Ensaio - Willian Eggleston: O mistério do visível

“Estou em guerra contra o óbvio.” Para um fotógrafo que acha aborrecido explicar suas fotografias nem faz questão de legendá-las, a frase curta de William Eggleston soa como um discurso interminável e esclarecedor. Espécie de papa da fotografia moderna, ao qual fãs como David Lynch, Sophia Coppola, Win Wenders e Gus Van Sant (só pra ficar no cinema) pedem a bênção, Eggleston, de 76 anos, ganha sua primeira grande exposição individual na América do Sul, a partir de sábado 14, no Instituto Moreira Salles do Rio (IMS): William Eggleston, a Cor Americana.

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S. Paulo

07 Março 2015 | 16h00

São 170 fotografias feitas nas décadas de 1960 e 70 no sul dos Estados Unidos, onde ele nasceu (Memphis, Tennessee) e continua a produzir a maior parte de seu trabalho. Na mostra do IMS estão imagens da famosa exposição de 1976 que fizeram do MoMA de Nova York e seu então curador, John Szarkowski, alvo de ira e menosprezo. “A mais odiada exposição do ano”, anotou na época The New York Times, que ainda classificou as imagens de “absolutamente enfadonhas”. Para o Village Voice, as cópias de Eggleston na mostra, que feriam os olhos com tamanha profusão e saturação de cores, eram “pouco mais que uma pretensão rutilante”. 

Àquela altura só havia um caminho para atingir a nobreza fotográfica: o preto e branco. Os filmes coloridos, com os quais Eggleston começara a trabalhar em 1965, não passavam de um atalho para os álbuns de família ou os anúncios publicitários, que em termos artísticos tinham o mesmo valor: nenhum. Eggleston deu um nó nisso. E apertou. 

Suas fotografias a priori não tinham, como ainda não têm, discurso político, engajamento social, narrativa linear, nem mesmo hierarquia. E, embora com o tempo tenham adquirido tons de um inventário da vida americana naquele período e naquela região, são apenas descrições, todas com a mesma (des)importância. São cenas banais de letreiros de lanchonetes, potes de ketchup, capôs de carros, fliperamas, cercas podres, freezers cheios de comida, soquetes de lâmpada e o cotidiano do povo sulista suburbano. É como se Eggleston fotografasse de olhos fechados, observou o músico David Byrne no catálogo da exposição do IMS. Algumas vezes a experiência da cor basta. Noutras, há um jogo de dualidades provocado pelo que as imagens mostram e o que deixam imaginar, o claro e o oculto, a intimidade e o mistério, o estranho e o familiar. 

“Psicologicamente complexo e refinado, casualmente na fronteira com o kitsch e nunca convencionalmente bonito, o trabalho de Eggleston fala principalmente à expansão da imaginação”, define o fotógrafo brasileiro Armando Prado, outro mestre da cor e fã do papa americano. “Suas fotografias constituem uma espécie de afirmação filosófica sobre o mundo que nós criamos.”

Bach e uísque. Por convicção, rabugice ou simplesmente despiste, Eggleston talvez não fosse tão longe na elucubração a respeito de seu trabalho. Os amigos, que o chamam de Bill, dizem que ele gosta mesmo é de tocar Bach ao piano, pintar quadros com pretensões expressionistas e virar a noite ao lado de um copo de uísque. Fotografia seria muito mais simples, como se vê na descrição do registro do garoto sardento, banhado pelo sol do poente e empurrando carrinho de supermercado que se tornaria um marco na história da fotografia (foi ali que Eggleston se acertou com o filme colorido): “Então, uma noite, fiquei acordado planejando o que ia fazer no dia seguinte, que era ir ao grande supermercado descendo a rua, chamado Montesi’s - não sei por quê. Parecia um bom lugar para experimentar coisas”.

O óbvio, veja bem, é para os medíocres.

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