Vincent Tullo
Vincent Tullo

Exposição pretende revelar mistério de obra póstuma de Marcel Duchamp

Instalação 'Étant Donnés' esconderia um autorretrato do artista vestido de Rrose Sélavy, seu alter ego feminino

Marc Mewshaw, The New York Times

07 Outubro 2017 | 16h00

Quando lhe perguntavam se se preocupava com o que os contemporâneos pensavam dele, Marcel Duchamp respondia: “Prefiro esperar pelo julgamento de um público que venha 50, 100 anos depois de minha morte”.

Essas palavras ganham agora uma aura de profecia. Quarenta e nove anos depois da morte de Duchamp, o artista turco-americano Serkan Ozkaya apresentará um modelo em tamanho natural da obra de despedida do artista, Étant Donnés, no estúdio de Greenwich Village, que um dia foi ocupado pelo pai da arte conceitual. A recriação de Ozkaya é ímpar na história das leituras de Duchamp: não é homenagem nem reinterpretação, mas, antes, um veículo para o que Ozkaya sugere ser uma descoberta alucinatória.

E que descoberta? Nas condições certas, afirma Ozkaya, Étant Donnés, um diorama gráfico com recursos de peepshow para ser visto através de fendas, exposto no Philadelphia Museum of Art, transforma-se num projetor que emite uma imagem do próprio Duchamp – nada menos que como seu alter ego mulher, Rrose Sélavy. 

Então, um autorretrato até agora não notado permaneceu à espreita por cinco décadas no interior de um trabalho supremamente enigmático? Para devotos de Duchamp, um dos mais influentes artistas do século 20, trata-se de uma descoberta equivalente à dos Manuscritos do Mar Morto.

O único problema é que ela pode ser apenas uma ilusão de percepção de Ozkaya.

Amantes de arte mais curiosos em breve terão a chance de avaliar por si mesmos. A réplica de Ozkaya será exibida ao público a partir de 21 de outubro na Postmasters Gallery, após uma breve apresentação para convidados no antigo estúdio de Duchamp na East 11th Street. Não há dúvidas de que a instalação de Ozkaya, intitulada We Will Wait (“Esperaremos”, ou, em francês, “En Attendons”, anagrama de Étant Donnés) projeta uma imagem. Se os espectadores verão nessa etérea mancha de Rorschach uma fluida semelhança com Duchamp – ou só uma miragem –, pode depender do gosto de cada um por uma boa história de fantasma.

A obra de Ozkaya leva a um amplo questionamento de nosso momento cultural. Numa época de apropriação desenfreada, qual o direito de artistas contemporâneos proporem reinterpretações de obras canônicas para dar subsídios às próprias carreiras? A peça de Ozkaya é um trabalho de pesquisa, uma reimaginação criativa ou um sequestro de arte?

Por 20 anos, Duchamp trabalhou em segredo em Étant Donnés, (traduzido livremente: “tendo em vista que”) mantendo a ficção de que havia abandonado a arte para se dedicar ao xadrez. Revelado ao público anos após sua morte, em 1968, sem textos explicativos, o diorama (obra tridimensional) de Duchamp, concebido em 1946, é um sedutor desafio para gerações de artistas e estudiosos. Ou, como disse Julian Jason Haladyn, teórico da arte que escreveu Marcel Duchamp: Étant Donnés, “um gesto final do artista para deixar na história de sua obra uma eterna indagação”. 

A própria abordagem de Ozkaya sobre essa questão começou com um incômodo “e se”: e se Étant Donnés pudesse funcionar como um tipo de projetor conhecido como câmera escura? Em caso positivo, imagem ele produziria? Estudiosos como o filósofo Jean-François Lyotard e arquiteta Penelope Haralambidou já fizeram especulações semelhantes.

Uma câmera escura é tipicamente uma caixa negra com um furo pelo qual a luz externa é projetada na parede interna da caixa, criando uma imagem. Em contraste, o fac-símile de Ozkaya afunila uma luz originada dentro da caixa – a instalação em si – através das duas fendas de observação, para o espaço do espectador. Quando os dois feixes gêmeos de luz atingem a tela colocada por Ozkaya em frente às fendas, as duas imagens projetadas (ambas fotos instantâneas invertidas do interior da instalação), eles se interpõem parcialmente. O campo geométrico de cor que formam pode, com um pouco de imaginação, ser interpretado como um rosto.

Mas, é o rosto de Marcel Duchamp?

Ozkaya prefere deixar que os espectadores tirem suas conclusões, embora ele tenha a própria opinião, que resume: “Uma vez que você viu, não pode não ter visto.”

O artista nascido na Turquia, que fez carreira sempre com estudadas e bem-humoradas provocações, baseou sua cópia no detalhado manual de instruções esboçado por Duchamp para a montagem de Étant Donnés, além de exaustivas pesquisas. A reprodução em 3D levou três anos para ser concluída e tem as dimensões e formato originais, mas as fendas de observação foram ampliadas para permitir uma imagem maior.

Um ano antes de começar seu fac-símile, o artista procurou o Philadelphia Museum of Art com a proposta de testar sua hipótese pendurando uma tela de velino a algumas polegadas das fendas de Étant Donnés.

Ele apresentou então fotos produzidas com seu modelo feito em escala 10 x 1. Segundo Matthew Affron, curador do museu, os resultados foram considerados ambíguos demais para justificar um teste aparentemente conflitante com as intenções originais de Duchamp.

“Há muitas evidências de que a ideia original do artista fosse mesmo a de uma pessoa olhando para dentro da obra através dos furos”, disse Affron. “Não nos cabe alterar a óptica de Étant Donnés.

Outros especialistas em Duchamp, porém, não descartam tão rapidamente a possibilidade de que Étant Donnés tenha sido concebida para funcionar tanto como observatório externo quanto como projetor interno. Julian Jason Haladyn admitiu que vê um rosto nas fotos da projeção, mas não o identificou como o de Duchamp. Ele assinalou, porém, que “luz, sombras e projeção fazem parte do vocabulário de do artista”.

Além disso, é conhecido o fascínio de Duchamp por autorretratos e obras de arte que são aparelhos fantásticos. Gozador notório, ele gostava também de fazer pegadinhas elaboradas. “Sua resposta a críticas demolidoras era lançar novas ideias para confundir as interpretações dos críticos”, disse Haladyn. / Tradução de Roberto Muniz

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