Magnolia Pictures/Divulgação
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Finalmente, um roteiro de James Baldwin

Injustiçado, ativista pela igualdade racial é o tema do documentário 'Eu não Sou seu Negro', de Raoul Peck, indicado ao Oscar

Salamishah Tillet, The New York Times

11 Fevereiro 2017 | 16h00

“Nunca me vi como porta-voz”, disse James Baldwin uma vez numa entrevista. “Sou uma testemunha. Na igreja em que fui criado, você tinha de testemunhar a verdade. Hoje, pode-se perguntar o que seja a verdade, mas todos sabem o que é a mentira.”

Essa noção de testemunha – alguém que pode distinguir entre falsidade e fato, mito e verdade, cujo testemunho sobre o passado pode mudar o destino de outra pessoa – é um dos temas mais profundos da obra de James Baldwin. Mas ser ao mesmo tempo narrador e testemunha da complexa e tumultuada história dos Estados Unidos foi a sina e a maldição de Baldwin. Com frequência, isso significou tentar salvar uma nação da ruína racial num tempo em que seus amigos e ativistas de direitos humanos Medgar Evers, Malcolm X e o reverendo dr. Martin Luther King Jr. vinham sendo mortos.

O confronto de Baldwin com esse dilema está no cerne do novo documentário do cineasta Raoul Peck indicado para o Oscar, Eu não Sou seu Negro (I Am Not Your Negro), em parte baseado no manuscrito inacabado de Baldwin Remember This House, dado a Peck pela irmã do escritor, Gloria Karefa-Smart. Numa carta de 1979 a seu agente, Baldwin disse, referindo-se aos filhos de Evers, X e King, que o livro implicaria “expor-me como testemunha da vida e morte de seus pais famosos”. 

Já houve muitos documentários apresentando Baldwin como tema da história ou seu narrador, incluindo o filme I Heard It Through the Grapevine, de 1982, mas Eu não Sou seu Negro é o primeiro inteiramente moldado nas palavras do escritor. Daria para dizer que ele foi colaborador de Peck, e, de fato, Baldwin leva o crédito de único roteirista do filme, o que combina com a vida de um autor fascinado a vida toda por cinema.

Desse ponto de vista, o filme de Peck é “o acabamento, a coroação de todos esses documentários”, disse Richard Blint, pesquisador do Pratt Institute que vem trabalhando num projeto sobre Baldwin e o cinema americano.

O filme cobre os cinco anos nos quais os líderes citados foram assassinados, mas também reconta a história do longo século 20, e agora do 21, sob a lente das relações raciais americanas. Peck consegue isso usando filmagens raras de Baldwin dando entrevistas e discursando nos anos 1960 e, ainda mais impactante, ao revelar quão intimamente a tecnologia do cinema americano sempre esteve ligada à prática e às políticas de desigualdade racial dos Estados Unidos.

Do mesmo modo que Baldwin se locomove entre histórias pessoais e análise política em seus ensaios, Peck junta imagens de protestos pelos direitos civis dos anos 1960 a imagens dos recentes protestos de Ferguson e Baltimore; usa filmagens dos tumultos de Watts, em Los Angeles, de 1965, em meio a clipes hiperpatrióticos do filme promocional de 1960 The Land We Love; e alterna cenas de westerns exaltando Gary Cooper com extratos do debate de Baldwin em Oxford, no qual ele afirma, chocado: “Embora vocês torçam por Gary Cooper, os índios são vocês”. 

“Baldwin esteve comigo durante toda minha vida, minha vida consciente”, disse Peck numa entrevista. “É alguém sobre quem aprendi muito cedo, alguém que me formou, me ensinou a pensar, a desconstruir histórias, imagens e narrativas, e a quem usei a vida toda. Nunca foi para mim apenas um escritor – foi uma testemunha.”

