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E o vento levou...

Nesta segunda-feira, a 2001 Vídeo sai de cartaz. Um fast-foward de streaming, on demand, YouTube, nuvens, imóveis caros e a nossa mudança de hábito mataram a locadora favorita dos cinéfilos de SP

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Gilberto Amendola,
O Estado de S.Paulo

16 Janeiro 2016 | 16h00

Neste domingo, quando a última loja da 2001 Vídeo baixar as portas e os créditos finais começarem a subir, por gentileza, rebobine a fita. Aperte o rewind do seu videocassete (de 4 cabeças) e volte à primeira cena, àquela em que a jovem Sônia Abreu aparece trabalhando no departamento de RH de um banco – acomodada em uma carreira segura e tediosa.

Mas estamos no comecinho dos anos 80, a década das ombreiras pesadas, da gola rolê, do Simple Minds e do aparecimento das videolocadoras. Convidada por uma amiga, Sônia sai do serviço e vai matar sua curiosidade cinéfila na recém-inaugurada Omni Vídeo, uma das primeiras videolocadoras de São Paulo. Pause. Reprodução quadro a quadro. Eis aqui o detalhe, a revelação, a epifania, o chamado que não pode ser ignorado. Aperte o play outra vez. Fita que segue.

 

Sônia pede demissão do banco e com o dinheiro da rescisão investe em um imóvel pequeno, não mais que 50 metros quadrados, bem em frente ao Masp, na Avenida Paulista. Assim, em outubro de 1982, nasce a 2001 Vídeo. No começo, são apenas 200 filmes, quase todos sem legenda, indecifráveis para a maioria. Apesar da especificidade do negócio, fitas como 2001 – Uma Odisseia no Espaço (que serviu de inspiração para o nome da loja) e Yes, Giorgio (comédia musical estrelada por Luciano Pavarotti) ajudam a formar um séquito de clientes fiéis e apaixonados.

Com foco no cinema de arte a 2001 não demora para se consolidar em um mercado que, naquela ocasião, parecia invencível, excitante, a maior e mais certeira aposta no futuro. Afinal, o que mais estaríamos fazendo quando o século virasse? Ué, usando teletransporte, carros voadores, ouvindo o mais novo hit da Madonna e, óbvio, assistindo a filmes em casa, no conforto do lar.

Como referência na área, a locadora transforma-se em uma espécie de patrimônio não oficial da cidade – sendo a loja da Paulista só o primeiro passo. Depois dela, vêm outras seis (Pinheiros, Moema, Sumaré, Cidade Jardim, Washington Luís e Jardins). No auge, estima-se que o mailing da 2001 contava com aproximadamente 150 mil cadastrados. Ou seja, um invejável tesouro.

Estudantes de cinema ou simples aficionados começaram a considerar a 2001 como um uma oportunidade de aprimoramento profissional – em que outro lugar seria possível respirar cinema de forma tão intensa? Afinal, se funcionou com Quentin Tarantino... (ex-funcionário de uma locadora de vídeos nos EUA que se transformou em, bem, Quentin Tarantino).

“Meu desejo de trabalhar na 2001 era tão grande que eu enviei uma carta datilografada para o escritório deles. Eu me dediquei em datilografar a melhor carta de apresentação possível, mostrando o quanto eu entendia de cinema”, diz Luiz Hashim Chaer, gerente da loja de Pinheiros.

Hashim é contratado, primeiro, como “extra” (aquele que trabalha aos finais de semana para cobrir a folga dos funcionários regulares). Com seu bom desempenho, passa para “indicador”, aquele tipo de funcionário responsável por indicar filmes aos clientes indecisos, que com pouca conversa e muito feeling é capaz de saber se você é mais Pedro Almodóvar ou Ingmar Bergman; mais Jean-Luc Godard ou George Lucas.

A partir desse ponto, fast-foward na trajetória da 2001. Janeiro de 2016, loja da Avenida Pedroso de Morais, a última. Trinta e três anos depois. As prateleiras estão quase vazias e o barulho do ar-condicionado é o que mais a chama a atenção. Os filmes estão lá para serem vendidos. As prateleiras, bancos e a televisão também. Funcionários tentam se ocupar de tarefas mínimas, quase inexistentes. Vez ou outra, pinga um cliente incrédulo: “É verdade que vai fechar?” Verdade. Domingo. Hoje. Sem volta. “Não pode ser! Jura? Por quê? O que é que eu vou fazer agora?”

As perguntas parecem retóricas. E são. O fim da 2001 já vem sendo urdido desde 2013, com o fechamento da loja da Sumaré (que funcionou por 19 anos). Desde então, o chamado efeito dominó foi derrubando as outras unidades. Por isso, quase que diariamente, o telefone toca no escritório da rede. Do outro lado, ansiosos jornalistas disparam: “Quando vai fechar?” Notas sobre o fim definitivo já frequentam o noticiário há mais de um mês.

Os motivos também são velhos conhecidos do mercado. Nos ombros da 2001 já pesaram a pirataria, os serviços de streaming (Netflix), on demand (Net Now), o intervalo mínimo entre a estreia no cinema e o lançamento na TV e os alugueis exorbitantes dos imóveis (acima de R$ 35 mil mensais, em média). Além de tudo isso, o consumidor não parece mais disposto a sair de casa, pegar o carro, procurar estacionamento, caçar títulos entre as prateleiras e se comprometer em, no dia seguinte, fazer o mesmo trajeto para devolver o filme à locadora (mesmo que agora, com o DVD e Blu-Ray, o fator ‘rebobinar’ já não seja mais problema).

