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Filme sobre Django Reinhardt abre Festival de Berlim

Longa explora perseguição dos nazistas ao guitarrista cigano durante a ocupação de Paris

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André Cáceres ,
O Estado de S. Paulo

22 Janeiro 2017 | 05h00

As melodias refinadas que o guitarrista e compositor Django Reinhardt (1910-1953) suavemente extraía de seu violão não refletem as atrocidades que ele teve de enfrentar quando fugiu de uma Paris combalida, ocupada pelo exército nazista, em 1943. É a virtuose das improvisações do músico que remete mais adequadamente à perseguição que marcou sua família de ascendência cigana. 

O episódio traumático da fuga, transcorrido no contexto da segunda grande guerra, é registrado em Django, filme que marca a estreia do francês Etienne Comar (roteirista de Homens e Deuses e Meu Rei) como diretor. Abrindo o Festival Internacional de Berlim, no dia 9 de fevereiro, o longa conta com a banda de jazz holandesa Rosenberg Trio na trilha sonora, além, é claro, dos clássicos que marcaram a carreira de Django Reinhardt. Os destaques do elenco são Reda Kateb na pele do guitarrista e Cécile De France vivendo Louise de Klerk, admiradora que o ajudou a fugir para a Suíça quando o regime nazista coagiu Reinhardt a realizar concertos em Berlim. 

O longa de Etienne Comar não é a primeira referência cinematográfica relacionada ao nome Django Reinhardt. Em Sweet and Lowdown, de 1999, traduzido para o português como Poucas e Boas, dirigido por Woody Allen, o guitarrista fictício de jazz Emmet Ray, vivido por Sean Penn, alimenta uma admiração platônica por Django, considerando-se o segundo melhor guitarrista do mundo atrás apenas dele.

Francês nascido na Bélgica e de origem cigana, Django Reinhardt cresceu nas caravanas nômades, embora tenha passado grande parte da juventude nos arredores de Paris. Essa contradição entre os modos de vida urbano e primitivo em torno dos quais orbitava, aliada à paixão pela música que nutria desde a infância, foram os ingredientes do que viria a ser o gypsy swing, sua principal contribuição ao jazz. Assim como seu estilo mescla o gênero à tradição musical cigana, a obra de Django Reinhardt é claramente marcada pela mistura de mundos distintos: a vivência cigana, a boemia parisiense e o jazz, que era uma linguagem marginalizada e essencialmente norte-americana. 

A história do garoto cigano que vivia como um nômade e tornou-se um dos pioneiros do jazz europeu já seria suficientemente arquetípica e inspiradora, mas um episódio ocorrido quando Django tinha apenas 18 anos deu contornos ainda mais surpreendentes à trajetória do músico. Em um incêndio doméstico, ele perdeu o movimento dos dedos anelar e mindinho da mão esquerda devido ao calor que retesou irreversivelmente os tendões. Para voltar a tocar, ele precisou criar uma técnica particular, utilizando os dedos médio e indicador para quase tudo e deixando os dedos atrofiados para notas mais agudas. 

O revés o impulsionou a criar um estilo singular de improviso. Com seus dedos ágeis, ele tornou-se um dos primeiros heróis da guitarra e raramente tocava um solo duas vezes da mesma maneira. Reinhardt não teve formação erudita, mas era um instrumentista extremamente intuitivo, talvez até mesmo graças ao fato de não ter sido formalmente educado no violão. Seu grau de instrução não era baixo apenas musicalmente: muitas de suas gravações mais antigas eram assinadas erroneamente como “Jiango Renard”, pois ele não sabia ler e escrever para corrigir o que era estampado nos discos.

O casamento entre a guitarra de Django Reinhardt e o violino de Stéphane Grappelli, com quem formou a pedra angular do seminal quinteto do Hot Club, originou uma série de concertos e gravações fundamentais que levou a dupla ao estrelato. Provinciano, Django nunca ouvira a própria voz até dezembro de 1934, quando gravou com Grapelli uma série de canções para o selo Ultraphone. A parceria entre o guitarrista e o violonista foi interrompida pela eclosão da guerra, em 1939, e os músicos só voltaram a se ver após o final do conflito. 

Entre as influências de Django Reinhardt estavam Duke Ellington, com quem viria a fazer uma turnê pelos Estados Unidos e Europa; Louis Armstrong, que figurou com ele no filme franco-italiano La Route du Bonheur (Estrada para a Felicidade, 1953), de Maurice Labro e Giorgio Simonelli; além de gravações de Eddie Lang, um dos pais do jazz guitar, título muitas vezes atribuído ao próprio Reinhardt. A música brasileira fez parte do rol de inspirações de Django, que gravou Brazil, uma releitura instrumental da Aquarela do Brasil de Ary Barroso. Da mesma forma, Echoes of Spain traz um tom mais dramático e característico do violão flamenco, que também serviu de fonte para algumas de suas criações. 

Django Reinhardt introduziu o jazz às plateias europeias não familiarizadas com o estilo. Da mesma forma que conquistou seu lugar ao sol vindo da pobreza do assentamento cigano, ele rapidamente arrebatava os espectadores com a guitarra, e sua história retratada por Ettiene Comar pretende repetir esses feitos no cinema. Django concorre ao Urso de Ouro, principal prêmio do Festival de Berlim, que será entregue ao filme vencedor no dia 18 de fevereiro.

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