Em 'O Reino da Fala', Tom Wolfe caminha na contramão de Darwin

Em 'O Reino da Fala', Tom Wolfe caminha na contramão de Darwin

Livro do polêmico jornalista norte-americano aborda a origem da linguagem

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

09 Setembro 2017 | 16h00

O que nos separa dos outros animais?A racionalidade, certo. Além de certas peculiaridades, como, por exemplo, saber rir... Ok, as hienas também sabem rir, mas não falam; apenas conversam (ou ladram) entre si, não têm o poder da linguagem, como não o têm papagaios e macacos, que conseguem tão bem nos imitar. “A linguagem é o nosso Rubicão, e nenhuma besta ousará cruzá-lo”, bradou o renomado linguista Max Müller, ao final de uma palestra na Royal Institution de Londres, em 1861. E desde então, só no cinema, primeiro com Walt Disney, as bestas cruzaram o Rubicão. 

Em 1861 fazia apenas dois anos que Charles Darwin publicara seu tratado sobre a evolução das espécies. Mesmo acreditando que o homem foi criado por Deus à sua imagem e semelhança e não por um processo de seleção natural que nos reconheceu descendentes do macaco, os criacionistas não tinham por que se opor à tese de que só os humanos têm o poder da linguagem. Mas como adquirimos tal poder?

Os criacionistas não tinham por que se preocupar com essa questão. Os evolucionistas até hoje não chegaram a uma conclusão. Sabe-se que o cérebro humano evoluiu e nossa laringe adquiriu uma forma capaz de produzir sons que nossos primos primatas não conseguem emitir, mas desconhecemos como isso ocorreu. Os linguistas também já entregaram os pontos. 

Ano passado, o decano do Novo Jornalismo Tom Wolfe esbarrou na internet com um artigo sobre “o mistério da evolução da linguagem”, em que uma plêiade de evolucionistas pesos-pesados, entre os quais o linguista Noam Chomsky, comunicava ter desistido da questão de onde a fala — a linguagem — vem e como funciona. “Jamais ouvira falar de um grupo de especialistas se reunindo para anunciar que eram fracassados abjetos”, pensou Wolfe. Os especialistas só confessaram, honestamente, seu fracasso; o “abjetos” foi uma ilação de Wolfe, que sacou na hora o tema de seu próximo livro. 

Ali estava mais uma controvérsia — a incompetência de naturalistas, linguistas e biólogos — para ele aumentar seu rol de desafetos, chamar atenção da mídia e confeccionar outro best seller. Já comprara briga com os “radicais chiques” da esquerda intelectual nova-iorquina, o Olimpo literário americano, os praticantes e teóricos da arte moderna (A Palavra Pintada) e os arquitetos contemporâneos (De Bauhaus ao Nosso Caos). Com The Kingdom of Speech (aqui editado pela Rocco: O Reino da Fala) chegou a vez do establishment científico. Polemizar é o seu “cheiro de napalm pela manhã”.

Louve-se a espantosa velocidade de Wolfe. Pelos meus cálculos (o livro foi publicado em agosto de 2016), ele gastou apenas seis meses para pesquisá-lo e conclui-lo. Mais ou menos leigo nos assuntos abordados, só lhe notei um erro. Crasso. Na pág. 9, atribui-se a Einstein a descoberta da velocidade da luz. Tsk, tsk, tsk. O autor da proeza foi o astrônomo dinamarquês Olaus Roemer, 203 anos antes de Einstein nascer.

Wolfe não duvida que a Terra seja redonda, mas, qual um quinta-coluna do criacionismo, desqualifica a teoria do Big Bang como vagamente ridícula e reduz a Teoria da Evolução à “mera hipótese científica”, desprovida de prova material. E os quase cinco anos que Darwin pesquisou a bordo do Beagle? E as evidências (anatomia comparativa, fósseis e distribuição geográfica das espécies etc) por ele apresentadas? E as pesquisas hoje feitas em laboratórios com micróbios e insetos?

Para incrementar sua iconoclastia, Wolfe providenciou um Salieri evolucionista para Darwin: Alfred Russell Wallace. Enfurnado numa ilha da Malásia, a coletar plantas e espantar mosquitos, Wallace teria chegado ao princípio da evolução por seleção natural antes de Darwin. É uma história fascinante. Com um desfecho melancólico: Wallace um dia virou espírita, passou a comunicar-se com o além e, zás!, recolheu-se de novo à sua insignificância. 

Se Daniel Everett, o Salieri de Chomsky, mais parece uma versão masculina de Eve Harrington, a malvada de A Malvada, a culpa é do venenoso e perverso Wolfe, embora sua intenção primeira tenha sido sujar a reputação do sumo linguista do MIT, a quem apelidou de “Noam Charisma”. Esse carisma é, no mínimo, uma ironia. Wolfe não consegue olhar para o Chomsky linguista revolucionário sem ver o Chomsky militante de esquerda. O mais janota jornalista à direita de Gay Talese é um conservador tão imaculado quanto os alvos ternos que nunca tira do corpo e já foram motivo de piada até na série dos Simpsons. 

Sobre a origem da fala — fruto da evolução da espécie, para Darwin, e uma qualidade inata dos humanos, para Chomsky — Wolfe tem sua própria tese. Os humanos teriam inventado a linguagem como um processo mnemônico, como um aide-mémoire. "Pedra...pedra...pedra”, ruminava o homem das cavernas para não esquecer de recolher uns cascalhos no meio do caminho. 

Como então foi com o homem das cavernas que o romancista de A Fogueira das Vaidades pegou a mania de repetir palavras (“esperto...esperto...”, “bem abaixo abaixo abaixo abaixo”), uma das marcas registradas de seu estilo, também personalíssimo pelo acúmulo de pontos de exclamação e onomatopeias de gibi (“grrrrekkk”, “riiippp”, “zum-zum hum-hum”). 

Mais uma provocação de que uma obra demolidora, O Reino da Fala, sobretudo pela vivacidade e o humor de Wolfe, é leitura prazerosa do início ao fim. 

O Reino da Fala

Autor: Tom Wolfe

Tradução: Paulo Reis

Editora: Rocco

192 páginas

R$ 29,90

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