Galeria Estação
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Exposição reúne obras do escultor sergipano Véio em São Paulo

Obras feitas com galhos e troncos de árvores representam animais fantásticos

Carlos Augusto Calil*, Colaboração para o Estado

24 Junho 2017 | 16h00

A Galeria Estação abriu recentemente uma exposição das grandes esculturas de Véio (Cícero Alves dos Santos), eco da primeira individual do artista no Rio. Os paulistanos já nos apropriamos desse artista há tempos, graças ao olho alerta de Vilma Eid, que nos deu uma abrangente exposição em 2014, com curadoria do crítico Rodrigo Naves.

Véio acaba de receber o prêmio Itaú Cultural 30 Anos, na boa companhia de Hermeto Pascoal, Mestre Meia Noite, Lia Rodrigues, entre outros notáveis artistas e militantes dos direitos culturais. Está feito o convite para nos debruçarmos sobre sua obra extraordinária.

Cícero é um sertanejo determinado, com olhar firme e penetrante, a fronte alta, nariz agudo, predador, lábios em comissura cerrada, em ligeira compaixão, o rosto fortemente vincado. Uma sensualidade robusta emana de seu corpo, transfigurada nas esculturas eretas e dotadas de muitas pernas.

No livro que a ele dedicou Rodrigo Naves (Véio, Martins Fontes, 2014), o escultor define sua técnica: usa “madeiras abertas” e “madeiras fechadas”; pouco esculpidas umas e muito esculpidas outras; grandes peças ou miniaturas; pelas quais fala alto e fala baixo, grita e sussurra. “Gosto de minha criatividade assim, olho e já sei o que vou fazer quando pego o material”.

No entanto, essa atitude estritamente operacional pouco fala da procurada sensação de estranhamento que constitui o cerne da obra de Véio.

Percorrendo o livro, deparamos, entre as peças grandes, com O Primata, espécie de macaco verde assustado, de um só braço, que com razão intrigou o crítico culto, O Trançado, bicho fantástico de três pernas e longo focinho bifurcado, A Esplanada, bicho de três pernas, olho único e língua bivalve, O Truque da Imprensa, monstruosa girafa de duas pernas e tronco aplastrado no chão, A Visão, retorcida e imensa cobra coral pronta para o bote, Razão, bicho disforme que alude a um jegue em forma de girafa, Um Sonho de Duas Pernas, primata que avança em postura ameaçadora, O Bicho que eu Nunca Vi, estilizada cabeça de boi com três patas, O Aniversário, bicho predador que arregaça os dentes para manter bem firme a vítima etc.

Quando não nomeia simplesmente (O Primata, O Trançado), Véio atribui títulos com evidente desejo de despistar; onde põe Razão, lá ela não está, o mesmo ocorre com Truque de Imprensa e a Esplanada ou O Aniversário. Diz ele: “Inventava meus bichos, fazia aqueles animais que não existiam no universo, mas passavam a existir porque eu estava fazendo”. A voz do demiurgo.

Essas esculturas em equilíbrio instável são pouco trabalhadas; deixam entrever as formas originais da natureza, apenas ressaltadas pelo artista. Ao mesmo tempo, numa atitude oposta, nelas intervém arbitrariamente, pintando-as com cores fortes, em tinta acrílica, revelando “uma feição artificial e pop”, segundo Rodrigo Naves. 

Entre as peças pequenas, que falam baixo, como classificar Rasga Mortalha, nome atribuído a um tipo de coruja agourenta que candidamente apresenta um pássaro com cabeça de porco? Ou mesmo O Coelho, que na verdade é pássaro? Numa afronta ao mundo real, das aparências confortáveis, diz Véio: “Gosto da realidade de ver, mas de ver, não de conhecer nem saber...”.

Esses animais sonhados são metafísicos. No Manual de Zoologia Fantástica, elaborado por Jorge Luis Borges em parceria com Margarita Guerrero (publicado duas vezes, em 1957 e 1966), encontramos verbetes dedicados a Anfibesma – serpente de duas cabeças, Baamute – misto de peixe com touro e anjo, Basilisco – serpente coroada, Catóblepa – búfalo com cabeça de porco; a cabeça tão pesada que mal consegue erguer-se do chão, Mirmecoleão – mistura de leão com formiga, Nesnás – criatura com metades: um olho, uma perna, um braço, uma orelha etc., Quimera – leão, cabra, serpente, Simurg – pássaro de plumagem alaranjada, metálica, com cabecinha humana, provido de quatro asas, garras de abutre e imensa cauda de pavão real, monstros amigáveis inspirados em Homero, Plínio, o velho, Flaubert, entre outros.

