Benjamin Reed
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'Em tempos sombrios, as pessoas olham para escritores', afirma Ursula K. Le Guin

Aos 87 anos, primeira autora a fazer sucesso na ficção científica fala em entrevista exclusiva sobre feminismo, questões sociais e linguagem em sua literatura

André Cáceres*, Colaboração para o Estado de S. Paulo

29 Abril 2017 | 16h00

Cada palavra conta muito quando se trata da literatura de Ursula K. Le Guin. É por isso que em seu livro Os Despossuídos, lançado originalmente em 1974 e com publicação no Brasil prevista para maio pela editora Aleph, dois planetas com sistemas políticos diferentes exprimem essas divergências em seus próprios idiomas. Não há pronomes possessivos em Anarres, um mundo anárquico e sem propriedade privada. Em Urrás, onde alguns abastados desfrutam de fartura às custas da pobreza de outros, a língua é calcada na noção de estratificação, inexistente em sua contraparte. 

Talvez esse rigor vocabular explique a repulsa da autora, tida por muitos como a primeira escritora de ficção científica feminista, pela expressão ‘luta por direitos iguais’. “Eu não chamaria de ‘luta’. Todas essas metáforas bélicas, por que continuamos pensando nesses termos?”, questionou Le Guin em entrevista ao Aliás. “Chamar de ‘luta’ imediatamente faz minha mente assumir que essa é uma batalha de mulheres contra homens. Não é nada desse tipo. É uma tarefa para todos nós, uma árdua tarefa”, pontuou ao falar sobre o assunto.

A autora norte-americana de 87 anos foi a primeira mulher laureada com os maiores prêmios da ficção científica, ganhando duas vezes o Hugo e quatro vezes o Nebula (sendo a maior vencedora desse) na categoria principal de ambos, a de melhor romance. Seu primeiro livro, Rocannon’s World, foi publicado há 51 anos, e desde então a escritora lançou outros 21 romances, 13 coletâneas de contos, 12 livros de poesia e 13 infantis, além de traduções, críticas e um roteiro.

Tão cara à obra de Le Guin, a questão de gênero está escancarada em sua obra-prima A Mão Esquerda da Escuridão (1969), já editada no Brasil pela Aleph. O livro narra a viagem de Genly Ai, um diplomata terráqueo, ao planeta Gethen, onde os habitantes são “ambissexuais”, ou seja, tanto homens como mulheres em potencial. Eles não possuem gênero, e se manifestam biologicamente como macho ou fêmea durante curtos períodos de procriação, sem poder escolher ou prever que sexo vão assumir em cada vez. Com essa característica peculiar, Le Guin explora de maneira original as consequências de uma sociedade livre de machismo em que o protagonista Genly é um pervertido, uma aberração, por ter um gênero definido e estar pronto para acasalar o tempo inteiro. 

Assim como em Os Despossuídos, o idioma de Gethen é de extrema importância para transmitir os conflitos do romance, especialmente quando lido em português, uma língua que distingue tão claramente masculino e feminino. A importância da linguagem na percepção da realidade, na obra de Le Guin, antecipa em décadas o problema abordado pelo chinês Ted Chiang no conto História da Sua Vida, que deu origem ao filme A Chegada. “À medida que nós pensamos em palavras, estamos pensando em uma linguagem, e parece inevitável que a natureza dessa linguagem e sua seleção de vocabulário influencia nosso pensamento. Tradutores encontram palavras que expressam algo tão complexo, tão profundamente incorporado em uma determinada sociedade e cultura, que eles são literalmente intraduzíveis para outro idioma, e devem ser aproximados ou parafraseados”, explica Le Guin.

Tanto em A Mão Esquerda da Escuridão como em Os Despossuídos, as histórias são sobre um estrangeiro solitário. O tema do exílio, presente em outro clássico da ficção científica, Um Estranho Numa Terra Estranha (1961), de Robert Heinlein, diz muito sobre a crise de refugiados e os conflitos culturais que o grande volume de imigrantes acarreta no mundo contemporâneo. A atualidade amplifica a acidez crítica da abordagem de Le Guin sobre religiões, prisões, escolas e políticos. “Eu vi os elementos sociais e políticos dos meus romances e histórias surgirem enquanto eles se apresentavam na época. Eu certamente não fui clarividente! Apenas posso dizer que lamento que tantas dessas questões urgentes estão não apenas ainda relevantes, mas mais urgentes do que eram quando eu escrevi sobre elas”, diz, reforçando a responsabilidade de debater ideias prementes na sociedade: “Em tempos sombrios e incertos, eu acho que as pessoas começam a olhar para escritores que lancem uma clara e firme luz.” 

Como em toda boa ficção científica, a obra de Le Guin não nos faz apenas passear por mundos imaginários, mas critica o que nunca paramos para refletir sobre nossa sociedade. Assim como uma viagem faz o visitante conhecer muito sobre seu lugar de origem, Le Guin apresenta culturas tão factíveis que os mínimos contrastes em relação à Terra chamam atenção aos preconceitos introjetados em nosso cotidiano e injustiças sobre as quais apenas tergiversamos. O físico Shevek, protagonista de Os Despossuídos, ao viajar de Anarres para Urrás, estranha o funcionamento da torneira da nave, que não desliga sozinha, para ele sinal “de muita fé na natureza humana, ou da existência de grande quantidade de água”. 

