Entrevistas de Vladimir Putin com Oliver Stone são compiladas em livro

Entrevistas de Vladimir Putin com Oliver Stone são compiladas em livro

Presidente russo fala sobre interferência na eleição de Trump, política externa e guerra nuclear

Flávio Ricardo Vassoler*, Colaboração para o Estado

28 Outubro 2017 | 16h00

No livro The Putin Interviews, ainda inédito no Brasil, o cineasta estadunidense Oliver Stone entrevista o presidente russo Vladimir Putin entre 2015, quando a crise ucraniana ainda pulsa, e 2017, após a eleição de Donald Trump como presidente dos EUA.

Com uma aura de força, Putin gosta de duelos. Assim, Stone faz menção a Barack Obama, para quem Putin ainda vê o mundo com a voracidade imperialista do século 19. Diante da pergunta “Por que a Rússia anexou a Crimeia?”, Putin redargue: “Nós não anexamos a Crimeia. Os cidadãos da Crimeia, por meio de um referendo, decidiram se unir à Rússia.” (Stone não o pressiona para que Putin explique por que o dito referendo foi feito ao arrepio da temporalidade determinada pelas leis e tratados internacionais.)

Que dizer da influência da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) sobre os países próximos à Rússia – Países Bálticos, Geórgia, Ucrânia (antigas repúblicas soviéticas)? Putin chicoteia: “Hoje, a Otan é um instrumento da política externa dos EUA. Ele não tem aliados, apenas vassalos. Membros da Otan dificilmente resistem às pressões dos EUA. Assim, quaisquer sistemas de armamentos e bases militares podem ser instalados nesses países. E o que nós devemos fazer? Ora, nós temos que apontar nossos mísseis contra as instalações que nos ameaçam. Assim, a situação é cada vez mais tensa.”

Crítico ferrenho da política externa intervencionista dos EUA, Stone referenda as reações (supostamente) defensivas da Rússia. No entanto, ele pergunta ao presidente se, agindo assim, a Rússia não estaria se prejudicando aos olhos da comunidade internacional. Ao que o nacionalista Vladimir Putin, unilateral como os EUA, responde: “Você acha que nosso objetivo é provar algo para alguém? Nosso objetivo é fortalecer o nosso país.”Quando o líder de uma potência nuclear afirma que o objetivo essencial de seu país é o autofortalecimento, Stone projeta o cenário iminente de uma guerra. Nesse caso, os EUA seriam dominantes? Putin é taxativo: “Não.” Mas a Rússia sobreviveria a uma guerra nuclear? “Ninguém sobreviveria a tal conflito”, sentencia Putin.

Polêmico, o presidente russo afirmou certa vez que, para além do holocausto judaico e das bombas atômicas lançadas sobre o Japão, a maior tragédia do século 20 fora o colapso da União Soviética. A despeito de Putin emendar que se referira à tragédia dos milhões de cidadãos russos que, com o fim da URSS, se tornaram, do dia para a noite, estrangeiros em países crescentemente hostis – eis o caso, por exemplo, dos russos étnicos na Geórgia e na Ucrânia –, não faltou quem interpretasse o atual presidente e ex-agente do temível KGB (antigo serviço secreto da URSS) como um nostálgico do poderio soviético. Afinal, desde sua ascensão ao poder, em 1999, Putin vem fortalecendo a autoestima russa, de modo a reconfigurar o país como um global player a ser novamente respeitado (e temido). Tornam-se inteligíveis, então, suas intervenções na Geórgia, na Ucrânia, na Síria e nas negociações envolvendo a crise na Coreia do Norte.

O fortalecimento da autoestima russa sob Putin também implica um entrelaçamento crescente (e anacrônico) entre Estado e Igreja Ortodoxa. (Quando Napoleão Bonaparte soube que o czar Alexandre I era, ao mesmo tempo, monarca e líder da Igreja, o francês teria exclamado ao russo: “Ora, mas que conveniente!”) Diante de um Estado cada vez menos laico, Stone questiona Putin sobre a homofobia das leis russas que proíbem as ditas “propagandas homossexuais” para menores. Ao que o antiliberal Vladimir Putin afirma que a defesa da família tradicional não implica homofobia. Ora, então por que criminalizar veiculações plurais e democráticas em nome da sagrada família? – eis a tréplica que Stone não emenda. 

O cineasta, então, interpela Putin, sem provas cabais, a respeito de um tema que virou consenso entre a grande mídia dos EUA: “Por que a Rússia interferiu, por meio de hackers, na campanha presidencial que levou Donald Trump ao poder?” A réplica de Putin calça luvas de pelica: “À diferença de muitos de nossos parceiros mundo afora, nós nunca interferimos nos assuntos domésticos de outros países.” (Lembremo-nos de que a ex-presidente do Brasil Dilma Rousseff foi espionada pela Agência Nacional de Segurança dos EUA.) 

Por fim, após a vitória de Trump, haveria alguma esperança para as estremecidas relações entre EUA e Rússia? Ora, Putin recorda que os dois países foram aliados nas duas guerras mundiais. Ademais, há agendas urgentes e comuns: a luta contra o terrorismo e a degradação ambiental, que, enfatiza o presidente, é a verdadeira ameaça para a humanidade. “Quanto à esperança”, prossegue Putin, “ela sempre persiste – até que nos levem para o cemitério”.

– Uau! Isso é muito russo, isso é puro Dostoievski! – arremata Stone diante do “neoczar” Vladimir Putin, casado com o poder até que a morte os separe. 

*Flávio Ricardo Vassoler é doutor em letras pela USP, com estágio doutoral na Northwestern University (EUA)

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