Arquivo da Fundação Xavier Zubiri
Arquivo da Fundação Xavier Zubiri

Filosofia do espanhol Xavier Zubiri é tema de 'O que é a Inteligência?'

Livro escrito por Felipe Cherubin e José Fernandez Tejada explora a filosofia da realidade do pensador espanhol

Martim Vasques da Cunha*, Colaboração para o Estado de S. Paulo

01 Abril 2017 | 16h00

Nos anos 1930, quando já era reconhecido como o sucessor do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, o jovem Xavier Zubiri (1898-1983) estava em Berlim para os seus estudos metafísicos. Em um belo dia, resolveu assistir a um seminário de Nicolai Hartmann, um dos papas da filosofia alemã. Lá, um aluno chegou e se aproximou do professor, sentindo muito pela ausência dos dias anteriores. Alegou que estava com uma gripe muito forte. Hartmann apenas respondeu: “Somente a morte é motivo para não assistir ao meu seminário”. Ao ouvir isto, Zubiri se levantou imediatamente e foi embora da sala, fazendo questão de bater a porta.

Esta atitude marca tanto a personalidade do homem como a sua filosofia. Foi desse modo que ele produziu uma obra que, com os tratados Natureza, Homem e Deus (1942), Sobre a Essência (1963) e a famosa trilogia Inteligência Senciente (1980-1983), mudou secretamente o paradigma da “teoria do conhecimento”.

Este é o eixo que orienta a excelente pesquisa de José Fernandéz Tejada e Felipe Cherubin no livro O que é a Inteligência? – Filosofia da Realidade em Xavier Zubiri. Os dois especialistas partem da premissa de que, desde a modernidade, houve sempre um dualismo desnecessário entre o “sentir” e o “inteligir”, baseado naquilo que o filósofo observado chamava de “inteligência concipiente”, um tipo de conhecimento feito por meio de conceitos, ideias e sistemas fechados que petrificariam o caráter dinâmico da realidade em que vivemos.

Segundo Tejada e Cherubin, a reviravolta de Zubiri foi a de procurar uma unidade objetiva entre o “sentir” e o “inteligir”. Para isso, eles mostram que, além de uma “trilogia da inteligência” publicada em vida, o filósofo espanhol também fez uma “trilogia da realidade”, iniciada com Sobre a Essência, e depois continuada com os cursos publicados postumamente, como Sobre a Realidade (2001) e Estrutura Dinâmica da Realidade (1989).

Sob este ponto de vista, uma trilogia iluminaria a outra, com a diferença que, no caso dos livros póstumos, ficava evidente a inovação zubiriana: a de que a realidade tem algo “de seu”, algo único e particular, próprio. Ela é constantemente aberta e dinâmica, capaz de ser conhecida “nuamente”, sem o anteparo de conceitos ou ideias, como era antes defendida pela epistemologia moderna de Descartes, Kant e Hegel.

Tejada e Cherubin também explicam como essa reviravolta do conhecimento provocou consequências práticas no nosso cotidiano. De acordo com os pesquisadores, a filosofia de Zubiri iria contra o excesso de “intelectualização da vida”. Ela nos ajudaria a ver o dia-a-dia sem a intromissão dos intelectuais e dos acadêmicos que interferem em coisas que já funcionam muito bem naturalmente e que não precisam de mais teorias para existir – um fenômeno que o ensaísta libanês Nassim Nicholas Taleb apelidou de “ensinando os pássaros a voar”.

Este “amor pelo concreto” nos ajuda a praticar uma restauração que deseja entender o ser humano como uma pessoa que está sempre em aberto, incerta e, mais, impossível de ser reduzida a esquemas lógicos. Eis aqui a “inteligência” de Zubiri, Tejada e Cherubin: a capacidade de perceber que a realidade é algo impossível de ser definível, como se “as coisas conversassem conosco”.

Para Xavier Zubiri, o homem era “um animal de realidades”. O estudo de José Fernandez Tejada e Felipe Cherubin prova que essa fome era uma resistência secreta do próprio filósofo, amadurecida em uma “solidão sonora”, lutando contra a “barbárie do especialismo” que contaminou as atuais áreas filosóficas, da epistemologia à metafísica, passando pela bioética, até a ciência política. Neste sentido, a despedida do jovem Zubiri do seminário de Nicolai Hartmann indica a ação que deveríamos ter hoje em dia, se quisermos manter algum futuro não só para a filosofia e a sociedade civil, mas também para cada um de nós.

*Martim Vasques da Cunha é autor dos livros 'Crise e Utopia - O Dilema de Thomas More' (Vide Editorial, 2012) e 'A Poeira da Glória - Uma (Inesperada) História da Literatura Brasileira' (Record, 2015); e pós-doutorando pela FGV-EAESP

O que é a Inteligência? Filosofia da Realidade em Xavier Zubiri

Autores: José Fernandez Tejada e Felipe Cherubin

Editora: Lumen Juris

288 páginas

R$ 80

Mais conteúdo sobre:
Filosofia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.