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'É difícil distinguir a visão política de um autor da de seus romances', diz John Scalzi

Autor de 'Guerra do Velho' fala sobre militarismo em seus livros e afirma que a ficção científica 'não é mais só para homens heterossexuais brancos'

André Cáceres*, Colaboração para o Estado de S. Paulo

11 Fevereiro 2017 | 16h00

A vida começa aos 75 anos, mas nem mesmo o futuro pôs fim às limitações biológicas das pessoas na space opera Guerra do Velho, livro de estreia do norte-americano John Scalzi, recentemente lançado no Brasil pela editora Aleph, que deve publicar este ano outra obra sua, Encarcerados (Lock In). Em Guerra do Velho, os terráqueos podem se alistar no exército da União Colonial apenas quando completam 75 anos de idade. Alguns servem para defender a espécie, outros pela curiosidade de explorar o espaço. Comum a todos é a esperança de serem rejuvenescidos pela avançada tecnologia das colônias.

Inaugurando uma série que conta hoje com seis livros e três histórias curtas, Guerra do Velho bebe na fonte de um gigante da ficção científica militar, Robert A. Heinlein, autor de Tropas Estelares (1959), levado ao cinema por Paul Verhoeven. Com algumas décadas de vantagem, Scalzi renova diversos conceitos para formular um vislumbre do futuro mais adequado às expectativas atuais e condizente com as novas descobertas científicas. Em entrevista ao Aliás, John Scalzi explica: “Tento me manter atualizado sobre as inovações da ciência e usá-las como trampolim para imaginar para onde a tecnologia vai no futuro. Você pode fazer as pessoas aceitarem esse tipo de especulação, desde que seja embasada em coisas já comprovadas ou pelo menos amplamente discutidas”.

Autor de outros livros ainda não publicados no Brasil como Agent to the Stars, e Redshirts (vencedor do prêmio Hugo em 2013), Scalzi é um escritor tão multifacetado quanto os novos tempos demandam. Sua presença é intensa na internet, principalmente por meio de seu site Whatever; ele prestou consultoria para a série de televisão Stargate Universe; e escreveu para audiolivros como The Dispatcher, exclusivo em áudio, e Fuzzy Nation, que recebeu o prêmio Audie Award de ficção científica em 2012.

Desde a aurora das grandiosas space operas, épicos situados no espaço como as séries Duna, de Frank Herbert, e Fundação, de Isaac Asimov, um dos problemas enfrentados pelas narrativas é a impossibilidade de alcançar velocidades superiores à da luz, o que tornaria as viagens interplanetárias inviáveis e, portanto, as histórias impraticáveis. Enquanto outros livros simplesmente descartam essa questão e trabalham com a premissa de que exista uma forma de recusar a física, John Scalzi contorna esse problema com certa elegância, propondo uma especulação sobre os saltos hiperespaciais mais rebuscada, sem entrar, no entanto, em detalhes técnicos maçantes. “A tecnologia e a ciência que você insere em uma história são o livro de regras do universo com o qual se trabalha. Uma vez que você estabelece as regras, tem que jogar conforme as mesmas, ou o leitor vai ficar irritado por você trapacear”, afirma Scalzi. 

Ao apresentar um futuro belicoso calcado na guerra constante, o autor provoca reflexões de ordem ética, tocando na criação de soldados artificiais e na reversão do envelhecimento por meio da substituição do corpo dos personagens. Questionando o problema da identidade, traça um paralelo com o mito grego do navio de Teseu: até quando o indivíduo ainda é ele mesmo após trocar todas as partes que o constituem? Onde fica a consciência nesse processo de alienação do corpo?

Um ponto sensível de Tropas Estelares que Guerra do Velho repete, entretanto, é a ode ao militarismo. Diferente de Guerra Eterna (1974), de Joe Haldeman, Scalzi não compõe uma obra antiguerra. Embora seja um autor progressista, ele acha simplista dizer que os valores militares presentes em seu livro sejam retrógrados. “O verdadeiro pensamento militar sempre clama por ideias radicais, não convencionais. O que é conservador são conceitos como obediência, disciplina, patriotismo. Certamente penso que esses valores merecem ser observados e manipulados em termos de ficção”, pondera. 

Heinlein despertou a fúria de setores da sociedade que o consideraram reacionário ao oferecer uma visão romanceada do militarismo. Essa acusação seria desmontada em 1961, com o romance de Estranho Em Uma Terra Estranha, adotado pela contracultura anos depois como uma crítica às contradições sociais. O mesmo aconteceu com Scalzi, à época do lançamento de Guerra do Velho. “Muitas pessoas pensaram que eu era um conservador e ficaram surpresos, e alguns até decepcionados, quando viram que não. É sempre difícil distinguir a visão política de um autor da de seus romances. Meus universos têm políticas com as quais eu não necessariamente concordo, porque eu tenho esses valores como extensões naturais da forma com que eu os construo”, acrescenta.

A inserção da tecnologia especulativa, como um comunicador integrado à mente, desempenha papel fundamental na trama, permitindo diferentes camadas de diálogos. “Você não cria personagens à parte do universo que construiu, ou está fazendo isso errado. Assim como somos influenciados pelo mundo em que vivemos, eles serão pelo deles”, diz.

John Perry, protagonista de Guerra do Velho, diverge de Juan Rico, de Tropas Estelares. Ambos se alistam por curiosidade, mas, ao se deparar com batalhas que considera injustas e enfrentar inimigos sem saber o motivo, Perry questiona a própria humanidade, preso em um corpo que não reconhece e nem lhe pertence, sentindo-se apenas uma ferramenta nas mãos de senhores da guerra sem face. Scalzi, diferente de Heinlein, mostra como a guerra provoca a desumanização e faz com que até mesmo o mais asqueroso alienígena possa soar mais humano do que nós em determinadas circunstâncias.

Da mesma forma que Scalzi se distancia, em sua obra, da referência de Heinlein, ele acredita que outros escritores contemporâneos do mesmo estilo têm muito a contribuir em questão de diversidade. “Não é mais só um gênero para homens heterossexuais brancos”, afirma, antes de fazer uma ressalva: “Essa espécie de ficção científica clássica ainda existe. Eu a escrevo! Mas é apenas parte do gênero, não mais a maioria. É uma boa hora para se ler ficção científica”, comemora John Scalzi. 

*André Cáceres é jornalista, escritor, colaborador do 'Aliás' e autor do livro 'Cela 108' da Editora Multifoco

'Guerra do Velho'

Autor: John Scalzi

Tradução: Petê Rissati

Editora: Aleph

368 páginas

R$ 39,90

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