Ozier Muhammad/The New York Times
Ozier Muhammad/The New York Times

Dois lançamentos de Neil Gaiman chegam às livrarias

Autor da obra que inspirou a série 'American Gods' publica no Brasil o inédito 'Mitologia Nórdica' e ganha reedição de seu primeiro romance, 'Belas Maldições'

André Cáceres*, Colaboração para o Estado

06 Maio 2017 | 16h00

Já bastaria a publicação de um livro inédito de Neil Gaiman no Brasil, Mitologia Nórdica, para justificar uma reflexão sobre a carreira do autor britânico de 56 anos. A reedição de Belas Maldições, seu mais antigo romance, escrito em parceria com o gigante da fantasia Terry Pratchett (1948-2015); e o anúncio da adaptação de dois de seus livros para a televisão no formato de séries (American Gods, inspirada no livro Deuses Americanos, começou a ser exibida pelo canal Starz; Belas Maldições está prevista para 2018, produzida pela BBC) constituem motivo mais que suficiente para uma retrospectiva.

O mundo ocidental, altamente intolerante a culturas “exóticas” – e atualmente forçado a lidar com imigrantes e refugiados provenientes dessas mesmas culturas –, é muitas vezes incapaz de absorver e incorporar características de outras sociedades sem desaguar no mero pastiche ou paródia. Basta lembrar das malsucedidas tentativas de retratar o Brasil em Hollywood. Neil Gaiman, no entanto, mostrou-se capaz de apreender tradições literárias já estabelecidas, respeitando as versões originais, mas traduzindo-as com ousadia para a contemporaneidade e para um mundo urbanizado e moderno. 

Mitologia Nórdica, reunião de contos que narra as histórias de Odin, Thor, Freya, Loki e companhia em um tom leve, quase de fábula, é um exemplo claro dessa característica do autor. Desde a apresentação, Gaiman aproxima a mitologia do cotidiano pela via da linguagem descontraída nesse livro episódico que, embora se passe no tempo imemorial do mito, transfere as lendas relatadas para o público de hoje com uma prosa saborosa e despreocupada. Seus deuses são simpáticos, falantes e até banais em certa medida. Os contos são independentes, mas seguem uma ordem mais ou menos cronológica, desde a origem da Yggdrasill, a árvore dos mundos, o estabelecimento de Asgard e a criação do Mjölnir – o martelo de Thor – até o Ragnarök, o apocalipse nórdico, tudo de uma maneira surpreendentemente leve. 

Essa não é, todavia, a primeira vez que Gaiman trabalha com narrativas míticas. Sandman, quadrinho que o alçou ao estrelato e capitaneado por ele entre 1989 e 1996, é repleto de alusões à mitologia grega, assim como Os Filhos de Anansi leva as lendas africanas para os dias de hoje com um humor digno de Douglas Adams. 

No primeiro romance de Gaiman, Belas Maldições, publicado em 1990 em colaboração com o já consagrado escritor de fantasia satírica Terry Pratchett (conhecido principalmente pela série Discworld), a mitologia abordada é a cristã. O livro reconta o Apocalipse de um ponto de vista contemporâneo, acompanhado um anjo e um demônio que atuam juntos para impedir o fim do mundo. Com humor ácido, não perde nenhuma chance de fazer comentário social sobre a vida inglesa dos anos 1990 em cada página ou nota de rodapé: “Foi então que Marvin entrou para a religião. Não a do tipo silencioso e pessoal, que envolve fazer boas ações e viver uma vida melhor; nem mesmo o tipo que envolve vestir um terno e tocar as campainhas dos outros; mas o tipo que envolve ter sua própria rede de TV e chamar pessoas para lhe dar dinheiro.” Belas Maldições não fica só na religião, apesar de essa ser a temática principal, expandindo a zombaria para a cultura pop, o trânsito londrino e até o sistema monetário britânico. 

O humor na obra de Neil Gaiman vem da contraposição entre o moderno e o arcaico. Ver um anjo, um demônio, um deus ou um ser mitológico no mesmo cenário de celulares, aviões e carros cria uma dissonância cognitiva curiosa que o autor explora como ninguém. Em sua obra-prima Deuses Americanos, Gaiman extrapola as fronteiras entre mito e realidade, transpõe criaturas como o nórdico Odin, a hindu Kali, o africano Anansi ou o egípcio Anubis para os dias de hoje, em um confronto com os novos deuses da tecnologia, da bolsa de valores ou da mídia, muito mais cultuados. 

A literatura de Gaiman, expressão máxima dos efeitos da urbanização na ficção fantástica, é permeada pelo enfrentamento entre mundano e celeste, banal e fantástico, profano e sagrado. Durante todo o século 19, a população mundial vivendo em cidades passou de 5,1% para 13,3%, de acordo com a ONU. No final da década de 1980, quando Gaiman começou a produzir, mais de 40% das pessoas viviam em cidades. O fenômeno da urbanização, que aliado ao desenvolvimento da informática havia produzido nos anos 1980 o cyberpunk de William Gibson (Neuromancer) e Masamune Shirow (Ghost in the Shell), teve Gaiman como principal manifestação na fantasia, gênero que tradicionalmente explorava o pano de fundo medieval. George R. R. Martin (As Crônicas de Gelo e Fogo) e Andrzej Sapkowski (The Witcher) continuaram trilhando com louvor o caminho comum da fantasia, mas a dicotomia rural/urbano provocou o deslocamento das narrativas fantásticas para o ambiente contemporâneo, para a soleira da porta dos leitores. Gaiman não apenas aborda o extraordinário nesses cenários urbanos como também abusa do linguajar moderno em seus personagens mitológicos. 

A excentricidade que Gaiman imprime na realidade fantástica de suas obras não é apenas o desejo fetichista de inserir mitologias exóticas em um contexto incompatível, mas é a forma que o escritor encontrou para criticar a sociedade moderna. Afinal, todas as civilizações projetam os próprios medos, vícios e problemas em seus deuses. Não poderia ser diferente no século 21.

*André Cáceres é jornalista e escritor, autor do romance 'Cela 108' (2015, Multifoco) e presente na antologia poética 'Além da Terra Além do Céu' (2017, Chiado)

Mitologia Nórdica

Autor: Neil Gaiman

Tradução: Edmundo Barreiros

Editora: Intrínseca

288 páginas

R$ 44,90

Belas Maldições

Autor: Neil Gaiman

Tradução: Fábio Fernandes

Editora: Bertrand Brasil

350 páginas

R$ 42,90

Mais conteúdo sobre:
Literatura

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.