Márcio Fernandes/Estadão - Tirada com Moto Z Play + Hasselblad True Zoom
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'É bom que a poesia seja um lugar de hesitação', diz Annita Costa Malufe

Poeta busca inspiração em Ana Cristina Cesar e lança quinto livro, 'Um Caderno para Coisas Práticas'

André Cáceres*, Colaboração para o Estado de S. Paulo

04 Fevereiro 2017 | 16h00

Na sala com móveis de madeira lisa e imagens de santos encimando quatro das estantes de livros, a poeta Annita Costa Malufe recebeu a reportagem do Aliás enquanto seus dois gatos varriam o recinto de cima a baixo. As plantas na sacada, o sofá baixo de tecido cinza escarpado, o azul do azulejo quadriculado sobre uma mesinha de centro, cada elemento do ambiente diz algo sobre a escritora e professora que tem como fonte de inspiração nomes como Ana Cristina Cesar, Fernando Pessoa e Waly Salomão. 

Os tomos precariamente organizados por assuntos remetem à poética de sistematização e caos de que a autora trata entre outros assuntos em Um Caderno para Coisas Práticas, publicado pela Editora 7Letras. “O caos pode criar uma mania de organização. A gente vive uma necessidade de tudo muito controlado, calculado, limpo. Isso vai deixando os homens desesperados quando eles veem que não conseguem alcançar esse ideal”, diz Annita, que propõe uma forma de “dançar com o caos” em seu novo livro.

Desde que produziu trabalhos acadêmicos sobre Ana Cristina Cesar em seu mestrado e doutorado, publicadas ao longo da última década (Territórios Dispersos: a Poética de Ana Cristina Cesar, Annablume/Fapesp, 2006; Poéticas da Imanência: Ana Cristina Cesar e Marcos Siscar, 7 Letras/Fapesp, 2011), Annita observa um “texto louco” na obra da poeta carioca. Em seu trabalho mais recente, que sucede Fundos para Dias de Chuva (7 Letras, 2004), Nesta Cidade e Abaixo de Teus Olhos (7 Letras, 2007), Como se Caísse Devagar (Editora 34, 2008) e Quando Não Estou por Perto (7 Letras, 2012), a poeta se distancia de Ana Cristina para abarcar novas referências, sem deixar de assumi-la como interlocutora. “Quando a gente lê muito um autor, a gente se contamina, tem gestos de escrita que acabam se incorporando, às vezes até vocabulário. Aquelas vozes ficam te povoando”, afirma.

Leia a entrevista completa com Annita Costa Malufe:

Como você trabalha com a dinâmica da memória e do esquecimento?

Eu trabalho bastante com a questão da memória, mas no sentido de uma impossibilidade de uma memória absoluta. Essa ideia de que a memória é sempre fragmentada, parcial, sempre alguma coisa que está em mutação. Em vez de pensar na memória como um reservatório, pensar nela como uma coisa dinâmica, que está sempre em movimento e em transformação. É como se o presente modificasse a todo tempo as coisas que já aconteceram. Eu gosto muito de trabalhar com isso que o Proust chamava de memória involuntária, numa conversa com o filósofo Bergson. Ele falava de uma memória que emerge de repente, e sem você esperar e que você não tem controle. Como se alimentar dessas imagens e não só ficar refém delas? As imagens em si não são nem boas e nem ruins, mas a nossa experiência delas é que conta.

Você falou de como viramos reféns das imagens. Tem um teórico da comunicação, o Norval Baitello, que fala das imagens que devoram a gente. No mundo atual, a gente está cercado por imagens que nos devoram?

É incrível a capacidade que as imagens têm de virar clichês. Talvez a briga da arte sempre tenha sido contra os clichês, principalmente a partir da arte moderna, no fim do século XIX, começo do XX. É claro que quando você pensa em imagem da tecnologia, midiática, dos meios de comunicação de massa, você está pensando em uma proliferação de clichês, que vão pouco a pouco anestesiando as nossas sensações. Não modificam mais o sujeito, só confirmam modos de subjetivação já muito estereotipados. Acho interessante usar as imagens contra as imagens, gosto de poemas que trabalham com imagens no sentido de desfazer essas imagens fáceis do senso comum. Elas têm que ser um pouquinho esquisitas também para não virar clichê.

Nesse livro, você já começa falando sobre listas de coisas sistematizadas, mas parece que isso se torna caótico. Você usa a imagem da organização para passar a ideia do caos?

Uma coisa que me ocorre é essa ideia da impossibilidade da organização, do quanto que os homens tentam organizar o caos minimamente para poder viver e sempre o caos acaba invadindo e desorganizando. A gente está sempre tentando lidar com essa impossibilidade de controle total da realidade. Para algumas pessoas, isso é muito desconfortável. O caos pode criar uma mania de organização nas pessoas. A gente vive isso hoje em dia. Uma necessidade de tudo muito controlado, calculado, limpo. Isso vai deixando os homens desesperados, quando eles veem que não conseguem alcançar esse ideal de organização. Como que a gente pode conseguir dançar um pouco com o caos?

Como você citou no livro, “A memória é uma ilha de edição”. A memória é seletiva ou ela realmente se esvai?

