Eduardo, por fazer

'O acento trágico da morte de Campos reside justamente nesse vazio que transpõe, com ele, o abismo insondável', diz ensaísta

Carlos Newton Júnior, O Estado de S. Paulo

16 Agosto 2014 | 16h00

Se a morte de Ariano Suassuna, a 23 de julho passado, representou uma perda irreparável para a cultura brasileira, sobretudo no campo da literatura (e o mesmo pode-se dizer em relação às mortes de Ivan Junqueira e João Ubaldo Ribeiro, também em julho), a de Eduardo Campos, a 13 de agosto, significa para o Brasil uma verdadeira tragédia, cujos desdobramentos ainda estamos vivenciando, incrédulos, desnorteados, sentindo, a um só tempo, o "horror e a piedade" que caracterizam, em relação aos espectadores, desde os antigos gregos, a própria essência do trágico. Uma tragédia que se configura em todas suas dimensões, não só pelas condições da morte em si, violenta e abrupta, mas pela situação do protagonista, um homem jovem, um pai de família exemplar, um político promissor, retirado da cena política brasileira no auge da carreira, deixando em estado de profunda consternação não apenas seus potenciais eleitores, mas todo o povo brasileiro, que é, sem favor, um dos povos mais solidários do mundo.

            Convivi com Ariano Suassuna durante 30 anos. Era meu grande amigo e meu compadre. Trabalhamos juntos em diversas ocasiões. Quem já teve a oportunidade de ler algo do que escrevi sobre ele sabe da minha admiração por sua obra de escritor. Depois do seu octogésimo aniversário, Ariano costumava dizer que cada dia de vida era uma verdadeira vitória. Quando o vi plenamente recuperado dos problemas de saúde que teve no ano passado, alguma coisa dentro de mim me fazia acreditar, com grande convicção, que ele chegaria, no mínimo, à casa dos 90. Tudo, de fato, me levava a pensar assim, desde a moderação dos seus hábitos caseiros à longevidade familiar, passando, principalmente, por sua enorme alegria de viver. Lembro-me dele entrando na sala de sua casa, andando devagar, mas sem a ajuda de ninguém, quando o fui visitar logo após o retorno do hospital. Foi logo me dizendo: 

"Isso tudo que aconteceu, d. Carlos, foi apenas o primeiro ato da longa peleja entre o Cavaleiro Suassuna e a terrível Moça Caetana! Mas ela não perde por esperar! Se pensa que vai me levar com um ataquezinho cardíaco, está muito enganada!". 

Se Caetana venceu a peleja (há quem duvide disso), Ariano partiu com aquele sentimento do dever cumprido, que nos conforta e consola. O mesmo ocorreu com Ivan Junqueira e João Ubaldo Ribeiro, ambos falecidos com mais de 70 anos. Para lembrar, aqui, os versos do grande Manuel Bandeira, a "indesejada das gentes" encontrou, em relação aos três, "...lavrado o campo, a casa limpa, / A mesa posta, / Com cada coisa em seu lugar".

            Muito influenciado por Ariano, a quem considerava, do ponto de vista afetivo, como uma mistura de seu pai e seu avô (o escritor Maximiano Campos e o político Miguel Arraes), Eduardo ainda lavrava o seu campo. Se o trabalho iniciado em Pernambuco já lhe rendia frutos, semeava o solo político do Brasil para algo novo, para um projeto de nação que vinha construindo a partir dos sonhos de justiça social que ambos, ele e Ariano, compartilhavam. Não foi à toa que Ariano, no ano em que completaria 80 anos, aceitou o convite para ser secretário de Cultura no primeiro governo de Eduardo Campos, cargo que também ocupara no terceiro governo de Miguel Arraes. No dia em que me convidou para fazer parte de sua equipe na secretaria, Ariano me contou que foi profundamente emocionado, "com lágrimas nos olhos", que Eduardo o havia convidado para ser secretário. Um convite que ele não pôde, de fato, recusar, mesmo com a idade já avançada.

            Não posso dizer que fui amigo pessoal de Eduardo. Foram poucas as vezes em que estivemos juntos, quase sempre em reuniões de governo de que participei representando Ariano, quando este se encontrava impedido de comparecer, por um ou outro motivo. Em todas as ocasiões, tratou-me de modo cortês e afável, e o mesmo posso dizer de Renata, sua esposa, com quem estive mais vezes até, devido a seu parentesco com Zélia, viúva de Ariano. 

Diferentemente de Ariano, que mergulhou no oceano da política de ponta-cabeça, sempre me coloquei, em relação à política, um pouco de esconso, procurando servir da melhor maneira possível, mas sem aceitar os inevitáveis engessamentos que o partidarismo traz sempre consigo, a tiracolo. Foi trabalhando na secretaria de Cultura de Pernambuco que aprendi a admirar Eduardo Campos. O apoio do seu primeiro governo às ações de Ariano foi incondicional, e Ariano terminou atuando, no segundo governo, quando já não mais respondia pela secretaria, como consultor de Eduardo para questões relacionadas à pasta. 

As ações e projetos do governo de Eduardo Campos - no campo da cultura como em todos os outros - estão aí para serem avaliados, sobretudo em relação à preservação da cultura popular. Os recursos destinados ao Funcultura (Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura) foram substanciais para garantir a Pernambuco destaque no cenário nacional, em vários campos da arte - na música, no cinema, nas artes visuais e assim por diante.

Foi no velório de Ariano, há menos de 30 dias, que encontrei Eduardo Campos pela última vez. Na noite anterior, quando estávamos no hospital, aguardando o desenlace já então inevitável, ele me cumprimentou visivelmente emocionado, e todos os que lá estavam certamente pensaram, como eu, no seu futuro brilhante, na sua trajetória de político em ascensão, em tudo o que ele podia fazer pelo nosso país e nosso povo. 

O acento trágico de sua morte reside justamente nesse por fazer, nesse vazio que transpõe, com ele, o abismo insondável. O político que sonhava alto, o pai querido que ainda ontem recebia calorosos cumprimentos dos filhos pela passagem do seu aniversário, vê-se hoje tragado nessa espécie de desgraça imerecida, de que todos nós somos testemunhas e que nos provoca a mais profunda compaixão. 

Carlos Newton Júnior, poeta e ensaísta, é professor da Universidade Federal de Pernambuco

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