Ensaios de John Berger estão em 'Para Entender uma Fotografia'

Ensaios de John Berger estão em 'Para Entender uma Fotografia'

Crítico inglês morto em 2017 tem textos reunidos pelo escritor Geoff Dyer

Caio Sarack*, Colaboração para o Estado

19 Agosto 2017 | 16h00

Desde a morte do crítico e ensaísta inglês John Berger (1926-2017), seu nome tem sido frequentemente relembrado nos debates sobre fotografia e literatura, dada a maneira acessível e clara de tratar de assuntos que, no último século, foram aprofundados e rediscutidos segundo os mais variados matizes. Berger assume uma postura mais empática em relação às várias maneiras de ver e as converte numa comunidade de que todos nós, homens e mulheres, fazemos parte. “O ver é anterior às palavras. A criança vê e reconhece antes que possa falar”, escreve-nos o crítico em sua obra Para Entender uma Fotografia.

E se o olhar vier antes de nossa capacidade lógica e discursiva? Ou, ainda, e se o olhar constituir, por si só, uma capacidade outra de discursar sobre o mundo e sobre a maneira pela qual encaramos nossa situação contemporânea? Se o ato de olhar é primitivo e nos situa como semelhantes, de que modo podemos compreender o mundo ao nosso redor e, consequentemente, todas as suas representações? Em sua obra, Berger preocupa-se com o “convite a olhar para a realidade” a que a fotografia nos incita. A questão primeira está em diferenciá-la de outras tantas expressões artísticas, tanto pela técnica que a define quanto pela narrativa que ela instaura.

Se a foto é a captura de um instante que já passou, isto é, que não está mais na realidade quando estou diante de sua representação, o que essa foto me diz de diferente sobre uma natureza morta feita a pinceladas ou sobre soldados esculpidos em mármore? Para desdobrar o interesse tão generoso do crítico pelas imagens e suas histórias, precisamos trazer à baila sua preocupação com a narração de estórias.

Fotografar, hoje, é quase uma extensão do nosso corpo. Com a multiplicação dos aplicativos que registram nosso dia a dia, tratam nossas imagens e colorem nossos retratos antes desbotados, já parece muito antiquado discutir o significado humano desses registros e, ainda mais, entender o que deles podemos reconhecer como a realidade do mundo. Entretanto, Berger permanece atual, já que o gesto que grava uma foto na tela do celular é o mesmo que tenta nos contar uma estória. Ainda que aparentemente óbvio, não é nessa simples colocação que o ensaísta sustenta sua reflexão, mas na maneira particular pela qual a foto conta a estória. Enquanto o pintor distribui no espaço de sua tela os objetos que vai representar, a decisão do fotógrafo, segundo Berger, está no tempo que ele escolhe capturar. Ele conta sua estória a partir da exclusão de todos os quadros que rodeiam o instante da foto. “O que a foto apresenta invoca aquilo que não é apresentado”. O que nos situa como espectadores é a capacidade que temos de unir esse instante a um desenrolar que a própria foto suscita, mesmo sem apresentá-lo. 

Se refletirmos sobre sua atividade, o fotógrafo, por delimitar o tempo, também decide sobre todos os momentos que excluiu da sua foto. Quando tiramos uma foto de um salto na piscina, tomamos o momento do impulso e o momento molhado do contato com a água como nossos, nós entrevemos – por meio do registro fotográfico – se devemos sentir frio ou se nos refrescamos. A estória que o fotógrafo nos conta não está materializada na foto, mas surge na nossa imaginação; como espectadores, colamos os rastros existentes do passado e do futuro, indícios que estão ausentes na foto. 

Pensando dessa maneira que Berger nos apresenta em seus ensaios compilados pelo escritor inglês Geoff Dyer, a fotografia deixa de ser uma atividade artística entre outras para se tornar um instrumento de que podemos fazer uso segundo uma intenção que ultrapassa o olhar do fotógrafo: as fotos das guerras civis no Oriente Médio, dos ataques do Estado Islâmico ou qualquer registro de violência podem condicionar não só os passados e futuros que estão ocultos na imagem particular que vemos nas capas dos jornais, mas também podem nos aprisionar em um mundo em que só esses passados e futuros são possíveis. A importância da fotografia – e os tempos de Instagram e Facebook fazem coro a esse diagnóstico de Berger – está em compreendê-la não como uma obra de um artista e sua individualidade, mas como um recurso de construção e confirmação de uma visão da realidade como um todo. O dilema da fotografia não está simplesmente na relação em que ela nos coloca com o presente e o ausente na foto, mas em considerar que essa operação pode nos aprisionar num espetáculo do qual não podemos nos livrar, já que elevamos o seu registro à descoberta da verdade do mundo e, consequentemente, da sua impossibilidade de mudança. Ver se torna, portanto, o ato de libertar-se.

*Caio Sarack é mestre em filosofia pela FFLCH/USP e professor do Instituto Sidarta

Para Entender uma Fotografia

Autor: John Berger

Organização: Geoff Dyer

Tradução: Paulo Geiger

Editora: Companhia das Letras

264 páginas

R$ 59,90

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Fotografia

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