Carol Vidal/Sesc
Carol Vidal/Sesc

Exposição apresenta obra do artista multimídia Guilherme Vaz

Nome pouco conhecido em São Paulo, Guilherme Vaz desbravou o "Oeste" artístico no Brasil

Livio Tragtenberg *, Colaboração para o Estado

03 Junho 2017 | 16h00

Guilherme Vaz foi um pioneiro na conquista do nosso Oeste imaginário, sonoro e existencial. Explico. O compositor e multiartista nascido em Araguari, em 1948, incorporou à sua linguagem criativa, muito além das sonoridades de um Brasil de sertanejos e indígenas, uma profunda apreensão dessas culturas ainda pouco conhecidas, resultando numa poética singular. Segundo ele, “os artistas do Leste se interessam pelo conforto das civilizações ocidentais, e os do Oeste, pelo risco do desbravamento característico das civilizações indígenas”.

Uma exposição em cartaz no Sesc Pompeia, Guilherme Vaz – Uma Fração do Infinito, com curadoria de Franz Manata e coordenação de Saulo Laudares, nos apresenta de forma ampla o percurso desse desbravador de geografias em embate com os mapas existenciais do artista contemporâneo e que é praticamente desconhecido em São Paulo. 

No início dos anos de 1960, Vaz estuda com Rogério Duprat no ambiente de pluralidade da Universidade de Brasília pré-ditadura, onde já se praticava uma radicalidade crítica com relação à vanguarda institucionalizada e se incentivava a liberdade de composição, incorporando o acaso. Depois do golpe de 1964, no Rio de Janeiro, Vaz se acerca de artistas visuais que frequentavam o MAM, como Arthur Barrio, entre outros, e pratica a arte conceitual, que seria o germe da linguagem performática e da arte sonora que questionavam o status quo do mundo da cultura. 

Em paralelo, compõe especialíssimas trilhas para o cinema, como para Fome de Amor (1968), de Nelson Pereira dos Santos, considerada a primeira trilha com música concreta no Brasil, que provocou o comentário espantado do técnico de som: “Como é que é, maestro, vai fazer música concreta? Com cimento?” Mas é na parceria com o cineasta Júlio Bressane, iniciada em O Anjo Nasceu (1969), que Vaz pôde desenvolver um novo patamar na relação imagem e som, dando um passo além das trilhas que Rogério Duprat compôs no inicio dos anos de 1960. Essa colaboração resultou em oito filmes, sendo que um dos pontos altos é Filme de Amor, de 2003. Nele, misturando free jazz com música concreta, cria uma narrativa musical que transforma a tela num túnel sonoro em perspectiva, a ser explorado pelo ouvinte/espectador em profundidade. Aliás, Júlio Bressane discorre de forma detalhada sobre essa parceria e sua relação com Vaz em vídeo que pode ser visto na exposição. Como um inquieto heterodoxo, percebe a esterilidade do meio cultural brasileiro e lança-se “rumo ao Oeste”. Acredita “que existem dois tipos de artista, os que se relacionam com o “Leste” e os que se relacionam com o “Oeste” do mundo, conforme relata no catálogo da exposição. Em busca do desbravamento de outras civilizações, convive por mais de 20 anos, entre o final da década de 1960 e início dos anos 2000, com sertanejos no Centro-Oeste e os indígenas do Norte do País. 

À maneira de um alquimista, Guilherme Vaz, admirador de Walter Smetak, reúne nessas composições conceitos da música europeia da Idade Média com cosmologias e instrumentos indígenas, em combinações únicas. Ressignificando a repetição sob a escuta do Leste e do Oeste, ultrapassa a lógica de linha de montagem industrial do minimalismo norte-americano, dissecada por Robert Fink.

Dessa convivência emerge, além de obras, uma poética sonora que pode ser experimentada em peças como Música em Manaus –Variação para Instrumentos Paleolíticos, Cantos e Orquestra Sinfônica, em vídeo de Sérgio Bermudes disponível no YouTube. “Junção de pensamento paleolítico e pensamento posterior, neolítico”, trata-se de uma obra-prima com índios da etnia Gavião-Ikolem e Orquestra Bielo-russa. Mas também em Sinfonia das Águas Goianas, Sinfonia dos Ares (que será apresentada em evento paralelo à exposição, em junho próximo) e Sinfonia do Fogo, entre outras, que tiveram edições em CD no início dos anos 2000, mas se encontram esgotadas e carentes de reedição.

Com um percurso tão original, que atravessa a arte conceitual dos anos de 1960, ao lado de outros criadores como os do grupo Fluxus, ao mergulho na vivência de culturas do “Oeste” brasileiro que recusa incorporar como recurso exótico, de forma ilustrativa, em sua poética musical. Podemos observar na exposição a escultura Totem, construída por um aglomerado de maracás, instrumento sagrado indígena que, segundo Vaz, “limpa o ar e o prepara para a música”, e que certamente faria Claude Lévi-Strauss reconhecer nele a potência de comunicação mítica que atravessa civilizações. Guilherme Vaz propõe uma terceira via, pessoal, que ultrapassa e torna obsoleta a velha dicotomia regionalismo versus cosmopolitismo, ainda que recorrente nas versões atualizadas, travestidas de multiculturalismo oportunista ou apenas de boas intenções. Enfim, o percurso de Vaz é um convite ao autoconhecimento, a nos lançar ao Oeste de nós mesmos. 

*Livio Tragtenberg é compositor, saxofonista e produtor musical

Guilherme Vaz: Uma Fração do Infinito

3.ª a sábado, 10h às 21h30;

domingo, 10h/19h30.

Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93, Pompeia.

Telefone: 3871-7700.

Grátis.

Até 6/8.

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