Claudio Onorati/EPA
Claudio Onorati/EPA

Festival de Veneza abre as portas para filmes em realidade virtual

Mais antiga mostra de cinema do mundo inova com iniciativa

The Economist, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2017 | 16h00

Um artigo de fé comum a todo e qualquer festival de cinema é o de que não há nada como assistir a um filme numa tela tão grande quanto possível, numa sala repleta de outros espectadores. Ainda que milhões de pessoas talvez prefiram assistir ao mais recente sucesso de bilheteria ou à última obra de um grande diretor num laptop ou num smartphone, os organizadores das mostras sustentam que a experiência tradicional, imersiva, compartilhada é inigualável.

Mas os tempos estão mudando: nos últimos anos, os festivais de cinema começaram a se abrir para os filmes em realidade virtual (RV). O problema é que a RV não tem como ser compartilhada com outras pessoas (pelo menos por enquanto; no futuro, talvez a tecnologia consiga reconhecer diversos usuários ao mesmo tempo, no mesmo espaço). Para assistir a um filme em RV, o espectador tem que usar um headset — uma espécie de máscara de mergulho com headphones — que o isola completamente das pessoas que estão a seu redor e do próprio ambiente em que ele se encontra. Não dá nem para estender a mão em direção ao saquinho de pipoca. Em certa medida, os filmes em RV vão de encontro a tudo que os organizadores das mostras de cinema propõem.

Apesar disso, Jesus VR, primeiro longa metragem em RV da história, foi exibido em Veneza no ano passado. Este ano, Cannes incluiu em sua seleção Carne y Arena, instalação criada pelo consagrado diretor mexicano Alejandro Inarritu. Outros festivais, como Sundance, Tribeca, Toronto, Genebra e Dubai, vêm apresentando pequenas mostras de produções em RV. Em sua edição deste ano, Veneza foi ainda mais longe: tornou-se o primeiro grande festival de cinema a incluir em sua programação uma mostra competitiva de filmes em RV. A decisão marca uma mudança de proporções sísmicas na maneira como esse novo meio é percebido pelo establishment cinematográfico. Segundo o diretor artístico do festival, Alberto Barbera, “até poucos meses atrás, as produções em realidade virtual eram consideradas só mais uma novidade tecnológica”. De lá para cá, ganhou relevância suficiente para merecer lugar próprio no festival.

Para assistir — se é que a palavra é essa; alguns preferem falar em “experimentar” — os 22 filmes que participaram da competição “Veneza RV”, o espectador precisava ser transportado da ilha do Lido, onde acontece o festival, para a vizinha Lazzaretto Vecchio, que abriga um leprosário do século 16. Não parecia muito justo. Os edifícios do local não têm o charme dos salões repletos de afrescos da mostra tradicional. Mas sua historicidade também é um sinal de como os organizadores do Festival de Veneza estão levando a RV a sério. Em outros festivais, os espectadores assistem a esse tipo de produção em cabines temporárias, instaladas em ambientes indistintos, como estivessem numa feira corporativa. Em Lazzaretto Vecchio, a pessoa encontra a atmosfera silenciosa e contemplativa de uma galeria de arte.

Os filmes da mostra tinham entre quatro e 40 minutos de duração, com a maioria se estendendo por cerca de um quarto de hora. Tematicamente, iam de The Argos File, thriller policial de ficção científica em que os personagens também usam headsets de realidade virtual, a The Last Goodbye, em que o espectador faz um tour pelo campo de concentração de Majdanek, na Polônia, acompanhado por Pinchas Gutter, um de seus únicos sobreviventes. Um dos mais memoráveis foi Greenland Melting, documentário de 11 minutos sobre as mudanças climáticas, em que o espectador sobrevoa uma geleira a bordo de um helicóptero e depois se vê no meio da tundra enquanto a encosta de gelo se afasta no horizonte.

O juri do primeiro Veneza RV foi composto pelo americano John Landis, que dirigiu Os Irmãos Cara de Pau (1980) e Trocando as Bolas (1983), entre outros, e por Céline Sciamma e Ricky Tognazzi, dois importantes diretores europeus. Em outras palavras, os filmes foram avaliados não por gênios da ciência da computação, e sim por luminares do cinema internacional. Mais do que a pirotecnia tecnológica, o que realmente contou na competição, vencida pela animação Arden’s Wake, de Eugene Chung, foi a qualidade da narrativa.

Ao voltar para o Lido, muitos espectadores devem ter se perguntado se teriam acabado de ver o futuro. Numa crítica sobre Jesus VR, publicada no ano passado, o jornal britânico The Guardian indagava se a RV seria apenas mais um modismo. O fato, porém, é que o Festival de Veneza nunca deu a menor atenção para bobagens como produções com tecnologia Imax ou filmes em 3D. O destaque conferido à mostra de filmes em RV evidencia que os organizadores do festival já não veem a tecnologia como mera brincadeira em torno de uma forma artística venerável. Alguns dos melhores cineastas da atualidade já começam a fazer experiências com a RV. Agora que a tecnologia recebeu essa espécie de bênção institucional, talvez não demore muito para que o grande público comece a assistir a sucessos de bilheteria e filmes de arte com um headset na cabeça.

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