Acervo pessoal
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Documentário homenageia Antonio Callado em seu centenário

'Callado', de Emília Silveira, entra na onda das cinebiografias de escritores como James Baldwin e Joan Didion

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2017 | 16h00

Antes eram seus livros que iam parar nas telas de cinema. Agora são eles próprios, com suas vidas e seus livros. Documentários sobre escritores, ora em alta no mercado, denotam não propriamente uma nova, mas uma insistente tendência do cinema de não ficção. Quatro dos mais esperados documentários do Festival de Cinema de Nova York, iniciado esta semana, focalizam a figura de um escritor ou um jornalista. Na mostra em curso no Rio há três dias, o representante desse subgênero é um perfil do jornalista e escritor Antonio Callado (1917-1997), dirigido por Emília Silveira.

Cinco anos atrás, Grant Gee recriou a caminhada de W.G. Sebald em Os Anéis de Saturno. No mesmo ano (2014) em que Nancy Kates fez o retrato filmado de Susan Sontag (Regarding Susan Sontag), Martin Scorsese e David Tedeschi concentraram em 97 minutos a trajetória da cinquentenária revista literária The New York Review of Books, em The 50 Year Argument. No ano seguinte, Jacob Bernstein e Nick Hooker, dois admiradores da escritora, jornalista, roteirista e diretora de comédias Nora Ephron (1941-2012), homenagearam-na com uma celebração produzida pelo HBO, Everything is Copy, farta em depoimentos pessoais (Ephron não recusava um talk show) e de parceiros como Tom Hanks, Steven Spielberg, Meg Ryan, Rob Reiner, afinal premiada com um Emmy.

Cedendo o mínimo necessário ao esquematismo reinante nos documentários biográficos, com talking heads revezando-se na explicação e na exaltação do biografado, e fiando-se mais na força das palavras de James Baldwin para construir uma narrativa do racismo na América, Raoul Peck explorou caminho diferente em Não Sou Seu Negro, supreendente êxito de bilheteria no início deste ano. Emília Silveira aprendeu a lição. Nos depoimentos de Callado, exibido ontem na mostra do Rio, com nova sessão terça-feira (às 18h, no teatro do BNDES), ouvimos apenas as vozes dos entrevistados.

O dramaturgo Arthur Miller, a ensaísta, repórter e romancista Joan Didion e os jornalistas Gay Talese e Edward Jay Epstein são os criadores em foco no Festival de Nova York. Arthur Miller: Writer, dirigido pela filha do dramaturgo, Rebecca Miller, é um registro do relacionamento entre os dois, apoiado em filmes e papos caseiros. Também familiar é Joan Didion: The Center Will Not Hold, assinado pelo ator Griffin Dunne (o perdido na noite de Depois de Horas), sobrinho de Joan. Voyeur, de Myles Kane, não versa propriamente sobre a vida e carreira de Talese, mas sobre o processo de pesquisa e criação de seu último e controverso livro, traduzido pela Cia. das Letras. Similar embocadura tem Hall of Mirrors, de Ena e Ines Talakie, em torno da investigação de Edward J. Epstein sobre o vazamento de informes secretos da CIA por Edward Snowden. 

Tivemos um precursor dessa linha de documentários: Joaquim Pedro de Andrade, que no final dos anos 1950 estreou no cinema com O Poeta do Castelo (sobre Manuel Bandeira) e O Mestre de Apipucos (sobre Gilberto Freyre). Em parceria com o cineasta David Neves, o cronista e romancista Fernando Sabino produziu, duas décadas depois, uma série de oito semidocumentários com poetas (Drummond, Vinicius, João Cabral, Bandeira), quatro escritores (Érico Verissimo, Jorge Amado, Guimarães Rosa e José Américo de Almeida) e um homem público chegado às letras (Afonso Arinos de Melo Franco). 

Callado tem outro fôlego. Sóbrio e elegante como o autor de Reflexos do Baile (que ele próprio preferia ao grandioso Quarup), direto no trato de delicados problemas familiares, o filme de Silveira reconstitui sem desvios e complacência a vida fértil e tumultuada do jornalista, em redações do Rio e na BBC, durante a guerra, no front vietnamita e no Xingu. Tumultuada sobretudo pelas bombas aéreas que Hitler despejava sobre Londres e as pressões impostas pela ditadura militar a partir de novembro de 1965, quando Callado teve a ideia de denunciar publicamente o regime presidido pelo general Castelo Branco, durante uma reunião da Organização dos Estados Americanos, no Hotel Glória, no Rio. Na hora, só ele e mais sete intelectuais de peso apareceram para vaiar. 

Callado foi o único jornalista brasileiro proibido por lei de escrever em jornal e revista, relembra Carlos Heitor Cony, outro notório perseguido pelo regime militar e um dos “oito do Glória” (entre os quais Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade) levados de camburão. O episódio gerou até um abaixo-assinado internacional, conforme se vê na cena de abertura, extraída do filme Masculino Feminino, de Godard, em que Jean-Pierre Leaud, instado por Michel Debord, dá seu apoio ao pedido de libertação dos intelectuais presos. 

Godard, diga-se, é uma influência notável no filme, em especial na ênfase visual que Silveira procura dar sempre à palavra escrita, a célula mater da literatura, que Callado sabia dominar com mestria. 

Além de reconstituir uma vida e uma obra exemplares, Callado é o retrato de uma estagnação. Em sua derradeira entrevista, aos jornalistas Matinas Suzuki e Mauricio Stycer, da Folha de S. Paulo, em janeiro de 1997, uma semana antes de morrer e dois dias após completar 80 anos, Callado confessou-se decepcionadíssimo com o Brasil, “um país movido a falsas expectativas”, que não deu certo. Se pudesse vê-lo agora, não mudaria seu conceito. 

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