Filósofo argentino analisa obra do historiador da arte Aby Warburg

Filósofo argentino analisa obra do historiador da arte Aby Warburg

Warburg criou um atlas com mais de 1.300 imagens examinando semelhanças e diferenças na história da arte

Sérgio Medeiros*, Colaboração para o Estado

21 Outubro 2017 | 16h00

Em Globos (ainda não traduzido para o português), o segundo volume da trilogia Esferas, do filósofo alemão Peter Sloterdijk, o leitor é introduzido na globalização metafísica, que teria começado com os gregos. A partir do período helenístico, a esfera se tornou o modelo para todo o universo. O globo celestial (ou seja, o cosmos) é representado no ombro de Atlas. Esse titã seria, segundo Sloterdjik, a imagem do filósofo clássico, que suporta o peso do mundo pagão. 

No brilhante ensaio recém-lançado no Brasil, A Ascensão de Atlas: Glosas sobre Aby Warburg, o filósofo argentino Fabián Ludueña Romandini dialoga com Sloterdijk e expande sua interpretação, ao propor, a partir dos “documentos da loucura”, uma nova filosofia especulativa do cosmos, sendo os céus, e não a Terra, o lugar existencial do ser humano. Ele parte do gigante grego, cuja figura ressoa na grande obra inacabada do historiador da arte Aby Warburg (1866-1929): um atlas de imagens chamado Mnemosyne (nome da Memória do cosmos), com setenta pranchas e 1.300 ilustrações que descrevem as migrações das imagens, da Antiguidade e do Renascimento até o presente. Essa história da cultura global (ela não está limitada ao mundo da arte) é discutida e reavaliada por Ludueña Romandini, para quem a coleção titânica, tal como foi concebida por Warburg, apresenta limitações materiais (tornou-se obsoleta), pois só no tempo da globalização realizada (o nosso) a obra em questão poderia, por meio da internet, ir além do Globo terrestre (com todas as suas imagens naturais e artificiais), atingindo uma escala cósmica. Aqui, o filósofo argentino está propondo examinar o atlas de Walburg não pelas imagens que ele contém, mas pelos princípios de “operatividade” que potencialmente autoriza. 

Conhecido no Brasil como o autor de A Renovação da Antiguidade Pagã: Contribuições Científico-Culturais para a História do Renascimento Europeu, publicado em português em 2013, Aby Warburg precisou internar-se no hospital psiquiátrico Bellevue, em Kreuzlinge, Suíça, após a 1.ª Guerra Mundial. Mas sua loucura, como afirma Ludueña Romandini, “não foi apenas uma experiência desditosa, padecida e logo superada. Pelo contrário, Warburg transformou a própria loucura na matriz metodológica que organiza a totalidade de seu trabalho de pesquisa”. Assim, não é de estranhar que, para falar de seu próprio colapso mental, Warburg tenha utilizado a linguagem que melhor lhe convinha, a dos antigos deuses pagãos, demonstrando que sua pesquisa e seu delírio eram inseparáveis. Cada imagem do atlas é, desde então, a sede vacante dos deuses no exílio; a astúcia desses deuses, porém, é ocultarem-se nos detalhes inesperados, nas margens. 

O historiador da arte se dizia acossado pelo inumano (era supersticioso, palavra que significa, no seu sentido original, “temeroso dos demônios”); às vezes, como na conferência que fez no sanatório, punha de lado os textos clássicos e recorria aos mitos ameríndios, atuando, de acordo com o autor de Ascensão de Atlas, “como um xamã capaz de conjurar e dominar os demônios que tinham sido a causa do seu colapso”. A evolução da civilização ocidental, segundo Warburg, implicou a domesticação de antigas forças demoníacas, ou “daimônicas”. Mas teria o estudioso alemão conseguido realmente apaziguar os seus próprios “dáimones”, que são os demônios antigos dos grandes filósofos gregos? “Warburg não era, a rigor, um ‘possuído’”, declara Ludueña Romandini, comparando-o a Sócrates e acrescentando: “Sua loucura deriva, ao contrário, de seu temor de cair presa dos demônios”. O fato de Warburg ter lutado contra isso não significa, no entanto, que tenha se curado: “Nossa afirmação, ao contrário, é que a loucura é constitutiva do trabalho de Warburg antes e depois da sua internação”.

Se o historiador da arte encontrou seu próprio método para lidar com as potências extra-humanas que o perseguiam, isso ocorreu, de acordo com Ludueña Romandini, porque diagnosticara a sobrevivência dos demônios antigos, o que lhe permitiu assentar as bases de uma demonologia, concebendo-a como a ciência da “Era de Atlas”. Para Warburg, a loucura havia tomado posse do mundo na sua totalidade, e adquirido aparentemente configurações inéditas e irreconhecíveis. Talvez, na era tecnológica, os deuses antigos em fuga não tivessem de fato se ausentado, mas se metamorfoseado. O reino dos demônios incontroláveis, em suma, havia retornando, e seu arauto era o historiador da arte. “Certamente existia em Warburg”, afirma o ensaísta argentino, “uma profunda inquietude pela pervivência das potências do mito em seu próprio século, vale dizer, em sua própria psique: a experiência de Kreuzlingen o instruíra a esse respeito de maneira abundante e dolorosa”.

*Sérgio Medeiros é poeta, dramaturgo e ensaísta. Publicou, entre outros livros, 'A Idolatria Poética ou a Febre de Imagens' (Poesia) e 'As Emas do General Stroessner e Outras Peças' (Teatro), ambos pela editora Iluminuras 

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