a equipe da Documenta restaurou para músicos eletrônicos gregos. 

A crise dos refugiados – triste eufemismo para se descrever o caso mais grave de falência moral de nossa época, que implicou a remoção de 65,3 milhões de pessoas e deixou os serviços sociais gregos perto da falência – é inevitável na Documenta 14. Alguns artistas respondem poeticamente à crise, como Peter Friedl, que filmou uma adaptação para o palco de Um Relatório para a Academia, conto de Kafka. Na adaptação, o macaco narrador é representado por atores e não atores de várias raças, línguas e idades. 

Outras vezes a resposta é dada pela informalidade, como ocorre com os rudimentares instrumentos feitos pelo compositor mexicano Guillermo Galindo, que usou canos recuperados de um campo de refugiados próximo a Kassel. 

E que dizer de Glimpse, um filme mudo de 20 minutos do provocador polonês Artur Zmijewski, o trabalho mais importante da mostra, além de o mais perturbador? Está em exibição na Escola de Belas Artes de Atenas, e foi filmado na maior parte na Selva de Calais, França, o recentemente desativado campo que abrigava 6 mil migrantes. O começo do filme, uma sequência mostrando tristes barracos e tendas debaixo de chuva, é uma acusação contundente. Refugiados olham esgazeados para a câmera. Uma garota sorri, enquanto o pai olha para o chão, embaraçado. Mas aí o filme muda de tom. O artista entra em cena, dá um casaco novo para um refugiado e depois pinta um X com tinta branca em sua costa. Posteriormente, em Paris, ele filma em close-up migrantes africanos que voltam lentamente cabeça para chegar justamente à pose que o artista queria. O filme é corajoso e urgente. É também chocantemente desconfortável, tripudiando sobre nossa expectativa de objetividade e respeito. 

Enquanto muito da retórica da Documenta 14 evoque o homem comum, Glimpse sugere que mesmo os generosos têm seus motivos para agir assim. Esse é um sentimento que muitos atenienses, céticos quanto às intenções dessa megaexposição nascida na Alemanha, entenderão facilmente. De qualquer modo, um dos principais objetivos da arte moderna tem sido romper convicções sociais, como a de que vivemos como iguais mesmo que nunca cheguemos a isso. É preciso coragem para sujar as mãos, ainda que as lavemos ao voltar para o Airbnb. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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