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TOBY MELVILLE | REUTERS

Essa não é a tua noite, garoto

Numa época em que o dinheiro ocupa todos os espaços, até o tênis, representante dos ideais da elite britânica, se rende a maracutaias

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Ugo Giorgetti,
O Estado de S.Paulo

24 Janeiro 2016 | 06h00

De branco imaculado da cabeça aos pés, exibiam na alvura dos trajes a pureza que supostamente lhes ia nas almas. O tênis, mais do que apenas um esporte, representava os ideais da elite britânica que a diferenciavam dos outros segmentos sociais. Jogava-se num silêncio absoluto e respeitoso, os aplausos não mais do que o apropriado para um ambiente de pessoas educadas.

O cinema, atividade que trabalha constantemente com símbolos consagrados, frequentemente utilizou o tênis para resumir rapidamente um personagem. Bastava colocar uma raquete nas mãos do ator. Ao vê-lo assim, equipado, inferia-se imediatamente que se tratava de alguém bem colocado na vida, respeitável, charmoso e certamente rico.

Lembro um filme, clássico, Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock, que mostra um tenista vítima da obsessão de um psicopata. O ambiente do tênis é apresentado com tanta classe que contamina até o psicopata assassino. Nunca se viu um psicopata de maneiras tão corretas. Até ao retratar vilões desprezíveis o tênis não tolerava vulgaridade e mau gosto. Suborno, bola, propina, tudo isso era algo completamente fora de questão. Essas coisas só aconteciam em outros esportes, assim mesmo quando esses esportes, por alguma razão, fugiam do controle da elite da qual também provinham.

Futebol e boxe, por exemplo. O cinema, sempre ele, também nesses casos é um auxílio importante para entender certas coisas. Na extensa lista de grandes filmes de boxe, quase todos se referem a subornos e entregas de resultados. Mesmo quando explicitamente o roteiro não trata disso, o tema parece estar sempre rondando os ringues, invisível, mas presente. Contudo, apesar de tratarem de corrupção, nunca dispensaram a dignidade e a coragem. Quantos filmes foram feitos em que um pugilista previamente comprado para entregar uma luta de repente se recusa e enfrenta máfias e apostadores? Punhos de Campeão, de Robert Wise, ou Réquiem para um Peso Pesado, de Ralph Nelson, são apenas dois exemplos notáveis.

No mundo real corriam histórias escabrosas sobre resultados fabricados no boxe. Consta que Muhammad Ali foi dos primeiros, senão o primeiro, a se insurgir contra a situação e só com seu inigualável talento pôde enfrentar os poderosos das quadrilhas. Bem, mas tudo isso foi em outro tempo, no qual o dinheiro representava quase tudo, mas não tudo. Hoje, em que o dinheiro ocupa todo e qualquer espaço da vida, nem mesmo aquela ínfima região gelada e distante em que vivia o tênis foi esquecida.

O tênis, um dos últimos refúgios de uma elite também em extinção, acaba de se render à época. Nessa semana houve denúncias, por parte da BBC, de resultados encomendados no tênis. Partidas importantes de torneios igualmente importantes aparentemente foram compradas. Não há mais jogadores acima de qualquer suspeita e, assombrosamente, descobriu-se que também no tênis há jogadores pobres, de segunda classe e vulneráveis.

Também o tênis hoje é um esporte de vencedores e perdedores. O que me espanta não é que se tenham tornado venais, mas pobres. Que aquela vestimenta igual, branca e impecável, esconda também misérias materiais. Talvez essa acusação ao mundo do tênis nos force a pensar sobre o que estamos vendo em geral. Porque o que vemos num estádio, num ringue ou numa quadra de tênis pode não ser o que esteja realmente acontecendo no próprio estádio, no ringue e na própria quadra. Haverá sempre a versão pública e a versão secreta para cada espetáculo esportivo? Vamos deixar de acreditar e abandonar o esporte? Não acredito.

Uma vez dentro do estádio ou diante da televisão, nosso processo mental sofre uma espécie de pane. Pelo menos o meu sofre. Uma pane da razão. Tudo o que sei e li a respeito das máfias desaparece no primeiro segundo da transmissão. Por algum sortilégio inexplicável tudo adquire incontestável verdade, e a partida que vejo se torna pura como um jogo de tênis nos anos 40. Depois volto à razão. E, sim, alguns lances que vi, à luz da razão fria, e já distante daquele momento, me parecem suspeitos, até ameaçadoramente suspeitos. Mas que importa? Na próxima partida estarei lá de novo e de novo.

É nesse processo mental perigoso, entre realidade e ilusão, que vivo o esporte. Em minha defesa evoco o argumento da beleza. Pode-se alterar o resultado de uma competição, mas não a beleza de certas coreografias inesperadas, de movimentos subitamente esculpidos, de jogadas de intuição única e irrepetível. É na esperança de testemunhar um desses lances privilegiados que ainda vamos aos estádios, ringues e quadras. No mais, é esperar que atletas defendam sua honra pessoal heroicamente como em certos filmes, e não a percam como em outros.

Há em Sindicato de Ladrões, de Elia Kazan, uma sequencia de Marlon Brando que se tornou clássica e que, embora se refira ao boxe, faz pensar em qualquer outro esporte, inclusive o tênis: “Lembra aquela noite no Garden? Você entrou no meu vestiário e disse: ‘Essa não é a tua noite, garoto. O pessoal colocou muito dinheiro no outro cara’. O outro cara... Eu poderia ter acabado com ele... E ter me tornado alguém, um desafiante ao título, e não um vagabundo, que é o que eu sou... Essa não é tua noite, garoto...”

UGO GIORGETTI É CINEASTA E COLUNISTA DO ESTADO

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