Eu acho que a memória realmente se esvai, mas isso não quer dizer que ela não possa voltar às vezes involuntariamente a partir de algo que dispare. Por isso a ideia da memória involuntária. Ela é inconsciente. Eu gosto dessa ideia de lapsos. “A memória é uma ilha de edição” é um verso do Waly Salomão que eu acho incrível. A memória seleciona, recompõe, reconfigura, coloca coisas que aconteceram depois antes, coisas que aconteceram antes depois, faz uma verdadeira edição. Mais uma vez, é uma coisa que a gente controla muito pouco. O sujeito não tem muita vez nessa edição, é da ordem mais do corpo do que qualquer consciência abstrata ou racional.

Se você não tem memória de alguém, você não consegue entrar em relação com essa pessoa. Como fica o sentimento na questão de perder a memória na sua poesia?

A memória é intimamente ligada à identidade. Eu só sei que eu sou eu porque me lembro. Uma outra relação é o “quem sou eu” e “quem são os outros”. Com certeza, quando você tem lapsos de memória, alguma coisa da ordem do afeto está acontecendo. Tem até essa questão de grandes traumas em que você realmente perde a memória. O esquecimento é uma defesa do organismo. Às vezes até por incapacidade de sentir aquilo. É da ordem do ‘invivível’, que você não pode viver. 

Você vê o ser humano coletivamente perdendo a sua história por delegar a memória a terceiros como a tecnologia?

A gente está na era do arquivo. Tudo é arquivado de mil maneiras, com mil tecnologias de arquivo. Que tipo de memória está se construindo?  Que tipo de subjetividade está sendo construída a partir desse excesso de dispositivos de memorização? Provavelmente as subjetividades estão mudando, se memória tem a ver com identidade, com subjetividade, a partir do momento que a gente tem outros modos de memória disponíveis, você está criando também sujeitos que tenham outro jeito de lidar com a memória. 

Fale um pouco sobre a inspiração que você tem da poesia da Ana Cristina Cesar.

Entrei em 2000 para fazer o mestrado e decidi que eu ia fazer um trabalho sobre a poesia da Ana Cristina Cesar, que pra mim era uma poesia muito esquisita no sentido de ser  de difícil apreensão e de muitos lapsos, coisas que não faziam sentido. Vim com uma ideia de que ela seria autora de um texto louco. Trabalhava também com essa ideia de que a Ana Cristina ia construindo vários lugares desconectados. Se você imaginar que o poema é um lugar, cada poema traz muitos lugares em um só. Ou um lugar muito descentrado, feito de muitos centros, por ver na poesia dela uma coisa muito radical, muito próxima das vanguardas, trabalhando meio que em um abismo, num limite. Continuei trabalhando com a poesia dela no meu doutorado, onde eu fiz um estudo comparativo com a poesia do Marcos Siscar, que atualmente é um dos poetas e críticos literários que eu mais respeito, um estudioso de teoria literária e professor da Unicamp. O que teria em comum nas duas poéticas para mim é o fato de que elas exigem um leitor diferente, com uma outra predisposição, como se eles construíssem, criassem um outro modo de leitura, tanto a Ana Cristina Cesar quanto o Marcos Siscar. Acho que o grande poema faz isso, pede um novo leitor para novos problemas que ele cria.

E como sua poesia dialoga com a dela?

Nunca tentei imitar a Ana Cristina, de maneira alguma, mas eu acho que quando a gente lê muito um autor, a gente se contamina, tem gestos de escrita que acabam se incorporando, às vezes até vocabulário, você acaba aprendendo muito, e às vezes você está imerso naquilo e quando você está em um trabalho de pesquisa, você está realmente imerso. Aquelas vozes ficam te povoando. Então tem alguns poemas meus que realmente estão em diálogo com a poesia da Ana Cristina de um modo mais aparente. Mas já acho que isso acontece mais até o momento em que eu estou fazendo meu trabalho de doutorado, em que eu estou ali mais próxima dela. Depois, nesse meu último livro, Um Caderno para Coisas Práticas, eu já estou em um outro lugar, com outras referências, embora a Ana Cristina seja um dos meus interlocutores sempre.

Em vários momentos no seu livro, há muita hesitação e parece que o eu lírico está sempre sendo confrontado com alguém irritado com esse esquecimento. De onde vem essa hesitação?

Acho que tem também essa confrontação com a sociedade. Ninguém perdoa que a gente não lembre as coisas, que a gente não lembre o nome. O esquecimento é quase imperdoável socialmente. Acho que todo mundo que esquece pede desculpa. É quase um pecado não se lembrar. Eu me incomodo muito com meus esquecimentos. Como professora, um dos fantasmas é o branco. E se eu chegar lá e esquecer? Tem esse fantasma do lapso, do branco, da interrupção. Como retomar o fio apesar das interrupções? Na verdade a nossa cabeça é mais interrompida do que a gente imagina, mas a gente tem essa tentativa de sempre retomar o fio, ser coerente, ser linear, não interromper, é o modo socialmente esperado. Como a gente se permite esquecer, como a gente se permite hesitar? A hesitação também não é socialmente bem vista. Quando você é um líder, tem que ser assertivo, não pode hesitar, tem sempre que ter uma resposta. Então acho que é bom que a poesia possa ser um lugar de hesitação. Que a arte possa ser um lugar em que a hesitação é uma coisa de valor, porque nada é mais humano e animal do que a hesitação, a dúvida. Seria bom se isso fosse mais aceito. 

*André Cáceres é colaborador do 'Aliás' e autor do livro 'Cela 108', da editora Multifoco

'Um Caderno para Coisas Práticas'

Annita Costa Malufe

Editora 7 Letras

104 pág.

R$ 34

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