E venceu a frugalidade

Se não estamos, ficaremos mais simples divido à crise econômica. Pelo menos as artes já dão claros sinais disso

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

17 Janeiro 2009 | 20h55

. Todo ano os lexicógrafos de língua inglesa escolhem o neologismo da temporada que passou. O de 2008 foi (sem rufar de tambores, please): "frugalista". Assim mesmo, latinizado, como "barista" e "fashionista", neologismos de quando ainda sobrava emprego para aqueles que antigamente chamávamos de barmen e o mundo da moda parecia funcionar em outra galáxia. Mais frugais ficamos ou acabaremos ficando, forçados pela crise econômica, que até a galáxia fashion já alcançou; haja vista a finura das principais revistas de moda americanas de janeiro e fevereiro e a ênfase, em algumas delas, ao chamado "crisis look", maneira chique de qualificar o que virou de bom tom comprar em lojas plebeias (vulgo "recessionistas", outro eufemismo novinho em folha) ou reciclar do guarda-roupa. Moda, cultura, diversão - nenhuma delas escapou à frugalidade imposta pela recessão. Nem as artes plásticas, que em novembro pareciam imunes a qualquer sismo na economia. No mesmo dia em que o Lehman Brothers foi à breca, o vanguardista britânico Damien Hirst faturou US$ 127 milhões num histórico leilão da Sotheby's. Mas a recessão não demorou sequer um mês para fazer os estragos de praxe num mercado basicamente mantido (e inflacionado) pelo novorriquismo de árabes, russos, chineses e indianos. Ao primeiro sinal de que os petrodólares começariam a minguar, a Sotheby's e a Christie's baixaram a crista - reduzindo custos, funções e salários após dois ou três monumentais encalhes em seus leilões. "Já não era sem tempo", saudou o crítico Waldemar Januszczak, no Sunday Times. Referia-se à chegada da recessão ao mundo das artes plásticas. "Deveríamos recebê-la de braços abertos", recomendou, arrolando entre os motivos de seu entusiasmo a decadência artística dos últimos 15 anos, a vigarice arrogante de vários artistas contemporâneos, o faturamento obsceno de marchands e casas de leilões, e a florescência abusiva de galerias de arte. A crise, acredita Januszczak, terá um efeito restaurador sobre as artes plásticas. Os museus? Mesmo à míngua de subsídios públicos e privados, sentirão menos os efeitos da pindaíba geral. Oferecendo maior flexibilidade de horário e fruição do que cinemas, teatros e outras casas de espetáculo, sua frequência, que já era boa antes de a crise ter início, aumentou nos últimos dois meses, pelo menos na Europa e nos Estados Unidos. E a tendência é crescer ainda mais na França, com a instituição da entrada gratuita em todos os museus recém proposta pelo presidente Nicolas Sarkozy. O cinema já sentiu o tranco. Em escala mundial. Produção reduzida, expectativa de queda na frequência, festivais condenados à extinção ou restritos ao seu propósito mais simples, que é exibir filmes, sem festas, badalações e mordomias, como está sendo o de Sundance, aberto na quinta-feira com o melhor da produção independente mundial. Até o agito em torno da entrega do Oscar deverá ser mais austero este ano, com menos jantares e coquetéis. Se até Steven Spielberg está roendo as unhas (e não só pelo desfalque que Bernard Madoff lhe deu), não há por que duvidar das consequências catastróficas do achatamento do crédito sobre toda a produção cinematográfica. Os mais otimistas, contudo, acreditam que a qualidade dos filmes americanos deva melhorar um bocado com o fim da bonança bancada por Wall Street nos últimos quatro anos. A competição deverá se dar em outra escala, sem delírios de grandeza nem tanto "descontrole" de qualidade. Não são alvissareiras as notícias do mercado editorial. Estima-se que muito menos livros serão impressos, com pouquíssima margem para autores inéditos ou sem boas perspectivas de venda. Nem todo best seller é ruim, embora a grande maioria o seja, mas os livros mais vendidos sugam o oxigênio do sistema e afetam a delicada ecologia do mercado editorial. Em função da crise, diversas editoras suspenderam, por tempo indeterminado, a compra de novos títulos, reduziram os valores dos adiantamentos pagos a autores de prestígio, e passaram a controlar as despesas com almoços de negócio (os editores da Penguin só podem agora comer o prato principal) e puxaram o bridão do marketing (adeus perdulárias bocas-livres e extravagantes convenções nas Bahamas). Se o design costuma se dar bem nas crises econômicas (de que são exemplos notáveis as cadeiras que Russel Wright criou na Depressão dos anos 30, as poltronas de plástico, resina e compensado que Charles e Ray Eames lançaram nos anos 40, e quase tudo aquilo que saiu de Milão no pós-guerra), com a arquitetura, nada feito. Grana curta, projetos cancelados, eis a norma. Que vale para todos, inclusive para os arquitetos, empreiteiras e construtoras que enriqueceram vendendo arranha-céus, hotéis faraônicos, praias e ilhas artificiais para Dubai, o cafonérrimo playground dos Emirados Árabes, hoje povoado de prédios construídos pela metade ou, pela mesma razão, sem inquilinos. A torre de 600 metros de altura e 118 andares, que o renomado arquiteto britânico Norman Foster desenhou para abrigar escritórios de negócios em Moscou, teve sua construção suspensa pelo magnata imobiliário sul-africano Shalva Chigirinsky, que, com a recessão, ficou sem caixa. Em forma de foguete e com a suntuosidade dos cenários que Ken Adam criou para os filmes de James Bond, seria um monumento à "nova e pujante economia russa". O cancelamento da obra, dizem, constrangeu o Kremlin. Como a frugalidade virou constrangimento mundial (apertem os cintos, a pujança sumiu), o Kremlin já começou a fazer cortes em seu próprio orçamento. As Olimpíadas de Inverno de 2014 não serão mais como estavam previstas.

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