E se fosse manopédio?

O futebol ainda não emplacou nos EUA porque lá só a mão na massa conta, arrisca o autor

Lee Siegel, O Estado de S. Paulo

05 Julho 2014 | 16h00

Se vocês acham que a Copa do Mundo é o único assunto das conversas no Brasil, venham aos Estados Unidos por alguns dias. Aqui, onde não há nenhuma tradição ou cultura do futebol, poderão até encontrar um lugar para sentar nos bares que estão organizando uma Noite de Copa do Mundo após outra. O New York Times dedicou um blog a acompanhar o torneio, recurso que é exibido muitas vezes com destaque na home page do jornal. Na quinta não houve blog; apareceu um artigo intitulado Dividido entre o Futebol e Shakespeare do ator John Lithgow, falando do conflito vivido por ele e outro ator sobre se eles deveriam atuar ou assistir ao Mundial.

Eu também aprendi a amar o futebol - uma fusão quase perfeita de esporte e balé, de força e graça -, embora confesse que não estou acompanhando o Mundial com a obsessão de muitos de meus concidadãos. O futebol é belo, certamente, mas para mim “o belo jogo” sempre foi o beisebol e fico particularmente aflito ao ver meu filho de 7 anos, que virou um fanático absoluto por futebol (e bom de jogo também), recusar meu convite para levá-lo a um jogo dos Yankees. “É chato, pai”, ele diz. “Futebol é rápido.”

O futebol é diabolicamente rápido, mas, apesar de todo alvoroço por aqui com o Mundial, o jogo ainda não superou esportes americanos tradicionais. Isso é fácil de compreender: os três grandes passatempos atléticos americanos, beisebol, futebol americano e basquete - o hóquei é rarefeito e regional - estão enraizados nos costumes e ritmos da vida americana de um modo que o futebol provavelmente jamais estará.

Tome-se o caso do beisebol, cuja ênfase na individualidade e em papéis precisamente definidos sempre serviu de metáfora da vida americana, e, por isso, atraiu gerações de comentaristas de mentalidade intelectual. O arremessador lança a bola como o vendedor impinge sua mercadoria; o rebatedor pode furar a rebatida ou rebater, como o cidadão médio em nossa democracia capitalista de risco; o rebatedor percorre as bases correndo como você se esfalfa todo dia no mercado; os defensores são tipos marginais da sociedade, isolados do brilho dos reis das rebatidas furadas e das potentes - até um defensor apanhar a bola espetacularmente salvando o jogo. Sempre há essa possibilidade para um defensor. E a home-run (a corrida completa pelas quatro bases marcando ponto) é uma feliz quebra de todas as felizes quebras na maratona massacrante do capitalismo, em que você passa a vida tentando acertar um bola rápida ou bola em curva após outra.

O futebol americano sempre foi um jogo da classe trabalhadora. Um bando de caras tromba com outro bando de caras para marcar um gol, do jeito que pessoas num bairro operário se ligam numa tribo étnica, se metem num bafafá e desenvolvem todo um universo social de língua, ritos e rituais que, ao menos na imaginação, colide com todas as forças poderosas alinhadas contra eles. Cada time tem quatro tentativas, chamadas downs, para marcar um gol. Se um time avança dez jardas ou mais, mesmo no quarto down, ele ganha o direito a outras quatro tentativas. Na vida americana comum, isso é conhecido como a bênção da segunda chance.

Se o beisebol parece ser para torcedores intelectuais, e o futebol americano para operários - há exceções às pencas, é claro -, o basquete é um esporte de garotos pobres. Seu salto para a vida são as quadras de asfalto nos meandros da cidade, onde garotos, em geral negros, sonham em ir além de suas circunstâncias para uma existência maior. O basquete é um jogo de saltos e arremessos que tem como momento mais dramático um lance feito nos segundos finais do jogo. Às vezes o arremessador erra o alvo e dá um “rebote” na tabela para as mãos de um colega de equipe ou de um adversário. Essa é a origem da expressão romântica “eu o conheci quando ele estava no rebote”, que significa que a pessoa o conheceu quando ele estava saindo de outro relacionamento. O erro de um é a oportunidade do outro.

Será difícil para o futebol, que só se tornou popular neste país nos últimos 15 a 20 anos, contribuir com o próprio jargão para a maneira como as pessoas falam, pensam e veem o mundo. Além disso, a própria natureza do futebol é muito diferente. A bola no beisebol, no futebol americano e no basquete, quando comparada à do futebol, está mais no controle de quem a possui. Assistindo ao futebol, fico espantado com o alto grau de acaso no jogo; a frequência com que um time tira a bola do outro é bem maior do que nos três principais esportes americanos. Vivendo em um país tão altamente desregulado, os americanos gostam de que seus esportes ofereçam a ilusão de maior controle. O futebol parece prosperar mais em países onde o governo joga um papel mais regulador; afinal, o jogo tem suas origens na Inglaterra, que ainda é uma sociedade altamente estratificada e rígida em comparação com a americana. O futebol oferece a ilusão de liberdade e fluidez. Talvez seja essa a razão porque emplacou aqui mais nas classes afluentes. O porcentual superior da população está mais rico do que nunca e por isso sente que a vida está mais estável e confortavelmente estratificada do que antes. Essas pessoas agora podem se distrair com um jogo em que o acaso jogue um papel maior.

Mas eu tenho uma teoria melhor, embora bem mais excêntrica, para o futebol ainda não ter alcançado o sucesso do beisebol, futebol americano e basquete nos Estados Unidos. É simples: fora o goleiro, ninguém pode tocar a bola com as mãos. A cultura americana é a mais “mão na massa” do mundo, para melhor ou para pior. Nós agarramos o que queremos, e também construímos as repostas para nossos problemas. Tanto nossa ganância como nossa mentalidade positiva de que tudo pode ser feito moldaram nosso destino, e também boa parte do destino do mundo contemporâneo. Simplesmente não podemos assimilar totalmente um esporte no qual não se pode agarrar, segurar, a bola com as mãos. Talvez seja por isso que, na partida entre os Estados Unidos e a Bélgica, em que os EUA saíram da competição, o goleiro americano brilhou mais que seus companheiros de equipe. Seja como for, fico contente de meu filho estar aprendendo a controlar a bola com os pés, mas até ocorrer uma mudança social radical, espero que ele não se esqueça de como usar suas mãos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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Lee Siegel, escritor e crítico cultural americano, é colaborador do NYT, The New Yorker e The Nation. Autor de 'Você está falando sério?' (Panda Books) 

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