Eduardo Viveiros de Castro
Eduardo Viveiros de Castro

Eduardo Viveiros de Castro investiga cultura araweté

Terceira edição de 'Araweté: Um Povo Tupi da Amazônia' chega às livrarias

Sérgio Medeiros*, The New York Times

06 Maio 2017 | 16h00

Na carta que enviou à Funai, anos atrás, protestando contra a atuação de missionários na aldeia dos Araweté, Eduardo Viveiros de Castro afirmou: “A cultura araweté é íntegra, forte, alegre, original e imaginativa”. O autor da carta, que é um dos maiores antropólogos do País, ainda escreveu que os índios não precisavam de consolo espiritual, o qual na verdade procurava apenas “desindianizá-los”, a fim de transformá-los em bons cristãos e cidadãos.

Essa carta consta do livro Araweté: um Povo Tupi da Amazônia, que sai agora em terceira edição revista e ampliada (a edição original é de 1992), com dois novos artigos, assinados por Camila de Caux e Guilherme Orlandi Heurich, orientandos de Viveiros de Castro que realizaram pesquisa recente entre esse povo tupi que habita o estado do Pará. Nos anos 1980, Viveiros de Castro visitou pela primeira vez os Araweté (na época, havia apenas uma aldeia com 200 moradores, hoje se conhecem pelo menos sete), os quais haviam feito os primeiros contatos com o homem branco em meados da década anterior. As estadias do antropólogo na aldeia deram origem a um ensaio primoroso sobre a organização social e cultural dos Araweté, um povo de agricultores e caçadores. Escrito numa linguagem clara e fluente, o livro está fartamente ilustrado com fotos que registram três décadas da vida da tribo; pode-se afirmar que a presente edição é a melhor e a mais bela de todas.

Quem leu o livro anterior de Viveiros de Castro, o intenso e intrincado Metafísicas Canibais (Cosac Naify), publicado em 2015, talvez se surpreenda com a concisão e a limpidez do seu texto sobre os Araweté. Ao falar dos cabelos dos índios, ele afirma, numa única frase precisa: “O cabelo é cortado em franja reta na testa até a altura das orelhas, de onde cresce até a nuca dos homens e a espádua das mulheres”. Esclarece depois, com sóbria elegância e destreza literária, uma afirmação que talvez pudesse parecer obscura: “Se toda roça foi, antes, mata, toda aldeia foi, antes, roça. Quando um grupo decide mudar-se para outro lugar, abre primeiro as roças de milho e se instala no meio delas. Com o passar do tempo e das safras, as plantações vão recuando, e resta uma aldeia”. 

Os Araweté já foram considerados os únicos índios de olhos verdes do Brasil (têm, na verdade, olhos castanho-claros). Também se propalou que eram índios que só falavam e pensavam em sexo. O sexo, sem dúvida, é muito importante para os Araweté, assunto que os absorve e a respeito do qual o antropólogo carioca também escreveu. 

Os seus “jogos eróticos” são apresentados no livro, que destaca a curiosa lua de mel indígena. Ela envolve dois casais, formados por amigos (ter amigos é sinal de maturidade e força vital, e também de prestígio): “Dentro de alguns dias, nota-se uma associação frequente entre o recém-casado e um outro homem, bem como entre sua mulher e a mulher deste”. Assim está formado o “quarteto” tradicional, relação de amizade que culmina na troca de cônjuges temporariamente. 

Porém, Viveiros de Castro alerta para o fato de que a “mutualidade sexual” não é um sistema de sexo grupal, mas sempre, e apenas, uma alternância. E explica: “O ciúme está por definição excluído dessa relação; ao contrário, ela é a única situação de extraconjugalidade sexual que envolve seu oposto, a cessão benevolente do cônjuge ao amigo”. De acordo com a biologia arawaté, é “positivo, para a saúde de um bebê, que ele tenha sido formado por mais de um genitor. O número ideal parece ser de dois ou no máximo três; mais do que isso acarreta partos dolorosos, ou o bebê nasce com a pele manchada”, explica Viveiros de Castro, que ainda esclarece, ao falar das moças pré-púberes: “Sua liberdade sexual é considerável, bem como a capacidade de iniciativa nesses assuntos”. 

Uma das passagens mais interessante do ensaio, ao lado dos jogos eróticos, é a discussão sobre a “chefia” araweté, um povo individualista que já foi considerado “completamente acéfalo”, pois os moradores da aldeia tradicional defendem obstinadamente sua independência e se recusam a seguir os outros: “O líder araweté é, assim, o que começa, não o que comanda; é o que segue à frente, não o que fica no meio”. Ou seja, o líder (sempre temporário) é aquele “que decide onde e quando se vai fazer algo, e que sai na frente para fazê-lo”. Além dos líderes temporários, os Araweté reconhecem também os “donos da aldeia”, expressão por meio da qual se referem ao casal ou casais “que primeiro abriram uma roça de milho no sítio de uma aldeia nova, à volta da qual se foram agregando outras roças e outras casas”.

Conviver com os Araweté é fascinante, declara Viveiros de Castro quase na conclusão do seu longo ensaio, que se lê sempre com prazer. “Poucos grupos humanos, imagino, são de trato tão ameno e convívio tão agradável e divertido”, afirmação que os dois orientandos, em seus respectivos artigos, corroboram, trinta anos depois.

*Sérgio Medeiros é poeta, ensaísta e professor de literatura na UFSC. Publicou, entre outros livros, 'Makunaíma e Juruapari'.

Araweté, Um Povo Tupi na Amazônia

Autor: Eduardo Viveiros de Castro, Camila de Caux e Guilherme Orlandini Heurich

Editora: Edições Sesc

228 páginas

R$ 70

Mais conteúdo sobre:
Antropologia

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