Philadelphia Museum of Art/Divulgação
Philadelphia Museum of Art/Divulgação

Exposição aproxima Richard Diebenkorn, o Matisse americano, de seu mestre

Obras dos dois artistas são confrontadas nos Estados Unidos, provando a relação que havia entre seus estilos

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

22 Janeiro 2017 | 05h00

O pintor norte-americano Richard Diebenkorn, morto em 1993, nunca encontrou pessoalmente o francês Henri Matisse, morto em 1954, mas sua obra manteve com a de Matisse um dos mais fascinantes diálogos da pintura no século 20. Em parte, por causa do apetite do público pelo modernista Matisse e da disputa para exibir suas obras, quinze anos se passaram entre a ideia de juntar os dois e a celebrada exposição Matisse/Diebenkorn, aberta desde outubro no Baltimore Museum of Art, em Maryland. Esta primeira retrospectiva, com 92 obras dos dois artistas, fecha as portas em Baltimore no próximo dia 29 para ser reaberta no San Francisco Museum of Art, no dia 11 de março.

Se Henri Matisse dispensa apresentação, Richard Diebenkorn oferece muito a ser redescoberto, desde que morreu, aos 70 anos, na Califórnia, onde trabalhou quase toda a vida. A distância de Nova York, epicentro do primeiro movimento de arte moderna nativo dos Estados Unidos, o Expressionismo Abstrato, talvez explique porque seu nome não é citado com tanta frequência quanto o de suspeitos habituais da Costa Leste como Jackson Pollock, Mark Rothko e Willem de Kooning. A outra fonte de esquecimento seria o fato de que Diebenkorn desafiou o cânone de seus contemporâneos e aderiu à pintura figurativa durante mais de uma década, enquanto a abstração explodia nos anos 1950. 

A exposição oferece uma rara oportunidade de reencontro com alguns dos melhores exemplos da série Ocean Park. Diebenkorn trabalhou na série ao longo de 20 anos, a partir do meio da década de 1960, quando ocupou estúdios próximos ao Oceano Pacífico, em Santa Monica. Ocean Park, com sua geometria e sutis passagens cromáticas, é talvez a série mais lírica produzida pela pintura abstrata norte-americana e é fortemente influenciada pelo período mais austero e geométrico de Henri Matisse, na segunda década do século 20.

A exposição foi organizada pelas curadoras Janet Bishop, de São Francisco, e Katharine Rothkopf, de Baltimore. O museu de Baltimore detém a maior coleção de Matisse dos EUA e foi ao chegar lá, em 2001, que Rothkopf, concentrada na reinstalação das obras, se deparou com um desenho de Richard Diebenkorn, Mulher Sentada Numa Cadeira (1963) que lhe fez imediatamente lembrar de Modelo Reclinando Com Um Robe Florido (1923) de Matisse. “Diebenkorn nunca escondeu sua influência e seu estudo da obra de Matisse,” diz Rothkopf ao Estado, “mas ficou claro que era preciso explorar a relação dos dois.” 

Richard Diebenkorn tinha 21 anos, em 1943, quando estudava arte na Universidade de Stanford e foi levado à casa de Sarah Stein, cunhada de Gertrude e Leo Stein, então uma das mais importantes colecionadoras de Matisse. 

“Depois que a primeira grande retrospectiva de Matisse chegou a Los Angeles, em 1952,” lembra Rothkopf, “Diebenkorn, foi morar um período em Illinois e, desolado com a tediosa planície do Meio Oeste, cobriu as janelas de seu estúdio e passou a pintar de memória, fortemente influenciado pelo modernista francês.”

Uma viagem patrocinada pelo Departamento de Estado à União Soviética, em 1964, colocou Diebenkorn diante das gloriosas coleções de Matisse dos museus Pushkin e Hermitage. O impacto do encontro com a obra-prima A Sobremesa: Harmonia em Vermelho (1909) é demonstrado em pinturas como Reflexões de Uma Visita a Leningrado (1965), diz Rothkopf. Ambos eram consumidos por cor e luz, lembra a curadora, e exploraram a continuidade entre interior e exterior.

Na fase de representação, Diebenkorn não emulou a alegria de Matisse. Rothkopf explica que Diebenkorn frequentemente pintava o corpo humano de memória e preferia obscurecer feições de rostos. Suas telas acumulavam camadas e camadas de tinta, refletindo sua intenção, revelada numa entrevista: “Eu preciso violar a tela, de alguma forma. A tela vazia é muito intocada e preciso começar a lambuzar.” 

Os críticos se concentraram em afinidades de estilo, mas talvez o que mais uniu os dois artistas foi uma qualidade de alerta, um julgamento e vigilância constantes sobre o processo de pintar, na opinião de John Elderfield, curador de cinco retrospectivas de Matisse no Museu de Arte Moderna de Nova York e amigo pessoal de Diebenkorn. O inglês de nascimento Elderfield, que conheceu a obra de Diebenkorn ao escrever uma resenha sobre a série Ocean Park em Manhattan, em 1975, revisita a impressão do primeiro contato, num belo ensaio no catálogo da exposição. “Com a passagem do tempo,” escreve, “o que se tornou mais importante para mim no trabalho de ambos foi a consciência da resistência pela qual seus pensamentos visuais passaram até atingir sua grandeza.” Elderfield escreve também sobre outro ponto em comum entre Matisse e Diebenkorn: os dois artistas desconfiavam de momentos quando, como argumentou a poeta Elizabeth Bishop, “a emoção vai longe demais com sua causa.”

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