O cineasta relembrou como a literatura de Baldwin afetou diretamente seu modo de ver as coisas quando sua família se mudou do Haiti para a República Democrática do Congo. Ele tinha então 8 anos. “Meu mundo imaginário era povoado por filmes americanos, a narrativa dominante para muita gente de todas as partes”, explicou. “Quando fui para o Congo, minha imagem da África era de selvagens correndo nas florestas e uns poucos brancos civilizados tentando ensiná-los a se tornarem seres humanos.”

Ele prosseguiu: “Mas no segundo em que pus os pés no aeroporto do Congo percebi que eram histórias totalmente falsas, não batiam com o que eu estava vendo e sentindo. Essa capacidade e privilégio de não apenas viver o momento, mas se distanciar e analisar o que está acontecendo, encontrei na obra de Baldwin”.

Peck investiu fortemente em The Devil Finds Work, um longo ensaio de 1976 no qual Baldwin explora seu íntimo e vexatório relacionamento como espectador, crítico e, às vezes, criador do cinema americano. “Sou fascinado pelo movimento na tela e fora dela”, declarou Baldwin; e compartilhou o fascínio que sentiu aos 7 anos pelas “costas retas e solitárias” de Joan Crawford em Quando o Mundo Dança. Entretanto, por mais que o jovem Baldwin tenha sido seduzido pelo poder de Hollywood, seu eu mais velho procurou, através da escrita, expor as fantasias raciais e os estereótipos racistas que a indústria cinematográfica construíra e eram interminavelmente reproduzidos através do mundo. 

Lembrando filmes que tinham interpretações estereotipadas de Mantan Moreland, Willie Best, Lincoln Perry (também conhecido como Stepin Fetchit) e outros atores afro-americanos, Baldwin escreveu: “Parecia que eles mentiam sobre o mundo que eu conhecia, rebaixando-o; eu, até onde soubesse, com certeza não conhecia ninguém como eles”.

Baldwin os comparou a atores como Ethel Waters, Paul Robson e especialmente Sidney Poitier, cujos desempenhos frequentemente “iam além dos limites do roteiro” e proporcionavam representações mais realistas da vida dos negros, “inseridas como contrabando em histórias patéticas”.

Dar o crédito de roteirista a Baldwin em Eu não Sou seu Negro é algo de que ele certamente teria gostado. Apesar de sua visão crítica de Hollywood, Baldwin mudou-se para Los Angeles em 1968 para escrever um roteiro sobre Malcolm X. A experiência foi frustrante. As relações do escritor com a Columbia Pictures ficaram tão tensas depois que o estúdio contratou Arnold Perl para reescrever grandes partes do roteiro que Baldwin abandonou o projeto.

Mais tarde, ele refletiu: “A experiência permaneceu muito dolorosa em minha mente e acabou me dando uma visão da área sombria da vida americana”. Baldwin publicaria seu roteiro como One Day When I Was Lost em 1972, mas a versão de Perl foi vendida para a Warner Bros. e eventualmente se tornou a base para o filme biográfico (biopic) de Spike Lee de 1992 Malcolm X. Mantendo-se no espírito de Baldwin de rejeição desse roteiro, os herdeiros de Baldwin recusaram-se a pôr seu nome nos créditos do filme. 

“O roteiro de Baldwin mudou o gênero biopic”, disse Brian Norman, professor de inglês na Universidade Loyola de Maryland, que escreveu sobre o script. “Ele deu uma visão estranhamente desconectada, não cronológica, de Malcolm X reinventando-se ininterruptamente, sempre presente e sempre relevante.”

E esse é um dos grandes presentes que o filme de Peck dá a Baldwin e às plateias contemporâneas: Eu não Sou seu Negro visa a aproximar a estética de Baldwin e sua sensibilidade crítica do formato cinematográfico. O resultado é ao mesmo tempo uma profunda reflexão sobre a visão de Baldwin e uma meta-história dos filmes americanos, exigindo que, como testemunhas, optemos por acabar com o racismo americano ou sermos engolidos por ele. /TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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