Ficção da violência de Juan Rulfo ainda ecoa na América Latina

Ficção da violência de Juan Rulfo ainda ecoa na América Latina

Literatura arbitrariamente violenta do autor mexicano inspira escritores contemporâneos e reflete conflitos do continente

The Economist, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2017 | 16h00

Para um escritor, ele era um homem de extraordinariamente poucas palavras. Juan Rulfo produziu apenas uma curta novela, Pedro Páramo, e uma coleção de contos, Planalto em Chamas. Juntos, eles abrangem menos de 300 páginas. E isso, além de alguns fragmentos e alguns roteiros de filmes, era tudo.

No entanto, Rulfo desfruta de uma reputação elevada em textos escritos em espanhol. Além disso, como ficou claro durante as comemorações deste ano, marcando o centenário de seu nascimento, seu trabalho tem no mínimo tanta relevância para muitos jovens escritores latino-americanos como os de sucessores tais como Gabriel García Márquez ou Mario Vargas Llosa, de longe muito mais conhecidos pelos leitores de língua inglesa.

Rulfo foi marcado indelevelmente por sua infância. Nasceu em uma família de proprietários de terras no estado mexicano de Jalisco, no Oeste do país. Eles perderam suas posses no tumulto da Revolução Mexicana (1910-17) e na Guerra Cristera, contrarrevolucionária, do final da década de 1920. Seu pai foi assassinado com um tiro nas costas quando Rulfo tinha seis anos. Sua mãe morreu quando ele estava com dez anos. Após um tempo em um orfanato, mudou-se para a Cidade do México aos 16 anos, onde trabalhou como funcionário público e depois vendedor de pneus enquanto frequentava cursos de literatura na universidade. Depois de publicar seus dois livros em meados da década de 1950, continuou trabalhando como editor do Instituto Indígena Nacional do México. Morreu em 1986.

+++Centenário de gigantes da literatura latino-americana é celebrado em 2017

As histórias de Rulfo passam-se na Jalisco rural de sua infância. Pedro Páramo, personagem principal do romance e o pai insatisfeito do narrador, Juan Preciado, é um cacique, que se apropria de toda a terra na cidade ficcional de Comala, recorrendo a ameaças e à violência, junto de muitas das suas mulheres. Ele diz ao seu chefe: “De agora em diante nós vamos fazer a lei.” Páramo é o “rancor vivo” e “puro mal”. No entanto, ele ganha a absolvição do padre da cidade em troca de algumas moedas de ouro. Quando guerrilheiros aparecem em Comala, Páramo lhes oferece dinheiro e homens: “Você tem que estar no lado vencedor.” Ele é derrotado apenas por uma namorada da infância, que enlouquece em vez de sucumbir a ele.

Nas mãos de outro autor, Pedro Páramo teria sido apenas uma denúncia social-realista da injustiça rural, uma “novela regional” de um tipo que estava na moda na América Latina na primeira metade do século 20. Duas coisas fazem dele muito mais que isso. 

A primeira delas é o lirismo da escrita de Rulfo. Ele é intensamente sensível à terra, aos seus frutos, à seca e às estações em mudança. A mãe de Preciado descreve a perdida Comala de sua juventude como “uma cidade que cheira a mel derramado”; ela vê interiormente “o horizonte se levantar e cair com o vento que move as espigas” dos grãos.

Uma segunda qualidade torna Pedro Páramo no que talvez seja o primeiro romance moderno da América Latina, de importância universal. Rulfo tinha lido William Faulkner e estava consciente do surrealismo com sua ênfase nos sonhos e no inconsciente. Comala é uma cidade de fantasmas. “Você já ouviu o gemido dos mortos?”, pergunta a Preciado uma anciã.

Pedro Páramo é basicamente sobre mito, não realismo, e sobre a presença da morte em meio à vida. Preciado é vencido pelo medo dos sussurros sobrenaturais que se infiltram através das paredes da praça da cidade. O leitor vai gradualmente percebendo que todos os personagens do romance estão mortos. É moderno porque enquadra uma realidade em vez de simplesmente descrevê-la, e porque o tempo nela é simultâneo, não sequencial, como observou Carlos Fuentes, um escritor mexicano mais recente.

Ler Juan Rulfo hoje em dia é impossível sem ouvir ecos do México contemporâneo e a crueldade e violência arbitrária de suas gangues de drogas e, às vezes, das forças do Estado que as enfrentam. Ainda há muitos Páramos que fazem sua própria lei. Uma das histórias de Planalto em Chamas conta o assassinato de migrantes que buscam atravessar o Rio Grande; outra fala de uma disputa sobre direitos de pastoreio que termina em assassinato.

Muitos escritores latino-americanos contemporâneos cresceram ouvindo “o gemido dos mortos”. A poética concisa, simples, de Rulfo, e seu gosto pelas histórias curtas estão de volta à moda na América Latina hoje, depois da barroca prolixidade de García Márquez ou Roberto Bolaño. Os escritores que chegam agora aos 40 anos que admitem a influência de Rulfo incluem Samanta Schweblin, uma argentina cujo breve romance de terror psicológico, Distancia de Rescate (traduzido para o inglês como Fever Dream), foi selecionado para o Man Booker Prize este ano; e Emiliano Monge, um mexicano que diz que suas histórias “acontecem com violência, como um ecossistema”.

Que a morte possa ser arbitrária é parte da condição humana. Que isso seja muito em geral o caso na América Latina, um século após o nascimento de Rulfo, é uma acusação. / Tradução de Claudia Bozzo

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