Filme libanês retrata o drama do casamento infantil obrigatório

Filme libanês retrata o drama do casamento infantil obrigatório

Lançando luz sobre uma prática anacrônica, mas difícil de ser erradicada, 'Nour' entra na luta pela proibição do casamento infantil

The Economist

09 Setembro 2017 | 16h00

Nour começa como uma comédia romântica. Uma garota de 14 anos passa as férias de verão nas montanhas com seis amigos, com direito a passeios de bicicleta em meio à natureza exuberante do lugar e mergulhos num rio próximo. Nour é uma adolescente alegre, sempre com um sorriso luminoso no rosto e o amigo Wassim ao lado. Os dois se paqueram inocentemente, aturando os gracejos dos outros, mas em momento algum vão além de um beijo furtivo na bochecha.

Numa manifestação de rebeldia adolescente que parece docemente antiquada, o grupo rouba laranjas de um pomar, ovos do galinheiro do padre e doces da mercearia local para cozinhar um almoço numa fogueira no meio do mato. Depois as três meninas se refugiam numa casinha no alto de uma árvore e, às gargalhadas, põem-se a lançar balões de água contra os garotos, que revidam com pistolas de água.

De repente, o filme toma direção muito mais sinistra. Nour é uma ficção com substrato de comentário social. Em casa, o irmão mais velho de Nour é um sujeito mandão, cujo ressentimento vez por outra descamba em violência física. A mãe, que cria os dois filhos sozinha, ganha a vida cozinhando para vizinhos mais abastados. Ao levar o almoço encomendado pela mulher mais rica do vilarejo, a arrogante madame Eugenie, Nour desperta a atenção de Maurice, filho de meia-idade da mulher, que acaba de voltar da Austrália.

Em seu aniversário de 15 anos, enquanto aguarda com ansiedade uma surpresa preparada por Wassin, Nour vê sua infância chegar abruptamente ao fim. A mãe transmite à menina o que insiste ser uma boa notícia: Maurice a quer para mulher. Sem ter para onde fugir, Nour se vê obrigada a obedecer às exigências da família. Na noite do casamento, o marido a estupra no leito nupcial.

Com roteiro de Elissa Ayoub e Khalil Dreyfus Zaarour — que também responde pela direção e faz o violento e predatório Maurice — Nour projeta um olhar perturbador, ainda que com bela realização, sobre as consequências perversas do casamento infantil. Antes de começar a trabalhar no roteiro, Ayoub e Zaarour passaram seis meses entrevistando dezenas de mulheres que foram constrangidas a se casar ainda na adolescência. O lançamento do filme, em abril, coincidiu com uma série de iniciativas promovidas por ativistas que lutam para proibir de vez esse tipo de união.

No Líbano, o casamento é regulamentado por um complicado conjunto de leis, algumas das quais permitem o casamento de meninas com menos de 15 anos. Estudo divulgado em 2016 pela Unicef mostra que 6% das libanesas que têm entre 20 e 24 anos contraíram matrimônio antes dos 18. Ainda que a prática venha sendo lentamente abandonada, ainda é um problema em comunidades rurais.

E está se tornando mais comum entre os refugiados sírios, dos quais há mais de 1 milhão atualmente no Líbano, todos em situação particularmente vulnerável. Levantamentos indicam que 24% das refugiadas sírias com idade entre 15 e 17 já estão casadas; e das casadas que têm entre 20 e 24 anos, 47% se casaram antes dos 18. Calcula-se que essa taxa seja quatro vezes superior à que prevalecia antes da guerra.

As organizações de defesa dos direitos das mulheres promovem campanhas contra o casamento infantil há anos. Em março, uma coalizão de ONGs locais enviou ao presidente do Parlamento libanês um projeto de lei que aumenta para 18 anos a idade mínima com que uma pessoa pode se casar. Mas o projeto ainda não foi analisado pela comissão responsável. Hayat Mirshad, diretora de programas da Reunião Democrática de Mulheres Libanesas, diz que a nova lei seria aplicável “a todos os indivíduos em território libanês”, isto é, ofereceria proteção tanto aos cidadãos do país como aos refugiados sírios. “Não importa se 100 mil garotas são obrigadas a casar ainda criança ou se é apenas uma. Trata-se de uma violação dos direitos da criança, é um tipo de violência contra as mulheres, e nós temos que combater isso”, diz ela.

Em agosto, o Parlamento libanês aprovou a revogação de uma lei que livrava os estupradores de processo criminal, se eles se casassem com suas vítimas. No entanto, dois outros dispositivos legais semelhantes ainda garantem a impunidade nos casos em que a vítima tem entre 15 e 18 anos. (O país tampouco conta com uma lei que criminalize o estupro marital.) A Human Rights Watch juntou-se à campanha pela elevação da idade mínima para o casamento no Líbano. Segundo a ONG, as garotas que casam na adolescência apresentam maior tendência a abandonar os estudos e estão mais sujeitas a serem vítimas de estupro marital, violência doméstica e exploração.

O filme de Zaarour reflete essas realidades cruéis. Sem poder mais ir à escola, Nour não terá como realizar seu sonho de virar diplomata e viajar pelo mundo. Da noite para o dia, torna-se escrava do marido e da mãe dominadora. Passa as noites sozinha, escutando o tique-taque de um relógio de armário. Assiste a desenhos animados, a alegria das trilhas sonoras estabelecendo um contraste amargo com sua desgraça.

Nos próximos meses, o filme será exibido em escolas de localidades remotas do Líbano, como parte de sessões de conscientização organizadas por uma ONG local, especializada na proteção a crianças. A transformação a que Nour é submetida, da confiança alegre ao isolamento e medo, evidenciam os perigos do casamento infantil.

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