Entendendo uma tela de Manet que ajudou a criar a arte moderna

Entendendo uma tela de Manet que ajudou a criar a arte moderna

'Mademoiselle V... em Roupa de Espada', obra de 1862, descartou as ilusões de tridimensionalidade e autenticidade da pintura

Jason Farago, The New York Times

09 Setembro 2017 | 16h00

Esse sapato aparece em Mademoiselle V... em Roupa de Espada.  O quadro está na Galeria 810 do Metropolitan Museum of Art. Eu o observo há anos. Manet é minha estrela guia artística, o homem que me lembra que as grandes obras de arte seduzem tanto a mente quanto o olhar ao mesmo tempo. E em sua pintura, como em todas suas obras maduras, mesmo os menores detalhes proclamam que arte é basicamente o que está à sua frente.

Completado em 1862, quando Manet tinha apenas 30 anos, o quadro retrata uma jovem mulher vestida como um espada: o participante de uma tourada que abate o animal depois que o matador termina. Mas suas afetuosas pinceladas e ousadas transições de cor semelhantes a uma estocada dão a entender que sua pintura pretende ser algo mais que uma fiel descrição de uma real corrida de touros espanhola. Vamos começar pelos sapatos, que flutuam de forma estranha, como se a personagem estivesse desprendida do chão.

Manet formou-se no estúdio o pintor acadêmico Thomas Couture e aprendeu como qualquer outro estudante como dimensionar personagens e modelar sombras para criar uma ilusão de espaço entre primeiro plano e fundo. Ou seja, ele sabia como fazer aqueles pés firmarem-se no chão. Mas não o fez.

Suas calças também estão estranhamente amorfas, compactadas contra o background mais profundo do ambiente da corrida de touros: e embora possa ser difícil de perceber em uma imagem jpeg (as imagens digitais tendem a tornar a textura sem brilho e monótona) há um acentuado contraste entre o intenso, tosco bolero negro da personagem e as rápidas pinceladas (“alla prima” técnica que permitia dar agilidade à pintura) como uma escova, do lenço amarelo. Mas ao colocar tais elementos dissonantes, lado a lado, sem transição, é parte do que tornou Manet moderno.

Os amigos toureiros da mulher aparecem em um domínio totalmente diferente em relação ao retrato principal. (Ele tomou emprestado de uma gravura de Goya a disposição dos elementos). O matador, de azul, salta entre os estrados buscando segurança; outros toureiros reúnem-se nas sombras – mas são parcamente definidos: olhe novamente, e toda sua figura, contra o background da corrida, parece chapada e implausível. Ela se parece com um recorte, como se estivesse em frente a uma cortina de fundo teatral;

Eis aqui os primeiros passos em direção a um novo tipo de pintura: uma que não mais faz de conta que a tela é uma janela para o mundo, e em vez disso apresenta-se mais como o que é realmente – pintura em uma superfície bidimensional.

As pinturas de Manet do início da década de 1860 ajudaram a preparar o terreno para impressionistas como seu amigo mais jovem, Claude Monet, que iria elevar a extravagância do amalgamado salpicar das cores que Manet às vezes aplicava, em um dos novos fundamentos da moderna pintura.

Veja a capa cor de rosa que ela traz nas mãos: mais fluida e delicada que as outras rijas, usadas na arena. Você poderá ver algumas das semelhanças em Nenúfares, expostas em uma sala próxima e pintadas cerca de 60 anos depois de Mademoiselle V.

Em meados do século 20, críticos norte-americanos encararam de forma objetiva o fato de uma pintura como Mademoiselle V ter sido um dos primeiros passos em uma inevitável progressão rumo à arte abstrata. Se você acompanhar essa linha partidária, a monotonia de nosso toureiro aqui leva diretamente ao cubismo de Pablo Picasso e a total abstração de Jackson Pollock.

Compare isso com um Picasso de 1913-1914, também na coleção do Met, que traduz em uma mulher numa cadeira em uma disposição simplificada, à semelhança de uma colagem, de planos achatados.

Fácil de ver agora. Mas na década de 1860, muitos críticos levaram o achatamento de Manet como prova da falta de sofisticação. Mademoiselle V foi rejeitado do Salão oficial de 1863 e em vez disso, apresentado em uma nova exibição paralela, o Salão dos Recusados.

Só uns poucos dos contemporâneos de Manet, acima de tudo Émile Zola e Charles Baudelaire, puderam ver que o achatamento expressava algo essencial a respeito do moderno, afastado de Paris, onde a vida real fica desconcertada com as aparências.

Isso também estava nos sapatos, que são marrons, não negros e um tanto quanto delicados para se entrar num confronto com bovinos de quase 700 quilos.

Por que tal calçado tão pouco convincente? Ao equipar seu modelo em sapatos tão inadequados para uma tourada, Manet afastou-se de sua rota para anunciar que a personagem da pintura era ela mesma uma criação artificial. Essa não é a pintura de um toureiro espanhol. Essa é a pintura de uma mulher francesa posando como espada e Manet não quer que você se esqueça disso.

Manet mantinha uma caixa com roupas em seu estúdio e vários de seus retratos espanhóis repetiam os mesmos chapéus, camisas de boleros. Na verdade, exatamente as mesmas calças com borlas aparecem na pintura pendurada do outro lado da sala:

A Mademoiselle V do título é Victorine Meurent, de 18 anos, a modelo favorita de Manet e mais tarde ela mesma uma pintora, embora nenhuma de suas obras tenha sobrevivido. É ela nua no piquenique da obra-prima de Manet do mesmo ano, Le Déjeuner sur l’Herbe (O Almoço sobre a Relva).

Três anos mais tarde, em 1865, ela aparece em Olympia, onde representa uma deusa do amor como uma simples prostituta.

Em Mademoiselle V, Victorine aparece totalmente vestida, mas está essencialmente ridicularizando um retrato tradicional, no qual a vida interior da pessoa retratada é revelada. O pó em sua pele, o cabelo avermelhado, os grandes olhos negros e a ausência de expressão são tanto particulares como irredutíveis. Eles não concedem qualquer vislumbre de um “eu verdadeiro”, mas parecem apenas afirmar que nenhum olhar atento, por mais insistente, vai desvendar seus segredos.

E esse é o gênio de Manet, uma conquista tão extraordinária que eu ainda tenho dificuldades para me reconciliar com ela: ele percebeu que vestir uma mulher de toureiro e ser direto faziam parte do mesmo projeto.

Ambas ilusões – a ilusão de três dimensões e a ilusão de pessoas realmente autênticas – são descartadas de uma só vez.

Bem-vindo ao mundo moderno, rude mas arrebatador, onde um toureiro é apenas uma modelo, e a modelo é realmente apenas pintura.

Aquele é o estúdio?

Ou é o ambiente da corrida?

Ou é apenas cor em um pedaço de tecido?

Tradução de Claudia Bozzo

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Arte Edouard Manet

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