Dono de três Oscars, Michel Legrand retorna à música clássica

Dono de três Oscars, Michel Legrand retorna à música clássica

Compositor da trilha de 'Os Guarda-Chuvas do Amor', de Jacques Demy, foi aluno de Nadia Boulanger

João Marcos Coelho*, Colaboração para o Estado

15 Julho 2017 | 16h00

Astor Piazzolla, Egberto Gismonti, George Gershwin, Leonard Bernstein, Aaron Copland, Quincy Jones, Michel Legrand, Philip Glass, Daniel Barenboim, Almeida Prado, John Eliot Gardiner e Elliott Carter. Eles têm algo em comum: todos estudaram na França com Nadia Boulanger (1887-1979), “a mais influente professora desde Sócrates”, segundo um compositor contemporâneo que também passou por suas classes de análise e composição, mantidos por ela por mais de 60 anos. 

Compositora, organista e regente, professora da Escola Normal de Música e do Conservatório de Paris, fundou e dirigiu o Conservatório de Fontainebleau. A Piazzolla, aconselhou que desistisse de suas aulas e mergulhasse no que tinha de melhor, a reinvenção do tango, que de certo modo ela previu. Um ex-aluno brasileiro, o compositor José Antonio de Almeida Prado (1943-2010) sintetizou seu ensino numa carta emocionada que lhe enviou em 1973: “Começo a colher os frutos do que a senhora plantou no meu coração. A harmonia, a ordem, a fantasia, a escuta, a atenção.” 

Harmonia, ordem, fantasia, escuta, atenção. Todas estas virtudes estão presentes em um dos alunos preferidos de Mademoiselle Boulanger: Michel Legrand. Menino-prodígio, admitido no Conservatório de Paris aos 10 anos e medalha de ouro em harmonia e composição aos 16. Foi lá que estudou composição com Nadia. E resume assim a melhor lição que aprendeu: “Ela sempre me falava: ‘Coloque o que quiser acima e abaixo da melodia, mas, aconteça o que acontecer, é sempre a melodia que conta’. De minha parte, a melodia é uma amante à qual sempre serei fiel”. Em outra ocasião disse que “um belo tango vale para mim mais do que algumas óperas de Wagner”.

Provocações à parte, Legrand é músico de exceção. Aos 85 anos, contabiliza três Oscars em mais de 150 trilhas sonoras, incluindo obras-primas como Viver a Vida (1962), dirigido por Jean-Luc Godard, e Os Guarda-Chuvas do Amor (1963) com Jacques Demy. Em Crown, o Magnífico (1968), Legrand inverteu os papéis, conta João Máximo em A Música no Cinema: o diretor Norman Jewison tinha 5 horas de filme e não sabia como cortar para uma duração comercial. Legrand propôs compor a música pensando nos trechos que lhe parecessem fundamentais para o romance entre Steve McQueen e Faye Dunaway. Depois Jewison editaria em função da música. “Por menos crível que seja”, escreve Máximo, “foi mesmo assim que se chegou aos 102 minutos com os quais o filme seria visto nos cinemas”.

Mas Legrand é muito mais. Excepcional pianista de jazz, tocou e gravou com vários dos mais notáveis jazzmen modernos, incluindo Miles Davis. Como arranjador, conquistou os EUA aos 22 anos, com um LP contendo canções sobre Paris (I Love Paris). Foi seu passaporte para o mundo do jazz. Hollywood seria conquistada na década seguinte. 

Das lições de Mlle. Boulanger ele jamais esqueceu. Por isso, de vez em quando revisita a música clássica. Em 1994 gravou dois CDs de piano solo: um com as peças excêntricas de Erik Satie (1866-1925), o “enfant terrible” da música francesa das primeiras décadas do século 20; o segundo é um panorama da música norte-americana no século 20, de Samuel Barber a Aaron Copland, de Scott Joplin a Gottschalk e a Amy Beach, Gershwin; e os experimentais Conlon Nancarrow e John Cage.

A mais recente aventura “clássica” de Legrand é um CD ambicioso recém-lançado (Warner), com dois concertos com orquestra: um para piano em que, aos 85 anos, esbanja virtuosismo e sensibilidade também como solista; e um concerto para violoncelo, com Henri Demarquette, francês de 46 anos. Em ambos, são acompanhados pela Filarmônica da Radio France, regida por seu novo titular, o finlandês Mikko Franck, de 38 anos.

Michel loves Maurice e Claude, ou Legrand adora Ravel e Debussy – este pode ser o mote do excelente concerto para piano, que já começa evocando o concerto em sol de Ravel, com o pianista atacando sobre uma orquestração arisca, de jogos de timbres etéreos. Os temas basicamente rítmicos exploram um cacoete do músico: o uso de duas tonalidades simultâneas, o bitonalismo, recurso usado por Darius Milhaud, entre outros compositores franceses dos anos 30 e 40. A harmonia fica mais rica, embora não se sintam dissonâncias. Depois do Presto inicial, o movimento lento, o mais longo da obra, com quase 13 minutos, é uma apaixonante ode à melodia, amante da qual ele jurou jamais se separar. O finale vertiginoso volta a beber em Ravel. 

A paixão pela melodia adquire maior proeminência ainda no concerto para violoncelo. Em cinco movimentos, é mais extenso, mas igualmente atraente. O violoncelo rouba a cena desde o início, com uma melodia no registro grave que ascende firme, mas sempre com delicadeza, acolchoado pela orquestra. Como no concerto para piano, aqui também o movimento central, o adagio, é o mais longo e emocionante, com um discurso melódico envolvente, costurado com uma leveza de mestre na orquestração. O finale, não por acaso, chama-se La Plus que Lente, o título da valsa de Debussy. Uma brincadeira cifrada de Legrand com um dos irresistíveis pastiches debussystas levados a sério demais pelos pianistas de hoje em dia. Concerto e valsa terminam em pianissimo (ppp). Puro encantamento.

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