É da dissonância provocada pelo exílio que surge a alteridade na prosa de Le Guin, e é nessa descoberta do “outro” que se delimita a posição do “eu” na sociedade. De forma análoga, o leitor compreende o lugar do oprimido. Essa é uma distinção fundamental, especialmente no momento atual, quando se discute tanto a importância do lugar da fala em movimentos como o feminismo. Sobre isso, Le Guin afirma: “Tanto mulheres como homens têm muito trabalho a fazer a fim de ganhar e manter liberdade, igualdade e justiça para todos.” 

Embora tenha sido uma das primeiras mulheres a fazer sucesso em um nicho tão dominado pelos homens, ela afirma que começou sua carreira em um momento propício. “Havia várias mulheres notáveis editando revistas de ficção científica, e editoras que não queriam restringir os escritores nem os leitores do gênero a adolescentes, homens nerds e engenheiros”, relembra ela, que vê com bons olhos a nova geração de autoras do estilo, como Jo Walton, Ann Leckie e N. K. Jemisin: “Eu sei que elas sabem que o preço da liberdade é a eterna vigilância.” 

Além de ser a mais influente autora da ficção científica, ela dedicou-se à fantasia, sendo equiparada em um artigo do autor inglês David Mitchell para o jornal The Guardian a J.R.R. Tolkien, mente por trás de O Senhor dos Anéis, O Hobbit e O Silmarillion. “Ambos os gêneros libertam o romancista das limitações do mundano, do banal, do que já é senso comum”, analisa Le Guin. “Em contrapartida, a ficção científica demanda um certo rigor intelectual, enquanto a fantasia requer absoluta consistência de suas invenções”, acrescenta a autora da série fantástica Earthsea, que inspirou uma animação do Studio Ghibli (conhecido por A Viagem de Chihiro) e uma minissérie do canal Sci-Fi, e cujo primeiro livro, O Feiticeiro de Terramar (1968), foi editado no Brasil pela Arqueiro.

Para alguém que já transitou entre gêneros com tamanha solidez literária, Le Guin tem uma prosa surpreendentemente coesa e direta, o que é, para ela, o grande desafio dos ficcionistas. “Ausência de clareza na linguagem normalmente significa inadequação de pensamento ou de percepção ou de habilidade. Os escritores que eu mais admiro são aqueles que, como Wordsworth, Tolstoi, Woolf ou Saramago, dizem coisas complicadas, ambíguas, até inexprimíveis em uma linguagem direta e despretensiosa”, conclui. 

Nova geração. Durante o pós-guerra, quando a ficção científica (que muitos acreditam ter começado com Mary Shelley e seu Frankenstein) começou a se popularizar a reboque de autores como Isaac Asimov, Frank Herbert e Arthur C. Clarke, a taxa de mulheres produzindo no gênero ficava entre 10% e 15% de acordo com a pesquisa de Eric Leif Davin, que levantou dados de 1926 a 1965. Em comparação com outros estilos literários, o século 20 registrou uma média quase regular de 30% a 40% de livros publicados por mulheres, segundo um estudo da Universidade do Texas. 

O abismo começou a diminuir com o sucesso de Ursula K. Le Guin, primeira autora a vencer os prêmios Hugo e Nebula em 1970 (ela repetiria a façanha em 1975, tornando-se também a primeira pessoa a fazer a dobradinha duas vezes). Desde então, ambas as condecorações foram concedidas por 17 vezes a mulheres, inclusive em quatro dos últimos seis anos, evidenciando uma nova leva de autoras composta por Jo Walton, Ann Leckie, Naomi Novik e N. K. Jemisin. Vale lembrar que a organização Science Fiction and Fantasy Writers of America é presidida pela escritora Cat Rambo.

Principal representante dessa nova safra, Ann Leckie venceu o Hugo e o Nebula por seu livro de estreia, Justiça Ancilar, eleito melhor romance de 2014. Leckie aborda a questão da identidade ao colocar a inteligência artificial de uma nave espacial como protagonista de sua história. Outrora uma consciência coletiva, a personagem se vê no corpo de um único soldado e tem de lidar com esse novo ponto de vista e com a própria percepção de realidade para descobrir o que houve.

Justiça Ancilar teve seus direitos de publicação adquiridos pela editora Aleph, mas ainda não há previsão de quando o livro chegará às prateleiras dos leitores brasileiros.

*André Cáceres é jornalista, escritor, autor de 'Cela 108' (2015, Multifoco) e está na antologia poética 'Além da Terra Além do Céu Vol. II' (2017, Chiado)

Os Despossuídos

Autora: Ursula K. Le Guin

Tradução: Susana L. de Alexandria

Editora: Aleph

372 páginas

Em maio nas livrarias

Mais conteúdo sobre:
ficção científica Literatura

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