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ENRIQUE DE LA OSA | REUTERS

E, sin embargo, a aposentadoria

Se Raúl dá sinais de que deixará o poder no final do mandato, ao mesmo tempo parece (muito bem) disposto a conservar a influência dos Castros em Havana

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Anthony DePalma,
O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2016 | 16h00

Depois de se manter à sombra de Fidel, seu irmão mais velho, mais alto, mais ousado e mais beligerante, Raúl Castro hoje é inquestionavelmente a grande estrela no cenário cubano, conquistando cada vez mais aceitação e respeito para si mesmo e para seu país no mundo inteiro.

Recentemente ele foi acolhido calorosamente pelo presidente François Hollande e nessa semana recebeu o papa Francisco, que retornou a Havana pela segunda vez em menos de seis meses, para se encontrar com o patriarca Kirill da Igreja Ortodoxa Russa – o primeiro encontro entre líderes dos dois ramos da igreja em mais de mil anos.

Sim, não há dúvida de que o mais jovem e menos vibrante da extraordinária dupla de irmãos conseguiu avançar desde que Fidel deixou a liderança, há uma década. Mas, ao contrário do irmão, que foi o incontestável governante de Cuba de 1959 a 2006, Raúl tem deixado claro que, na sua opinião, existe um limite de tempo para qualquer pessoa dirigir uma nação.

Foi basicamente o que ele disse a José Mujica, ex-presidente do Uruguai, que esteve em Havana no mês passado visitando os irmãos. Raúl confirmou, como o fez várias vezes nos últimos anos, que pretende deixar a função quando seu mandato terminar, em fevereiro de 2018, abrindo o caminho para uma nova geração de políticos que nasceram após o triunfo da revolução de 1959.

“Raúl tomou a decisão”, disse Mujica ao jornal La República, após sua visita. “Por quê? Porque não pode lutar contra a biologia, e essa decisão tem de ser respeitada porque é definitiva.”

A biologia a que Mujica se referiu é inegável. À época em que o atual mandato de Raúl Castro encerrar, em 2018, ele estará com 86 anos de idade, próximo de completar 87. Ou seja, mais de seis anos mais velho do que Fidel, em 2006, quando problemas de saúde o forçaram a delegar o poder provisoriamente. Dois anos depois, em 2008, Fidel se aposentou em definitivo e a Assembleia Nacional escolheu Raúl como seu sucessor na presidência e líder do poderoso Partido Comunista cubano.

Quando foi reeleito para um segundo mandato em 2013, Raúl anunciou formalmente que esse seria seu último mandato e que Cuba precisava se preparar para uma sucessão para uma nova geração. Na mesma reunião, a Assembleia Nacional escolheu o engenheiro elétrico de 52 anos e ex-ministro da Educação, Miguel Diaz Canel, para primeiro vice-presidente, portanto o mais provável sucessor de Raúl em 2018.

Por seu lado, Raúl não poupa elogios a Diaz Canel, qualificando sua escolha como “um passo definitivo na configuração da futura liderança do país por meio de uma transmissão de poder organizada e gradativa para a nova geração assumir as principais funções”.

Desde então, tem reafirmado sua decisão de se aposentar. Durante uma visita diplomática ao México no ano passado, Raúl chegou mesmo a se referir, em tom de brincadeira, à sua iminente aposentadoria. “Não me tornarei o bisavô nem o bisneto porque, do contrário, os cubanos se cansarão de mim”, disse ele, de acordo com jornais mexicanos.

Embora não existam garantias de que manterá sua palavra (nenhuma lei em Cuba prevê prazos de mandato), há indicações de que preparativos para a transição vêm ocorrendo em Cuba e no exterior. Nessa semana, em Washington, James R. Clapper, diretor da Inteligência Nacional, depôs na Comissão de Serviços Armados do Senado dizendo que uma transição em 2018 seria “provável” e que os líderes cubanos vinham se preparando para enfrentar os desafios que acompanharão uma sucessão sem precedentes.

“As reformas econômicas para reduzir o papel do Estado na economia e promover a atividade econômica continuarão lentamente”, disse Clapper. “Em parte por causa da provável resistência dos líderes e autoridades de governo mais velhos, preocupados que mudanças rápidas possam provocar agitações populares.”

Desde que assumiu o governo, em 2006, e mais intensivamente desde a normalização das relações com os Estados Unidos em 2014, Raúl Castro adotou algumas medidas para tornar mais livre a economia cubana: permitiu um número limitado de empresas privadas a operar, concedeu aos proprietários de imóveis o direito de comprar e vender sua propriedade e ampliou o acesso da população à internet num dos países menos conectados do mundo.

Embora os Estados Unidos até agora rejeitem suspender o embargo econômico imposto há mais de 50 anos, apesar das demandas de Raúl Castro e a insistência do presidente Barack Obama para o Congresso se decidir, medidas já foram adotadas na direção de uma economia mais aberta, o que tem preocupado alguns radicais da geração mais velha, dos tempos da revolução.

