YURI GRIPAS | REUTERS
YURI GRIPAS | REUTERS

Era uma vez o 'american way'

Mais do que um comandante em chefe, os Estados Unidos andam precisando de um consolador em chefe. Mas Obama não consegue acalmar o medo crescente do terrorismo

Kenneth Serbin, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2015 | 18h08

Na noite do Dia Nacional de Ação de Graças, quando muitas famílias americanas vão ao cinema, fiz uma coisa que nunca tinha feito. Ao entrar no cinema, enquanto um guarda armado andava por perto, falei à minha esposa e minha filha adolescente que precisava dizer algo desagradável, mas muito importante. “Depois do que aconteceu em Paris, precisamos estar muito atentos”, lembrando que terroristas e pessoas perturbadas costumam atirar em concentrações de pessoas inocentes e despreocupadas. “Se algum maluco se aproximar e começar a atirar, teremos de estar preparados para sair imediatamente.”

Depois do ataque de jihadistas no dia 2 de dezembro em San Bernardino, uma onda de pavor tomou conta da América. Num artigo do New York Times postado online no dia seguinte, o jornal noticiou que mais de 5 mil pessoas haviam respondido à sua sugestão de que se discutisse o medo de um assassinato em massa. “Até alguns veteranos americanos confessaram que se sentiram mais seguros em zonas de guerra do que nas ruas dos Estados Unidos”, afirmava o jornal.

Comentei o artigo num e-mail para colegas do corpo docente e administradores do meu trabalho, a Universidade de San Diego, que descrevi como um alvo ideal e fácil assim como o centro de apoio a deficientes em San Bernardino. “É bastante revelador que uma outra universidade local tenha feito recentemente um treinamento sobre como lidar com um assassino em massa”, escrevi.

Na melhor das hipóteses, eu tinha apenas um vago conhecimento de que o departamento de segurança da minha universidade estava dando sessões semanais de treinamento sobre como agir em “incidentes com atiradores”. Agora, fico hiperatento, e pretendo participar do treinamento do dia 15 de dezembro.

Sugeri que minha universidade aumentasse o número de policiais contratados e seguisse o exemplo dessa outra universidade instalando alarmes de pânico nas nossas salas de aula. No mesmo dia, liguei para um assessor do deputado federal Scott Peters e pedi o apoio do representante para a contratação de mais agentes do FBI. Com centenas e talvez milhares de possíveis terroristas que teriam de ser vigiados nos Estados Unidos, a agência queixou-se da falta de pessoal suficiente e da incapacidade de monitorar as mensagens em código usadas pelos perpetradores.

Também solicitei ao assessor de Peters que o deputado transmitisse ao presidente Barack Obama a necessidade de uma postura mais vigorosa contra o terrorismo. O aumento do medo entre a população e a exigência de uma maior segurança indicam o que parece ser uma mudança de paradigma na vida americana.

Embora muitos menosprezem como absurdo o apelo do pré-candidato republicano Donald Trump de pôr fim à imigração de muçulmanos, suas palavras talvez revelem quão profundo está se tornando esse medo. Trump propôs que se use a mesma autoridade invocada durante a Segunda Guerra Mundial pelo presidente Franklin D. Roosevelt, cujo governo mandou prender milhares de japoneses, alemães e italianos sem cidadania americana. Além disso, os EUA isolaram milhares de cidadãos de ascendência japonesa.

Segundo diversos artigos, desde os dias tensos que se seguiram aos ataques de 11 de setembro de 2001, não se constatava um sentimento antimuçulmano tão forte. Em outubro e novembro, manifestantes armados apareceram em algumas mesquitas do Texas, apesar de muitos líderes muçulmanos terem se manifestado contra o terrorismo.

Obama não consegue acalmar o medo do terrorismo. Ele subestimou persistentemente a força e o alcance do Estado Islâmico. Depois dos ataques de Paris, o governo americano declarou que não existiam ameaças concretas contra os EUA. Então sucedeu o massacre de San Bernardino, que, como os investigadores do FBI acabaram de mostrar, está ligado a um plano antigo do casal envolvido de cometer atos terroristas.

No dia 6 de dezembro, Obama pronunciou um raro discurso à nação no Salão Oval. Em vez de adotar o estilo pessoal dos líderes anteriores que faziam seus discursos sentados à mesa de trabalho presidencial, Obama preferiu permanecer de pé diante de um púlpito, numa pose professoral. Apesar do que aconteceu em Paris e San Bernardino, ele não apresentou ideias nem estratégias novas. E falou menos de quinze minutos. Como um comentarista observara anteriormente, a nação não precisa apenas de um comandante em chefe, mas também de um consolador em chefe.

Depois do 11 de Setembro, por muito tempo fiquei com medo toda vez que um avião cruzava o céu. Poderia ser outro ataque terrorista? As pessoas sentiam o mesmo medo quando viajavam de avião. Entretanto, nunca me senti ameaçado andando na rua ou na minha sala de aula ou numa sala de cinema.

Agora, com a série de assassinatos em massa dos últimos anos, e a ascensão do Estado Islâmico, tenho a estranha sensação de que as coisas não serão mais as mesmas. O que acontece é uma terrível mudança nas nossas vidas que está transformando o “american way”.

Pelas ruas do Rio, onde fui assaltado certa vez e minha esposa teve uma arma apontada para a cabeça, estou sempre muito atento. De agora em diante, estarei atento também em San Diego. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

KENNETH SERBIN LECIONA HISTÓRIA BRASILEIRA E MUNDIAL NA UNIVERSIDADE DE SAN DIEGO. ESCREVEU DIÁLOGOS NA SOMBRA: BISPOS E MILITARES, TORTURA

E JUSTIÇA SOCIAL NA DITADURA (COMPANHIA DAS LETRAS)

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