Andrea Mohin/The New York Times
Andrea Mohin/The New York Times

Espetáculos de dança têm músicas de John Coltrane e David Byrne

A companhia de dança Alvin Ailey estreou dois espetáculos com escolhas musicais improváveis

Gia Kourlas  , The New York Times

16 Dezembro 2017 | 16h00

John Coltrane e David Byrne não são escolhas casuais para uma coreógrafa em busca de música para dança – pelo menos não deveriam sê-lo. No entanto, na semana passada, o Alvin Ailey American Dance Theatre provou que há lugar para os dois. The Golden Section, de Twyla Tharp, ambientada na música de Byrne e retornando ao repertório nesta temporada, ainda reluz. É verdade que os dançarinos precisam de mais tempo para viver o ritmo de suas delicadas articulações – o movimento precisa dar a ideia de que o corpo está se derretendo –, mas o que define é o tempo de desempenho.

A surpresa veio com o sóbrio esplendor do novo trabalho de Jamar Roberts, Members Don’t Get Weary (Membros não ficam cansados, em tradução livre) que teve sua estreia no dia 29 de novembro, no New York City Center. Nitidamente, Roberts cresceu desde Gêmeos, do ano passado, uma criação frenética e etérea para o Ailey II. Talvez, para ele, uma dança como Members seja o que acontece quando a intenção coreográfica é mais importante do que os passos. A peça traz o alívio.

Um veterano da companhia Ailey, Roberts pode ser conhecido por sua força e presença dominante como dançarino, mas ele tem um lado mais suave também, e ambos se saíram bem em Members, criados a partir de duas gravações de Coltrane, Dear Lord e Olé. O programa incluiu uma citação de Ralph Ellison sobre o blues sendo “um impulso para manter vivos na consciência os detalhes dolorosos e os episódios de uma experiência brutal, tocar grãos ásperos e transcendê-los”. Essas palavras reverberam em Members.

O trabalho começou com a balada de Coltrane, Dear Lord, em que o elenco – vestido com os trajes azuis e lilases de Roberts que turvam a linha divisória entre a roupa em estilo urbano chique e os uniformes de trabalho – fica dividido em dois grupos no palco.

Isso tornou a cena de abertura impressionante, ajudada pela iluminação e design cênico de Brandon Stirling Baker: cinco dançarinas, curvando-se para a frente e estirando braços que imploravam, aglomeradas em um canto do palco, enquanto outros cinco ficavam atrás. Todos usavam chapéus de palha com enormes abas; instantaneamente, a imaginação viajou para outra época: trabalhadores, um campo quente, um sol implacável.

Ao longo de Dear Lord, os dançarinos deram passos impressionantes de um canto do palco ao outro, curvando as costas e inclinando a cabeça para a luz. Eventualmente, eles se movimentaram todos ao mesmo tempo, justapondo formas fortes e angulares com um jogo de pernas quase imperceptível – dois passos em paralelo, seguidos por uma mudança – que parecia trazê-los de volta aos seus corpos.

Depois que Renaldo Maurice se agachou e despencou no chão, Jeroboam Bozeman recolheu seu corpo e o escorou bem para o alto até que eles se sentassem de costas um para o outro. Os outros, reclinados até o final, levantaram os braços com os dedos espalmados, o que trouxe à mente os “grãos ásperos” de Ellison.

Dear Lord pareceu como um prefácio, uma preparação para o longo e místico Olé. Começou com um solo para Bozeman, que se soma a Roberts em tranquila incandescência. Em breve, ele se junta a quatro homens que não se torcem tanto no espaço, mas produzem o efeito de agitar o ar dentro dele. E Jacqueline Green, em um solo que se seguiu, estava além do seu comando habitual, preciso, de si mesmo, enquanto agitava severamente pernas e braços. Um movimento matizado por curvas voluptuosas.

Mas Members foi tão emocional quanto virtuoso, especialmente no dueto entre a séria e vulnerável Ghrai DeVore e Bozeman, que se revezavam tomando-se em abraços ou concisos levantamentos. O cansaço, Roberts parecia estar falando, é esperado; desistir não é uma opção. Quando aqueles passos fantasmagóricos, retornaram no final, eles trouxeram alívio.

Tal como acontece com Members, a música é o que desencadeia o corpo em ação em The Golden Section (1983), visto na quarta-feira. Aqui, 13 dançarinos brilham como o sol nos trajes esportivos gregos de Santo Loquasto. A proeza necessária para esta dança também é olímpica.

Como In the Upper Room de Tharp, Golden Section fala sobre coragem – um dançarino deve ser implacável para vir para o outro lado. Enquanto muitos foram heroicos, Chalvar Monteiro destacou-se por sua ousadia desaforada. Mas The Golden Section brilha mais ainda quando o espírito do grupo permanece intacto: eles tiveram 13 sortudos para nadar na dourada bebida de Tharp, e eles dançaram como se soubessem disso. / Tradução de Claudia Bozzo 

Mais conteúdo sobre:
John Coltrane David Byrne Dança

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.