Westdeutscher Rundfunk
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Ensaios do escritor alemão Alfred Döblin são reunidos em livro

'A Construção da Obra Épica' analisa os grandes romances de autores como Cervantes e Dostoievski

Sérgio Medeiros*, Colaboração para o Estado

19 Agosto 2017 | 16h00

Considerado um dos maiores prosadores alemães do século 20, Alfred Döblin (1878- 1957) é autor do romance Berlin, Alexanderplatz (Berlim, Praça Alexandre), de 1929, um vasto painel da Alemanha pré-nazista que foi filmado em 1983 por Rainer Werner Fassbinder. “Não tenho um cerimonial de trabalho”, afirmou Döblin certa vez, antes de ter suas obras proibidas e queimadas na Alemanha e ser obrigado a viver no exílio, “mas não consigo trabalhar numa cidade estranha, etc., raramente em uma mesa de hotel no meu quarto, só na minha casa em Berlin, e em locais berlinenses, sinto segurança”. Essa declaração consta do seu ensaio O Trabalho no Romance, que acaba de ser publicado no Brasil, junto com seis outros de sua autoria, na importante e reveladora antologia A Construção da Obra Épica e Outros Ensaios.

Interlocutor de F.T. Marinetti e um dos fundadores da revista expressionista Der Sturm (A Tempestade), Döblin, que era neurologista, avisa, já no segundo ensaio da antologia, que quer ir direto ao assunto; a contundência, portanto, é sua marca expressiva. A escrita ensaística de Döblin, se por um lado é seca e incisiva, por outro se mostra não poucas vezes saborosa, graças sobretudo às analogias inspiradas que recheiam os parágrafos breves. 

“O romance não tem nada a ver com a ação”, declara com convicção, explicando: “No romance, trata-se de dispor em camadas, de amontoar, de revolver, de empurrar.” Escritor vanguardista, ele abomina a ação progressiva, a trama linear, e cita Homero, Dante, Cervantes e Dostoievski como autores que souberam mostrar que cada instante da vida “é uma realidade completa, perfeitamente acabada”. Propõe, ao defender o novo romance épico, uma analogia curiosa: “Se um romance não puder ser cortado em dez partes, como uma minhoca, e cada parte não puder se mover independentemente, então, ele não presta.” 

Um romance que não seja nem linear nem progressivo não tem forma fixa, segundo Döblin, pois é, sobretudo, ilimitado. “Os poemas épicos antigos dificilmente tinham um começo e, com certeza, não tinham um final”, explica, antes de admitir, sem pudor, que o texto que pratica (era amigo de Bertolt Brecht, dramaturgo que teorizou o teatro épico) carece de forma. Ao abolir a trama tradicional (ou jornalística, como gosta de dizer), o romance épico, na sua concepção, torna-se uma obra sinfônica. “Devemos equilibrarmo-nos entre a coleção de árias da antiga ópera e a infindável melodia de Wagner”, sintetiza, chamando a atenção para o fato de que dez novelas não fazem um romance, embora possam existir entre elas ligações.

Assim como Wittgenstein, Alfred Döblin acredita que a ciência e a arte são duas categorias radicalmente díspares em métodos de trabalho e em meios de representação. No fim da vida, o filósofo austríaco dedicou-se a refletir sobre ética, religião e cultura, opondo-se, como ele afirmou, à adoração da ciência, que julgava ser característica da sua época e contra a qual acabou se insurgindo. Ou seja, Wittgenstein, nos seus últimos trabalhos, todos publicados postumamente, tentou defender a integridade da forma “não científica” de compreensão do mundo, a qual é própria da arte. Não é a ciência, mas a arte, segundo declarou, que nos ajuda a compreender o outro. Essa crença do filósofo é compartilhada por Döblin (os dois não tiveram contato, ao que me consta), para quem, conforme se lê nestes ensaios, o pensamento puramente reflexivo não tem nada a ver com o romance, por mais que sua forma seja tolerante (nela muita coisa é permitida)... 

Recorrendo a uma analogia sugestiva (método também empregado por Wittgenstein), Döblin denuncia os ficcionistas “conversadores”: “É perigoso escrever livros que têm a função de provar algo, assim como colocar crianças no mundo com placas: esta será um bispo ou um general e, depois, elas se tornam sabe-se lá o quê. As crianças pagam os pecados dos pais.” Nessa passagem, o escritor está defendendo a ideia de que o romance não deve ser conduzido à filosofia, mas sim à forma artística, embora também admita que o prosador seja um tipo especial de cientista: “Ele é uma mistura de psicólogo, de filósofo, de observador social.”

Organizada por Celeste Ribeiro de Sousa, que assina com Alceu João Gregory a tradução, esta antologia de ensaios breves de Alfred Döblin traz duas apresentações dos tradutores, as quais poderiam, a meu ver, ter sido reunidas num texto só, para evitar repetições de dados e ideias. 

*Sérgio Medeiros é poeta, dramaturgo e ensaísta. Publicou, entre outros, 'A Idolatria Poética e a Febre de Imagens' (poesia) e 'As Emas do General Stroessner' (teatro)

A Construção da Obra Épica e Outros Ensaios

Autor: Alfred Döblin

Tradução: Celeste Ribeiro de Sousa e Alceu João Gregory

Editora: EDUFSC

187 páginas

R$ 30

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Alfred Doblin Literatura Alemã

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