Vitor Penteado/Sesc Pinheiros
Vitor Penteado/Sesc Pinheiros

Filósofo Georges Didi-Huberman reflete sobre o sentido da revolta

Pensador esteve no Brasil para lançar seu livro 'Cascas' e participar da exposição 'Levantes', em cartaz no Sesc Pinheiros

Bianca Dias*, Colaboração para o Estado

11 Novembro 2017 | 16h00

Despertar sonhos, modelar o heterogêneo, inventar a vida mesmo na mutilação, ter a força para fazer de outra forma: com essa convocação Georges Didi-Huberman iniciou sua fala no Sesc Pinheiros, apresentando um vigoroso panorama crítico de uma pesquisa que resultou na exposição Levantes, sustentada em indagações éticas. Para onde vai a raiva? Qual nossa resposta diante do que oprime e mortifica? São questões que apostam na indestrutibilidade do desejo e recusam o ressentimento. Num levante, essas dimensões são ultrapassadas para dar espaço ao gesto inventado na fineza dos dias. Diferente de uma ação que visa colocar um acento na mágoa, o gesto de sublevação inclui uma radicalidade que faz a existência operar por uma nova fúria, cultivando atitudes em que o político pode se apresentar como a força que dignifica a fragilidade constitutiva das relações.

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A partir dessa precariedade, Didi-Huberman relata uma visita que fez ao museu Auschwitz-Birkenau, de onde retornou com algumas cascas de bétulas e um punhado de fotografias. A partir desses resíduos, deu início a um estudo sobre a memória do Holocausto e o potencial subversivo das imagens e escreveu Cascas (lançado na abertura da exposição).

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Trata-se então de saber que forma dar ao desespero, com a investigação passando por uma constelação de imagens e de pensadores que sustentam o gesto da revolta num mais além da representação: Goya erguendo os braços numa invocação trágica diante do massacre e dos desastres da guerra; a dimensão do gesto em Zéro de Conduit de Jean Vigo, em que crianças empreendem atos de rebeldia diante de um sistema educativo burocrático e repressivo; o antropólogo Pierre Clastres e a fala sagrada dos índios guarani; e a possibilidade aguda de uma revolução que acontece quando cada um canta seu próprio canto, numa espécie de murmúrio invocador de uma ética.

Voz e musicalidade são questões centrais da pesquisa de Didi-Huberman. Para a psicanálise, o sujeito nasce na relação com a voz do outro e o psiquismo se estrutura ao redor desse ponto. Jacques Lacan nomeou a voz como pulsão invocante e ensinou a respeito de um chamamento em que nossa própria voz deve encontrar lugar. Didi-Huberman lembra do canto negro estudado por W.E.B. Du Bois, que foi vital para que os escravos sobrevivessem à opressão a que estavam submetidos.

A palavra resgatada como possibilidade de enunciação foi um verdadeiro levante contra o poder instituído. Sigmund Freud fundou, através de histéricas, a clínica da escuta e, pelos gritos e convulsões de mulheres, estabeleceu uma nova relação de desejo com a linguagem dando lugar e fazendo erigir o feminino em sua força e contradição. A partir de fotografias de histéricas do asilo La Salpêtrière, Didi-Huberman escreveu o vigoroso ensaio Invenção da Histeria: Charcot e a Iconografia Fotográfica de Salpêtrière.

Algumas dessas fotografias estão em Levantes. Com outras imagens, escritos e vídeos, circulam e desestabilizam verdades, numa espécie de atlas que transmite a força da relação entre imagens, através do recurso da montagem – ideia presente no pensamento de Aby Warburg, teórico central para Didi-Huberman que, ajudado por outros pensadores, o conduz eticamente por um caminho simbólico, por meio de questões filosóficas, históricas, políticas e estéticas que preservam o grão da inquietude das revoltas e manifestações, em que o sujeito tomado por uma convocação que atravessa seu corpo, expõe a ferida, destrói a norma, transforma o luto em desejo, a paralisia em projeção, num gesto de emancipação que não está garantido, que precisa ser recolhido entre ruínas, no dissenso radical, na luta imprevista. Não se trata, portanto, de uma antologia de imagens e, sim, de pensar sobre seu uso.

Na invenção de gestos, canções e imagens a partir de resíduos, celebra-se o informe, a música dos párias, dos sem-nome – a música armênia, o canto cigano andaluz, os tangos poéticos dos subúrbios de Buenos Aires – ou, ainda, lembra-se das mães trágicas da Grécia antiga e das mães de maio em busca de notícias de seus filhos, fazendo com que o mais radicalmente singular se misture ao público em gestos profundamente políticos.

Num levante cada corpo protesta por meio de todos os seus membros, cada boca se abre e exclama o não da recusa e o sim do desejo, que pode estar abrigado até na brutal imagem de uma mãe chorando sobre o filho morto pois, segundo Didi-Huberman, são justamente essas lágrimas que contém a força da sublevação. Não há uma escala para os levantes: eles vão do minúsculo gesto de recuo ao mais gigantesco movimento de protesto. Há imagens e palavras que se inscrevem com impressionante poder de fogo, a fim de nos levantar e nos fazer tomar posição diante da agonia inominável da imobilização.

Entre gestos delicados e vulcânicos que confrontam mas se deixam atravessar pelo insondável, se destaca algo que irá cortar e unir. Num chamamento ao sexual como força que nos levanta, Didi-Huberman chama a atenção para o juntar das mãos que revira o sentido do órgão sexual feminino, lugar que desliza e se reinventa. Esse gesto, utilizado pelas feministas nos anos 1970, ergue ao alto uma dupla vitória e inscreve a potência e a maldição do feminino nomeado por ele como um “gesto-punção”. Didi-Huberman invoca Lacan para nomear esse pequeno-grande levante, subvertendo a lógica do poder pela enunciação da fissura estrutural como um espaço que se coloca em aberto ao heteróclito da existência e faz erigir a força e o tremor para combater tudo que é opaco à vida.

A punção, que retira uma parte do tecido traumatizado e recolhe da ferida uma possibilidade de escrita para o acontecimento, é também uma maneira de se elevar a questão homem-mulher a partir de um novo ponto. Como será? Ainda não sabemos. E a resposta deve ser buscada no mundo, no atrito entre os corpos, na revolta dos levantes em sua arquitetura provisória distribuída entre as coisas moventes, na inflamação e no espanto de habitar a língua sem domicílio fixo. E é preciso que nessa deriva cada um possa inscrever sua marca no mundo e que, desse caleidoscópio de imagens, possamos criar frestas para pequenas-imensas revoluções.

*Bianca Dias é psicanalista, crítica de arte, autora do livro 'Névoa e Assobio'  (Editora Relicário) 

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