'Eles não imaginam o inferno que os espera'

Para estudioso da comunicação do EI, falta de perspectiva e crise de identidade dão ideia falsa aos jovens que se unem aos fanáticos

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

22 Novembro 2015 | 02h01

Nada fácil a tarefa de convencer milhares de jovens ocidentais a lutar pela criação de um estado islâmico radical, que defenda a decapitação de inimigos e a pena de morte a homossexuais. "Por meio de um sermão religioso não seria", diz o espanhol Javier Lesaca, professor visitante da Universidade George Washington, estudioso das formas de comunicação do Estado Islâmico. "Então, usam as melhores estratégias do mundo ocidental: videogames, filmes de terror, hip hop. Falam com os mais jovens na língua do ocidente moderno", explicou o pesquisador, na seguinte entrevista ao Aliás.

Há algum tipo de jovem mais vulnerável às mensagens de recrutamento do EI?

A propaganda do EI é dirigida a jovens de entre 15 e 25 anos de todo o mundo, que se sentem alienados em seus países de origem e têm problemas identitários ou de adaptação social. São campanhas que apelam a elementos culturais do ocidente (videogames, filmes de terror, música hip hop, estilo gangsta). E há poucos elementos religiosos. É certo que jovens de origem árabe de segunda ou terceira geração que residem em bairros marginais e pouco integrados de grandes cidades europeias são os mais vulneráveis, mas também há dezenas de casos de jovens sem nenhuma relação com o mundo árabe ou muçulmano que decidiram fazer parte do EI. Eu o definiria mais como um fenômeno cultural e social do que religioso.

Que aspectos de games com Call of Duty, por exemplo, são mais usados nos vídeos do EI?

Usam a linguagem visual e também a narrativa. De Call of Duty copiam os efeitos audiovisuais e os planos subjetivos que acabam por engajar o espectador com o vídeo. De Assassins Creed copiam a forma de vestir. De Mortal Kombat X, a brutalidade das execuções. De filmes como Jogos Mortais ou V de Vingança, a narrativa em que um mascarado faz justiça em um mundo injusto e o retransmite ao resto da opinião pública.

O senhor disse que o EI usa as tags mais difundidas no ocidente para que suas mensagens cheguem aos jovens. Pode dar exemplos?

A primeira vez que utilizaram essa técnica foi em 13 de setembro de 2014, quando distribuíram o vídeo da decapitação do britânico David Haynes. Os responsáveis pela comunicação do EI se deram conta de que o Twitter estava eliminando todos os tweets que entravam com a hashtags que eles haviam criado para difundir a decapitação, #Amessagetotheallieofamerica. Para vencer o obstáculo, retransmitiram a decapitação usando os Trending Topics daquele momento no Reino Unido, incluindo #iphone6 e o aniversário de um membro da banda One Direction (#HappybirthdayNiall).

Por que há tanto sucesso nessa estratégia?

Em um contexto de crise da modernidade, de falta de perspectivas, de perda identitária, o EI oferece uma aventura audiovisual pela qual vale a pena viver e, inclusive, morrer. O problema é que a maior parte dos jovens que se unem ao EI não se imaginam no inferno que os espera quando se integram ao grupo terrorista. Quando se dão conta, já não podem voltar.

Os americanos também já usaram o interesse de jovens por games de guerra para atraí-los ao combate. Qual a diferença em relação ao EI?

A primeira diferença é que os Estados Unidos são uma democracia e um estado de direito e o EI é um grupo terrorista. Não é o mesmo que um governo legítimo tente seduzir seus cidadãos jovens com produtos culturais e que quem o faça seja um grupo terrorista para recrutar assassinos. De todo modo, o certo é que o EI copia as estratégias de comunicação pública das instituições, governos e multinacionais de todo o mundo. Aprenderam com os melhores e copiam casos de êxito do mundo ocidental. O EI fala com os mais jovens em uma linguagem própria do ocidente moderno.

O senhor defende o uso de linguagem de videogame/internet no combate ao EI. De que maneira?

O EI mostrou mais de 160 vídeos executando mais de 1.200 pessoas em menos de dois anos. A imensa maioria deles, muçulmanos da Síria e do Iraque. Eles controlam 36 produtoras audiovisuais na Síria, Iraque, Rússia, Egito, Líbia, Argélia, Tunísia, Afeganistão, Yemen e África Ocidental. Todas são coordenadas pela produtora Al Hayat Media Center, a que marca a temática dos vídeos, a estética, a duração, inclusive os dias em que se distribuem. Por outro lado, ainda hoje é muito difícil encontrar o depoimento de algum dos familiares de suas vítimas, explicando a dor causada pelo EI. Creio que ainda há muito por avançar nesse terreno.

 

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