Castro precisou tranquilizar essa velha-guarda no sentido de que as mudanças não significam mudança de ideologia.

“Não fui escolhido presidente para restaurar o capitalismo em Cuba”, afirmou, durante uma sessão da Assembleia Nacional em 2013, tentando tranquilizar os membros mais inquietos. “Fui eleito para defender, manter e continuar a aperfeiçoar o socialismo, não destruí-lo.”

A abertura de alguns setores da economia combinada com a grande afluência de turistas americanos, possibilitada pelas mudanças feitas pelo governo Obama, mudaram a fisionomia de Havana. Garçons e motoristas de táxi são os que mais ganham com as gorjetas recebidas de turistas americanos ansiosos para ver Cuba “antes que mude”. Durante a temporada é difícil encontrar vagas em hotéis, assim como carne e peixe nos supermercados. Os humildes “paladares” (pequenos restaurantes familiares), que há alguns anos eram a vanguarda da nova economia, deram espaço a restaurantes de luxo com nomes como Elite, que não estariam fora de contexto em cidades como Rio ou Miami.

E principalmente, à medida que Raúl tenta consolidar seu legado, sua responsabilidade primordial será assegurar a continuação do sistema político que ele e seu irmão impuseram. Embora afirme que deixará o cargo de presidente em dois anos, Raúl não diz que renunciará também à função mais fundamental de primeiro secretário do Partido Comunista, garantindo que continuará a influenciar a maneira como Cuba é governada, independente de quem o sucederá na presidência.

No decorrer das décadas surgiram muitos políticos jovens, elegantemente prontos para assumir a função, no entanto um dia depois eram banidos do Politburo por questões de arrogância ou deslealdade. Nesse momento não há nenhuma indicação de que Miguel Diaz Canel não ascenderá à presidência em fevereiro de 2018, mas por algum tempo não saberemos até onde irá o seu poder.

Além de Raúl Castro permanecer na chefia do Partido Comunista e a voz frágil, mas influente, de Fidel, continuar a ecoar basicamente no jornal impresso, analisando assuntos importantes, por trás das câmeras talvez se verifique um acordo de divisão de poder para levar adiante o regime. Os dois políticos que provavelmente assumirão papéis importante no futuro são parentes de Raúl. O general Alberto Rodriguez López Callejas, seu cunhado, hoje dirige a Gaesa, instituição das Forças Armadas que tem a importante missão de administrar a economia controlada pelo Estado. E o coronel Alejandro Castro Espin, filho de Rául, desde a normalização das relações com Estados Unidos assumiu um papel cada vez mais importante ao lado do pai.

A peça remanescente do xadrez da sucessão cubana não está na ilha, mas em Washington. A estridente campanha em curso para determinar o sucessor de Barack Obama deverá ter um importante impacto sobre Cuba, aprofundando a normalização que vem ocorrendo ou criando obstáculos no caminho.

“Se os democratas mantiverem o controle da Casa Branca, haverá uma continuidade da política relativa a Cuba”, disse o professor Richard Feinberg, especialista em América Latina na Brookings Institution, em Washington. “Mas do lado republicano é muito mais confuso. Entre os candidatos temos dois cubano-americanos (os senadores Ted Cruz e Marco Rubio), que têm interesse pessoal não em reverter o processo, mas em congelar qualquer novo movimento”, disse o professor. “E temos Jeb Bush que, quando governador da Flórida, se relacionava muito bem com radicais cubanos, mas agora mostra-se mais pragmático com relação a Cuba.”

O maior ponto de interrogação é o atual pré-candidato republicano Donald Trump. “Quem sabe no que ele realmente acredita?” indagou Feinberg.

Quando Raúl se afastar, ele terá tido a chance de ver a revolução evoluir dos primeiros dias de lutas sangrentas em Sierra Maestra, ao lado do seu irmão mais famoso, para uma espetacular composição com a Casa Branca, depois de tantas décadas de agressão e tensão.

Mas seu maior triunfo pode estar na maneira como deixará o cargo – com um sucessor e uma transição pacífica para uma geração mais jovem. “O calcanhar de Aquiles do sistema autoritário é a sucessão”, observou Feinberg. “O erro que muitas pessoas cometeram foi pensar em Cuba como uma espécie de ditadura personalizada. Na verdade, é um Partido Comunista institucionalizado, com aparelhos e instituições de governo que sobreviverão aos dois irmãos”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

ANTONY DEPALMA É EX-CORRESPONDENTE DO JORNAL THE NEW YORK TIMES E AUTOR DE VÁRIOS LIVROS, ENTRE ELES O HOMEM QUE INVENTOU FIDEL (COMPANHIA DAS LETRAS). ESCREVEU ESTE ARTIGO ESPECIALMENTE PARA O ALIÁS

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