DOR PETRIFICADA

Além das dezenas de vidas, a lama em Mariana soterrou o processo de luto de parentes e amigos dos desaparecidos no desastre

Sérgio Telles, O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2015 | 07h00

A explosão de lama em Mariana, soterrando sabe-se lá quantos seres humanos, é nossa versão tupiniquim da erupção do Vesúvio em Pompeia. Lá, a ira dos deuses, a manifestação indômita da natureza. Aqui uma tragédia por falha humana, perfeitamente evitável se empresa e estado cumprissem com suas obrigações.

O país da piada pronta, como diz Zé Simão, transforma-se de maneira trágica no país que concretiza metáforas, a recorrente metáfora do mar de lama que sobre nós se abate há tanto tempo. Trata-se de um grande desastre ecológico, com imensos prejuízos materiais e perdas humanas ainda não quantificadas, ao lado da vergonhosa atitude dos responsáveis. Mais uma vez nos defrontamos com evidências de nosso atraso – o cortejo de ineficiência, incapacidade, irresponsabilidade, possíveis impunidades. A resposta que a sociedade deveria dar ao calamitoso evento precisaria ir além do habitual envio de roupas e mantimentos, canalizando a indignação na cobrança de que sejam apuradas as responsabilidades.

Além do prejuízo material, muitos perderam entes queridos e devem ingressar num longo período de luto, o complicado processo pelo qual, pouco a pouco, aquele que permanece vivo desliga os afetos que havia depositado na figura do morto. Todo o amor e ódio que lhe dedicava terá de ser mobilizado, retirado e reinvestido em outras pessoas e interesses. É imprescindível que o sobrevivente aceite que houve uma grande perda, que reconheça que o ente querido não está mais entre os vivos e que, para continuar ele mesmo a viver, é necessário que esse grande rearranjo interno seja cumprido para lidar com a nova realidade. Isso não quer dizer que o sobrevivente abandone o morto ao esquecimento. De alguma maneira o morto ficará sempre com ele, não só sob a forma de recordações e lembranças, como na própria forma com a qual moldou seu modo de ser no convívio com o falecido.

Dependendo do grau de intimidade e da importância da pessoa perdida, a dor pode ser muito intensa, insuportável. O sobrevivente se defende do sofrimento, procurando negar a perda, ignorá-la, fazer como se nada de especial tivesse acontecido.

A experiência milenar nos ensinou que os rituais fúnebres são importantes nesse difícil transe, marcando o acontecimento e lhe dando uma dimensão social.

Os rituais fúnebres organizam as homenagens ao morto, criam um espaço onde sua vida e feitos possam ser relembrados e que seu passamento seja propriamente lamentado. Além do mais, providenciam a forma como seus restos mortais sejam dispostos. Cada cultura tem seus modelos quanto a eliminação (enterro, cremação etc) ou manutenção (embalsamamento) do corpo. Na presença dos restos mortais do ente querido, familiares e amigos o pranteiam, compartilham sentimentos e recordações. Nesses rituais, a figura do representante religioso é fundamental. Ele dá seu aval ao acontecimento, afirmando que o desaparecimento não é definitivo. O morto apenas partiu antes para o lugar ao qual, mais dia menos dia, todos irão e ele ali os espera. Assim o religioso tranquiliza e consola duplamente, ao garantir a sobrevida do morto e dos demais que vão morrer.

Quando a família não dispõe dos restos mortais de seu ente querido é forçada a colocá-lo na categoria dos desaparecidos. Habitualmente isso acontece por ocasião de grandes calamidades naturais, acidentes em grande escala, convulsões sociais, abusos totalitários do estado, crimes não solucionados.

É verdade que a categoria de desaparecidos não se restringe àqueles que passivamente sofreram desses desastres. Muitas vezes as pessoas escolhem mudar de vida e cortar relações com família e amigos. O problema é tão relevante que, em países avançados, há departamentos policiais voltados especificamente para esse problema, quase sempre indicativo de graves traumas emocionais familiares.

No caso dos involuntariamente desaparecidos, o que ocorre é que não tendo a realidade concreta do corpo morto para ancorar a realidade da morte do ente querido, fica mais fácil seus amigos e familiares negarem a perda, fica mais difícil aceitá-la. O processo do luto fica prejudicado, dificultado. Não tendo a contrapartida do corpo morto e enterrado para confrontá-lo e barrá-lo, o desejo dá rédea solta à negação da realidade e se apega a inverossímeis e remotas possibilidades de que a morte não tenha acontecido.

Essa triste condição ocorre agora em Mariana, onde um grupo de pessoas se vê em dolorosa expectativa, listando familiares na categoria de desaparecidos vagando no limbo entre vida e morte, o que os impossibilita de comemorar a sobrevivência deles ou de prestar-lhe as devidas honras fúnebres.

SÉRGIO TELLES É PSICANALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE "VISITA ÀS CASAS DE FREUD E OUTRAS VIAGENS" (EDITORA CASA DO PSICÓLOGO)

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