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CARLOS BARRIA | REUTERS

Em terra de cego

A Hillary idealista e estoica cedeu lugar à Hillary pragmática e imediatista, não tão gananciosa quanto Mrs. Underwood, mas de igual estirpe

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Sérgio Augusto,
O Estado de S.Paulo

13 Março 2016 | 06h00

Hillary Clinton ou Donald Trump?

Dá Hillary.

Hillary ou Ted Cruz?

Dá Hillary.

Hillary ou Bernie Sanders?

Pode dar Hillary. Repito: pode.

E se não der? Aí teremos um duelo de titãs só iguais no sexo e no perfil populista. Um populista de direita (Trump) contra um populista de esquerda (Sanders).

Não são poucos os que acreditam que Trump seja o único republicano que qualquer candidato democrata pode derrotar e Hillary, a única indicação do Partido Democrata que Trump é capaz de vencer. Se assim for, escolher Sanders seria teoricamente mais seguro do que fechar com Hillary, cujo índice de rejeição é praticamente o dobro (18%) do de Sanders (10%), e no quesito aprovação perde por 78% a 85%.

No debate de quarta-feira, em Miami, a veterana jornalista do Washington Post Karen Tumulty acrescentou à falta de carisma da candidata outra estatística embaraçosa: apenas 37% do eleitorado nacional considera a ex-secretária de Estado “honesta e confiável”.

A Hillary estoica e idealista cedeu lugar a uma Hillary pragmática, estratégica, imediatista, não tão ambiciosa quanto Claire Underwood, a primeira-dama de House of Cards, mas da mesma estirpe. Blindada pelos cardeais do partido, parece imbatível, e talvez seja. Conta a seu favor não só com a elite partidária (e a maioria de seus superdelegados), mas também com algumas figuras-chave do comentariado político, as mulheres com mais de 30 anos, a maior parcela do eleitorado negro, o apoio de Obama – mais aqueles que, com razão, se rejubilam com a perspectiva de ver uma mulher sucedendo a um negro na Casa Branca.

Apesar do inesperado revés em Michigan, ela continua na frente.

Seu cativo eleitorado sulista – ou confederado, como seus críticos preferem classificar, numa referência aos estados que na Guerra de Secessão lutaram contra o Norte antiescravista – se manifestará pela última vez na próxima terça-feira, quando das votações na Flórida e Carolina do Norte. Nos Estados que permaneceram fiéis a Lincoln, Sanders obteve até agora 57% dos votos. O que vale dizer que as primárias democratas só começam para valer depois de 15 de março.

Bem preparada, experiente, obstinada, combativa, são essas as virtudes que seus apparatchiks mais vendem, sem roubar no peso. Hillary é tudo isso e o inferno também. Muitos não a perdoam pelo apoio que deu, no Senado, à invasão do Iraque, pelas pixotadas no comando da política externa de Obama (Benghazi, a mais notória), por aquela trapalhada com e-mails, por suas fortes ligações com Wall Street, Henry Kissinger e Netanyahu.

O eleitorado mais jovem a considera o establishment personificado, uma legítima representante da geração baby boomer. Ansiosos por reformas políticas substanciosas e com outra perspectiva econômica na cabeça, mais voltada para o bem-estar social, os millennials aderiram em peso às hostes sanderistas. Não lhes comoveu a procedente advertência, feita por Hillary, entre outros, de que mais importante do que pôr um social-democrata na Casa Branca é tirar dos reacionários e intransigentes republicanos a maioria no Congresso, onde tudo se decide.

Essa semana, a vice-presidente do Diretório Nacional do Partido Democrata no Havaí desligou-se do cargo para endossar explicitamente a candidatura de Sanders. “Quero um comandante-chefe que não desperdice vidas preciosas e dinheiro público em guerras intervencionistas”, explicou-se a parlamentar Tulsi Gabbard. Ela teme que Hillary jogue mais lenha na guerra civil na Síria, “como fez com a derrubada de Kadafi na Líbia, abrindo as portas para o Estado Islâmico”.

Bill Curry, ex-conselheiro de Bill Clinton, fez coisa pior, e por escrito: “Se Hillary e Trump vencerem suas respectivas convenções, será a primeira vez que os dois partidos disputarão a Casa Branca com seus piores candidatos”. Curry exagerou um pouco. Trump não é o pior candidato republicano. Esse labéu ninguém tira do senador Ted Cruz, o favorito dos evangélicos.

Último adversário intestino de Trump depois que os queridinhos da cúpula partidária, Jeb Bush e Marco Rubio, deram chabu, Cruz é a menos confiável figura da campanha. Execrado até por seus pares, mais que um demagogo de extrema direita, sedento de poder, é um deslavado e inflamado mentiroso, um Joe McCarthy texano que diz trazer Jesus no coração.

Trump é um bufão racista, autoritário e xenófobo, um bully ao estilo Mussolini, o Berlusconi de Queens, mas um doidivanas até certo ponto maleável, acreditam alguns democratas (entre os quais o ex-presidente Jimmy Carter), para horror dos morubixabas republicanos, que não confiam na sua “pureza ideológica” (já o acusaram de “liberal enrustido” e “quinta-coluna dos democratas”) e não sabem como enfiar sua porra-louquice no cabresto.

Justamente por ser o mais performático dos candidatos, a TV, esse picadeiro eletrônico visceralmente sensacionalista, tem-lhe concedido o dobro do tempo de exposição dado a Hillary. Ano passado, Trump ganhou 327 minutos de propaganda gratuita nos telenoticiosos noturnos, contra os 121 minutos computados por Hillary, diferença que se manteve nos dois primeiros meses deste ano. A democrata poderia ter compensado essa desigualdade se os projetos televisivos inspirados em sua vida e carreira (uma minissérie da NBC, com Diane Lane, um documentário da CNN) não tivessem sido cancelados após indecorosas pressões do Partido Republicano.

Pressões e chantagens fazem parte do jogo político, eletrizam os embates eleitorais e não são uma exclusividade dos republicanos. Sanders foi vítima de uma intriga orquestrada pelo operativo político David Brock, que, ocultando a participação exemplar do senador na luta pelos direitos civis, tentou (e conseguiu) jogá-lo contra o eleitorado negro. Brock comanda as doações de campanha de Hillary e também se empenha em grudar em Sanders a caluniosa mácula de comunista.

Difamador profissional, há 24 anos, quando ainda um extremista de direita, enlameou a advogada Anita Hill, vítima de assédio sexual do juiz da Suprema Corte Clarence Thomas, num artigo para a revista American Spectator, que depois virou livro, cheio de mentiras, pelas quais foi constrangido a se desculpar. Brock aliou-se, faz tempo, aos Clintons e desde então se diz “progressista”.

O único progressista nessa história toda é o adversário número um de sua patroa, que também é o único capaz de evitar que vários americanos tenham de aderir ao voto útil para impedir que o país vire uma chacota mundial.

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