Em Zoologia Fantástica do Brasil, de Afonso d’E. Taunay e no Dicionário do Folclore Brasileiro, de Câmara Cascudo, encontramos o repertório local, composto de mula-sem-cabeça, asno de três patas, boiúna, mboi-tatá, mboiaçu, mãe-do-ouro e tantos outros.

Há ainda o caso extraordinário da piaba, meio peixe, meio revista, surgida em Varginha (MG), relatado pela poeta e estudiosa de cultura popular, Lélia Coelho Frota, e recolhido por Alexandre Eulalio no seu artigo O Bestiário Fabuloso de Jorge Luis Borges, recentemente publicado em Os Brilhos Todos (Companhia das Letras, 2017). 

Na longa e reveladora entrevista publicada no livro Véio, nosso artista menciona lobisomem, caapora, fogo corredor, cujas esculturas teria feito, sob encomenda, para o Memorial da Gente Sergipana, com motivação paradidática. Ele conhece os monstros da nossa invenção popular e considera-os patrimônio público, que é preciso compartilhar. Os bichos imaginários de Véio são um capítulo a acrescentar nas obras de Borges e Cascudinho. 

De volta ao livro, entre as peças pequenas avulta Profundidade, uma porta entreaberta a ser vencida pelo homem, Egoísmo, descenso solitário e desconsolado da montanha de Sísifo, Os Penitentes, procissão assombrada ao som da matraca, e a extraordinária As Flores da Morte, em que o corpo do finado, sob a mortalha, já perdeu o rosto. Metafísica na veia, da estirpe de um Guimarães Rosa. 

Em Véio, há ainda um registro documental, de caráter anedótico, não de todo desprovido de humor, entrevisto em Porcaria, Escondido, Palhaçada, O Linguarudo, A Morte do Bicho”.

A representação desse universo foge, no entanto, das simplificações. A sua grandeza está em ser de algum modo inclassificável. Como abordar obras desconcertantes como O Medo, Equilíbrio, Anjo Branco, O Direito, Pisou na Bola? Seriam elas puras esculturas? Eis enfim uma boa classificação para obras do Véio.

Cícero é mais que um grande artista. Tem plena consciência de classe, e da que se opõe à sua, além do poder prodigioso da intuição. Sua obra reflete o ambiente, vocaliza uma tradição, cada vez mais desvalorizada. Por esse motivo, apela com agudo senso de oportunidade para a exposição pública, buscando um campo de atuação social. 

Homem bem sucedido no seu meio, desperta admiração e dependência entre os semelhantes; não se furta a atuar na comunidade, sem permitir o uso político. Intervém para reequilibrar situações familiares degradadas, para oferecer oportunidades de emprego a quem a merece. Moralista, procura ações exemplares. No contrafluxo da migração ao Sul, compra terras para preservar a natureza, da qual retira o sustento material e espiritual.

Em Nossa Senhora da Glória, no sertão sergipano, Véio criou um museu de coisas obsoletas, antiguidades, quinquilharias, para contar a história de seu povo. Ao afastar o passado para confiná-lo, quer na verdade retê-lo. Nesse sentido, é um contemporâneo de Mário de Andrade, que já dizia em Os Filhos da Candinha: “Nós existimos pouco, demasiado pouco. Nós existimos em desordem. É que nos falta antiguidade, nos falta tradição inconsciente, nos falta essa experiência por assim dizer fisiológica da nossa moralidade que, por isso, torna a palavra ‘passado’ duma incompetência larvar.”

No entorno de sua casa, em pleno sertão nordestino, Véio plantou um jardim de assombrações. Descarrego ou espantalho para proteger da contaminação do presente o seu mundo autêntico?

*Carlos Augusto Calil é professor da ECA-USP e foi secretário municipal de Cultura de São Paulo (2005-2012)

Véio: De Surpresa no Mundo

Galeria Estação. 

Rua Ferreira de Araújo, 625, Pinheiros.

Telefone: 3813-7253

2ª a 6ª, 10h às 19h; Sáb., 10h às 15h.

Grátis. Até 29/7.

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