Sônia sabe disso tudo. Está triste, de luto, quase não quis falar sobre o assunto. Diz até que decidiu sair de São Paulo e se mudar para Santos. Prefere não ficar remoendo esse fim – e não ficar passando em frente aos seus antigos pontos. No fundo, tinha esperança de garantir a sobrevivência de ao menos uma loja. “Minha ideia era transformá-la em um espaço cultural. Fui atrás dos órgãos competentes, das secretarias de Educação e Cultura, procurei formas de mantê-la em pé. Não deu. O sistema não favorece a cultura”, reclama. Agora, aposta tudo no site – que será um canal para revenda de filmes. “Não quero passar uma imagem de derrota. A 2001 tem uma história muito bonita. Vamos continuá-la na internet.”

Sônia não tira os óculos escuros durante toda a conversa. Ela quer ficar apenas com o carinho que tem recebido dos clientes mais antigos, dos e-mails emocionados e das lembranças mais prosaicas – como a do casal que queria tirar as fotos de casamento dentro de uma videolocadora.

Sim, essa é a história de Edgard & Angélica. Dois cinéfilos. Ela, do time Harry Potter; ele, Star Wars. Com 12 ou 13 anos, ela se esgueirava por entre as prateleiras de uma locadora do bairro do Limão só para ficar observando Edgard escolher um filme. “Eu passava horas na locadora. Nunca tinha me dado conta de que tinha uma menina me espionando. Foi meu pai quem me avisou”, lembra Edgard. “Depois, a gente foi se aproximando. Um dia, um amigo em comum nos convidou para assistir um filme de terror na casa dele. Começamos a namorar vendo uma fita de terror”, diz Angélica.

Quando se casaram, decidiram eternizar essa história com um álbum de fotografias totalmente ambientado dentro de uma locadora de filmes. A pequena loja em que se conheceram já não existia mais, portanto a opção mais imediata foi a 2001. Como personagens de uma comédia romântica de Sessão da Tarde, os recém-casados passaram um dia inteiro na unidade de Moema, submetendo-se a uma divertida sessão de fotos. “Os funcionários da loja adoraram a ideia e nos ajudaram a realizar esse sonho”, fala Angélica.

Muitos clientes assíduos ficam emotivos quando o assunto é a 2001. O diretor do documentário Cinemagia – A História das Videolocadoras de São Paulo (ainda sem data de estreia), Alan Oliveira, conta que ir à loja da Paulista representou um dos primeiros passos de sua adolescência. “Tinha uns 12, 13 anos e comecei a pegar ônibus sozinho só para ir à locadora.” Oliveira destaca a experiência tátil, o cheiro, a caça ao tesouro que era procurar e encontrar um filme. “Era uma missão. Lamento que a próxima geração vá perder essa aventura.”

Na última semana da derradeira loja, a ficha caiu para os clientes mais antigos. Era um desânimo palpável, possível de captar na poeira dos móveis, no papo desanimado sobre o último desenho da Disney e no relógio de parede que corria devagar, transformando aquele epílogo em um longa-metragem arrastado e chato. Um filme de arte, diriam. A diretora de escola Sandra Bittencourt, 49 anos, confessou que está vivendo uma certa nostalgia de algo que está indo embora. “A morte do David Bowie e o fim da 2001 fazem parte do mesmo pacote. A gente nem teve tempo de envelhecer direito e as coisas já estão morrendo.” Para o aposentado José Antônio Ghirardello, 78 anos, esvai-se um pouco da própria história. “Cerca de 30% do que eu sei aprendi assistindo filmes, conversando sobre eles, comprando e alugando fitas.”

O atendente Lauro Moreira parece o mais abatido. Diz que nunca vai conseguir mostrar para o filho um filme como Ladrões de Bicicleta. Como um personagem dramático, repete: “Sim, eu sei, está tudo na nuvem, nas nuvens!”. Só que estar nas nuvens, no YouTube ou no espaço sideral é pura imaterialidade, significa que o filho do Lauro nunca vai pegar uma caixinha de DVD da prateleira, não vai cheirá-la ou brincar com ela. Ou seja, não vai existir de fato. Vai ser fruto da imaginação/memória de um pai saudosista e ultrapassado. Lauro também parece inconformado com a decisão de encerrar definitivamente as atividades das lojas físicas. “O auge, o moderno, é ser antigo. Olha o que está acontecendo com os discos de vinil... O grande lance seria chegar aos 50 anos. Não parar aqui, aos 33.”

No mercado de videolocadoras, o fechamento da 2001 está sendo considerado o último ato do seguimento. Roberto Soares de Andrade, proprietário da Cinemagia, que deve fechar suas portas até o final de fevereiro, chegou a acreditar que a 2001 seria uma das últimas representantes do setor a abandonar o barco. “Mas a realidade mudou, mudou o jeito de consumir entretenimento. Difícil pensar em um futuro sustentável para o setor”, fala. “Na minha loja, vi bebês que viraram adolescentes e que depois viraram pais. Os filhos desses clientes que eu atendi quando ainda eram crianças nem sequer vão saber o que era esse mercado.”

Apertamos o pause de novo. Sônia termina nossa conversa refletindo sobre a solidão. “Hoje, estamos muito sós. Alugar uma fita era uma atitude gregária, tinha a ver com compartilhar experiências, reunir os amigos, tomar um vinho, pedir uma pizza. Infelizmente, os tempos mudaram. O futuro é um pouco diferente do que a gente imaginou... Mas quem sabe daqui pra frente, com outra plataforma, outro modelo, a 2001 não possa renascer ainda mais forte...” Sônia vai embora da sua última loja, não pretende voltar para as despedidas deste domingo. Antes que ela se vá, uma última pergunta. Close nela. O inconsciente mostra suas garras. Sônia, qual é o seu filme favorito? “Melancolia, de Lars Von Trier”.

Stop. Eject no disco, na fita, no sonho. A odisseia acabou.

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