Robert Polidori
Robert Polidori

Filósofo analisa sociedade ocidental pela relação com os objetos

Em 'As Pessoas e as Coisas', o italiano Roberto Esposito constata a falência da divisão entre seres e objetos

Sérgio Medeiros*, Colaboração para o Estado

04 Novembro 2017 | 16h00

No poema Popol Vuh, escrito em língua maia em meados do século 16, objetos domésticos como potes, pilões e grelhas, os quais foram maltratados por insensíveis homens de madeira, se revoltam contra seus donos e os atacam sem piedade, numa passagem que fala do rompimento do pacto entre as pessoas e as coisas. Se a literatura ameríndia mostra como seres humanos e objetos deveriam idealmente interagir e se integrar, a cultura ocidental parece organizar a experiência humana de outro modo, postulando a divisão e declarando que as coisas são o contrário das pessoas, ainda que as pessoas tendam também a ser coisas, ou seja, escravas e objetos de quem lhe é hierarquicamente superior. Mas esse princípio está em crise, como discorre com erudição e clareza o filósofo italiano Roberto Espósito, autor do breve ensaio As Pessoas e as Coisas, recém-lançado no Brasil.

Dividido em três capítulos, é no último deles, intitulado Corpos, que o filósofo destaca a situação contemporânea. Ele se vale, no primeiro capítulo, do direito romano para definir o estatuto daquele que possui coisas, as quais são tácitos escravos a serviço de seus donos, e, no segundo capítulo, do discurso filosófico, para avaliar até que ponto a linguagem tende a anular a coisa, reduzindo-a à abstração. A discussão sobre o corpo começa no terceiro capítulo, a partir do embrião humano. “Desde quando, e até quando, ele pode ser considerado uma pessoa, ao invés de uma coisa?”, se pergunta Esposito, para enveredar em seguida por nova especulação, que envolve também o morto: “A subtração de cadáver ou de embrião deve ser considerada da mesma maneira que um sequestro, como se se tratasse de uma pessoa, ou de um roubo, como se fosse uma coisa?”

Ao propor compreender a sociedade contemporânea pelo ângulo de visão do corpo, Esposito afirma que a antiga divisão entre pessoas e coisas não se sustenta mais, já que o corpo não é classificável nem como pessoa nem como coisa. “O corpo é o terreno no qual as forças dos homens se enfrentam em uma luta sem trégua”, lemos na parte mais instigante do ensaio, “e o que está em jogo é a própria definição do que somos”. Para mostrar a relevância filosófica do corpo, o autor cita, entre outros, Husserl e Merleau-Ponty, autores para os quais o corpo liga o objeto à consciência. “Somente o corpo”, conclui Esposito, dialogando também com filósofos contemporâneos como Jean-Luc Nancy, Peter Sloterdijk e Bruno Latour, “é capaz de preencher o hiato que dois milênios de direito, teologia e filosofia cavaram entre coisas e pessoas, colocando umas nas disponibilidades das outras”. 

A afirmação mais potente e poética de Esposito vem a seguir: “Assim como os seres viventes, as coisas também têm um coração”, decerto sepultado na sua fixidez ou no seu movimento mudo. O coração de pedra é, a partir de agora, e graças sobretudo às revelações de poetas como Fernando Pessoa, citado pelo filósofo, vivo e pulsante. A experiência antiga (ou arcaica), recuperada pela experiência contemporânea, nos ensina hoje que as coisas são particulares, “como se cada uma adquirisse um nome próprio, de acordo com a ideia paradoxal de Locke, retomada em seguida por Borges”. Começamos finalmente a conversar sem pudor com as coisas naturais e artificiais. O poeta brasileiro Manoel de Barros, autor de Retrato do artista quando coisa, poderia também ter sido citado no ensaio como um dos autores modernos que, em seus versos, conferiram vida às coisas. No livro citado, ele afirma, por exemplo: “Já posso amar as moscas como a mim mesmo”. É uma declaração de liberdade animista que só o corpo pode proporcionar à consciência.

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Os corpos conferem vida às coisas, mas as coisas também os moldam, declara Esposito. Porém, ele faz mais do que elogiar o diálogo dos poetas com as coisas; seguindo Wittgenstein, chega a admitir que as coisas pensam. Nas Investigações filosóficas, o filósofo austríaco disse que “a poltrona pensa por si mesma”. Não se trata de fazer da coisa um ídolo ou um objeto de fetichismo, mas de reconhecer, segundo Esposito, que pensamos também por meio dela. Isso ocorre porque as coisas são o lugar onde, como ensinou Bergson, nascem nossas percepções. 

Nenhuma outra civilização destrói tão facilmente as coisas como a nossa, é uma constatação óbvia. Nas culturas bramânicas, ao contrário da ocidental, a coisa não só tem alma, como também fala em primeira pessoa, segundo Esposito. A mesma afirmação parece válida para as sociedades indígenas, seja maia, seja guarani, pois todas valorizam o pacto de não agressão entre pessoas e coisas.

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Felizmente para nós a ambivalência do corpo, revelada pela literatura e pela antropologia, nos estimula a não nos separarmos mais das coisas. É essa perspectiva arcaica extremamente contemporânea que o filósofo italiano deseja compartilhar com o leitor: “Talvez pela primeira vez desde o desaparecimento das sociedades arcaicas as coisas voltam a nos interpelar de uma forma direta”. 

*Sérgio Medeiros é poeta, dramaturgo e ensaísta. Publicou, entre outros livros, A idolatria poética ou a febre de imagens (poesia) e As emas do general Stroessner (teatro), ambos pela Editora Iluminuras. Ensina literatura na UFSC.

As pessoas e as coisas

Autor: Roberto Esposito

Tradução: Andrea Santurbano e Patricia Peterle

Editora: Rafael Copetti 

150 páginas

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Filosofia

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