Paula Johas
Paula Johas

Evandro Affonso Ferreira trata da miséria na infância

'Nunca Houve Tanto Fim Como Hoje' é novo livro do autor, pela editora Record

Martim Vasques da Cunha*, Colaboração para o Estado

12 Agosto 2017 | 16h00

Vamos direto ao ponto desta resenha: Nunca Houve Tanto Fim Como Agora (Editora Record, 160 páginas, R$ 39,90) é o melhor romance de Evandro Affonso Ferreira. E isto não significa pouca coisa em uma obra que se preocupa pela lenta maturação da linguagem literária, pela obsessão com os extremos do ser humano e pelo aperfeiçoamento da forma do romance como um instrumento objetivo para conhecer o real. Este três pontos eram articulados com precisão nos livros anteriores – em especial, na trilogia composta por Minha Mãe Se Matou Sem Dizer Adeus (2010), O Mendigo Que Sabia De Cor os Adágios de Erasmo de Roterdã (2012), Os Piores Dias da Minha Vida Foram Todos (2014), além deste arcabouço de fragmentos sobre a finitude que é Não Tive Nenhum Prazer em Conhecê-los (2016). Contudo, é com Nunca Houve Tanto Fim Como Agora que o escritor mineiro chega ao ápice autoral que sempre desejou.

A trama do pequeno romance é mínima, mas pungente: por meio de um narrador chamado Seleno (um menino de rua que hoje é um professor universitário), sabemos das histórias de um grupo de cinco menores abandonados, principalmente o sensível Ismênio e a determinada Eurídice, todos mortos. De certa forma, Seleno é como o Ismael de Moby Dick (1851), de Herman Melville – ele foi o único sobrevivente de um naufrágio metafísico-social que comprova a atual entropia brasileira. 

Mas Affonso Ferreira vai além: graças aos nomes dos personagens, o leitor percebe que, na verdade, Seleno é uma espécie de Orfeu que, ao resgatar na narrativa da memória o vulto da sua Eurídice, esqueceu-se de ir adiante, olhou somente para trás e, igual à louca do soneto de Alphonsus de Guimarães, petrificou-se no inferno da própria alma, mergulhando na lua refletida das suas alucinações.

Não à toa que Affonso Ferreira abre o seu livro com uma epígrafe de outro escritor brasileiro que compreende bem o que significa a descida às trevas – no caso, Juliano Garcia Pessanha, o autor de Testemunho Transiente (2015). “Aquilo que era eu já agonizou, mas este morto, incessante, ainda me repete” – são as palavras deste pórtico de um submundo que, sem dúvida, é retratado como um desastre político. 

Porém, Affonso Ferreira nos obriga a não nos esquecer que tal situação se trata, antes de tudo, de uma catástrofe existencial, pois se um mundo deixa suas crianças à deriva, então somos nós esses mortos que insistem se repetir, cadáveres adiados que procriam apenas um desespero sem trégua.

É então que ocorre a reviravolta final deste romance, impecavelmente dramatizada no último parágrafo, escrito com uma astúcia dramatúrgica digna de um Machado de Assis ou de um Henry James. Afinal, o descaso com as crianças de rua é uma experiência de miséria completamente diferente da experiência de pobreza, algo que a maioria dos brasileiros pode ter sentido (ou imaginado) uma vez ou outra no seu cotidiano. 

Entretanto, já no âmbito da miséria, poucas pessoas sabem do que se trata – exceto o miserável que, pela mesma razão, não tem condições de articular em palavras o que seria isto. O romance de Evandro Affonso Ferreira parece cair (repito: parece) neste impasse, dando a impressão de estetizar algo que não tem como ser belo, até por motivos intrinsecamente morais. Portanto, como dramatizar ou romancear a vida de um menor abandonado? Só se consegue isto de duas maneiras, ambas perigosas: ou o escritor insiste naquela aliança insólita entre “bandidos e letrados”, ou descamba para um niilismo adolescente que perverte o verdadeiro sentido trágico da danação de Orfeu.

Assim, Affonso Ferreira supera este dilema ético-estético em Nunca Houve Tanto Fim Como Agora ao realizar o que o próprio chama de “liturgia do abandono”. Somente no fim o leitor percebe que tudo o que foi meticulosamente escrito pode ter sido resultado de uma mera criação literária – e, ao mesmo tempo, de uma experiência radical da condição humana. Esta ambivalência provoca uma reviravolta na alma de quem lê o romance, oposto à descida ao Hades feita pelo cantor grego, pois, graças à habilidade suprema de Affonso Ferreira como artista, não ficamos petrificados ao contemplar a fragilidade daquelas crianças pelo simples motivo de que passamos a vislumbrar a nossa miséria interior. 

Em um poema sobre o mito de Orfeu, Rainer Maria Rilke escreveu que, mesmo neste “mundo-lamento”, ainda existia um Sol que girava e “um estrelado céu silente, um céu com astros deformados”. 

Na ambiguidade própria de quem pratica a literatura não só como uma arte, mas também como um meio para conhecer a realidade em sua beleza e no seu horror, Evandro Affonso Ferreira não deixa de lado a tênue esperança de que a sua “liturgia do abandono” é um aviso para que você, leitor hipócrita, jamais olhe para trás e assim se transforme – como aconteceu em outra história que envolve a recusa de ir adiante –, numa estátua de sal aos olhos dessas crianças que, no fundo, somos nós – sem exceção.

*Martim Vasques da Cunha é autor dos livros 'Crise e Utopia - O Dilema de Thomas More' e 'A Poeira da Glória - Uma (Inesperada) História da Literatura Brasileira' (Vide Editorial, 2012). Pós-doutorando pela FGV-EAESP

Nunca Houve Tanto Fim Como Agora

Autor: Evandro Affonso Ferreira

Editora: Record

160 páginas

R$ 39,90

Mais conteúdo sobre:
Literatura

Encontrou algum erro? Entre em contato

0 Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.