Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

'Fanatismo está baseado em respostas rápidas', analisa Amós Oz

Escritor israelense esteve no Brasil para lançar seu novo livro 'Mais de Uma Luz'

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

08 Julho 2017 | 16h00

O escritor israelense Amós Oz acredita no poder da palavra – não apenas pelo dever de ofício, mas principalmente por ter nisso a principal arma disponível pelo seu povo em muitos anos de luta. Ele fundou o movimento Paz Agora, mas, antes de se definir como um pacifista, prefere ser chamado de “peacenick”: “o pacifista acredita que a guerra é o pior dos males, e que deve ser evitada a qualquer custo. Já o peacenick sustenta que o pior dos males é a agressão, e que, por vezes, ela tem que ser repelida pela força”, sustenta. São argumentos como esse que inspiram os três ensaios contidos em Mais de Uma Luz, lançado agora pela Companhia das Letras.

Dos textos, o mais impactante é justamente o primeiro, Caro Fanático, em que Oz (que significa “coragem” em hebraico) detalha a perigosa proliferação dos fanáticos pelos países, lembrando que o simples fato de alguém impor uma ideia a outro, por mais inocente que seja, já é um ato perigoso. “Um fanático é um ponto de exclamação ambulante que não escuta, só fala. Um ser humano desesperado e mais interessado em você do que nele, porque não tem vida própria. A síndrome deste início de século não é o choque entre muçulmanos e cristãos, Ocidente e Oriente, Europa e mundo árabe, mas, sim, entre fanáticos e nós. E eles estão em todos os lugares e em todas as culturas. Vejo isso no dia a dia, quando uma pessoa quer mudar a outra ‘para o bem dela’”, escreve.

Em junho, Oz esteve em São Paulo, onde participou do projeto Fronteiras do Pensamento. Durante sua passagem, conversou com o Aliás na Fundação Ema Klabin, local escolhido por ele, que queria conhecer o belo acervo montado pela empresária e mecenas, morta em 1994. A seguir, os principais trechos da conversa.

Qual é o trabalho de pensar o mundo, como o senhor costuma fazer em seus artigos?

Não sou especialista em nada – talvez, um especialista em especialistas. Mas observo com cuidado o que acontece, a ponto de preservar minha independência de pensamento. Talvez meu segredo seja o de olhar mais de um lado de cada problema. Sou cético, mas não pessimista. Eu me preocupo muito com a condição humana em geral.

Por que o mundo está cada vez mais complicado?

Quanto mais o mundo se complica, mais as pessoas se agarram a respostas simples. Uma espécie de slogans, algo que explique tudo de forma simplista: “isso é provocado por causa do sionismo, da globalização, da esquerda, dos patrões.” Todos têm uma resposta direta e definitiva para o que acontece com o fanatismo. A essência do fanatismo está baseado em respostas rápidas. Muitas vezes, o diagnóstico para problemas do Oriente Médio pode não funcionar para o Brasil, da mesma forma que a medicina que é útil na África seja útil também na Palestina, e assim por diante.

É, como o senhor afirma em seu livro, o eterno confronto entre o certo e o certo.

Exato, todos têm razão. Isso explica, de certo modo, o conflito entre Israel e Palestina: o combate entre o certo e o certo. Nos últimos anos, tem sido o embate entre injustiçados. Essa é a definição de nossa tragédia. Nos filmes de faroeste de Hollywood, há sempre uma divisão clara entre os mocinhos e os vilões e algumas pessoas, incluindo intelectuais, seguem o mesmo raciocínio ao apontar, no conflito entre israelenses e palestinos, quem é o vilão e quem é o protagonista. Como se isso fosse fácil, como se mundo se parecesse com um filme hollywoodiano. Não é assim. Conflitos anteriores eram analisados pelo relativismo, ou seja, eram até fáceis de se entender, como a Guerra do Vietnã, o apartheid, colonialismo, mas o mesmo não acontece com o conflito entre palestinos e israelenses.

O senhor acredita no poder da palavra?

Como não acreditar se são apenas de palavras que disponho? Também era o que tiveram os judeus durante centenas de anos, época em que viveram sem armas, sem exército, sem sua terra, apenas com a força de sua palavra. Acredito que as palavras podem ajudar, mas não acredito em fórmulas para redenção. Não acredito em salvação, mas em soluções pensadas.

Muitos dos líderes mundiais de hoje são contestados mundialmente, como Trump e Putin, para ficar em apenas dois. O que o senhor diz disso?

Sim, entendo o que você quer dizer, mas lembro que nasci em uma época em que o mundo era controlado por Hitler, Mussolini, Franco, Stalin. Impossível de se esquecer. Há diferentes graus de maldade. E um dos piores erros morais é colocar todos os tipos de maldade num mesmo cesto. É o que fazem intelectuais preguiçosos, para quem capitalismo, sexismo, sionismo, globalização, todos estão também num mesmo cesto. Há diferentes variações, é necessário que isso seja notado. O que me preocupa é que isso também norteia muitas pessoas em uma eleição, pois distinguem apenas o melhor e o pior candidato.

E o que dizer do governo de Barack Obama?

Bem, ele causou menos estragos que seus antecessores. Obama colocou a economia dos EUA e mesmo a do mundo em um certo controle – lutando contra a crise criada por outros governantes. Também evitou promover guerras, ao ponto que, durante seu governo, houve uma expressiva queda no número de covas sendo abertas para soldados ante a administração Clinton ou Bush. Seu sistema de saúde era imperfeito, mas ainda assim uma opção melhor que a disponível para os americanos. Enfim, ainda que marcada por vários defeitos, acredito que Obama foi um dos melhores administradores do mundo nos últimos anos.

Mais de Uma Luz

Autor: Amós Oz

Tradução: Paulo Geiger

Editora: Companhia das Letras

136 páginas

R$ 34,90

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