Gisele Freund
Gisele Freund

Finnegans Wake ganha uma nova e livre tradução

Clássico de James Joyce será lançado este ano na versão de Dirce Waltrick do Amarante pela Editora Iluminuras

Dirce Waltrick do Amarante*, Colaboração para O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2017 | 05h00

Não é a primeira vez que se tenta “encurtar” Finnegans Wake, de James Joyce. Em 1967, Anthony Burgess publicou, pela Viking Press, A Shorter Finnegans Wake, uma versão condensada do livro, que o reduziu a um terço do original. Seu objetivo era uma “ tentativa de levar uma grande obra-prima a um número maior de leitores ”. Burgess sabia, no entanto, que essa “redução” era “dolorida e difícil”, já que “Finnegans Wake é um dos poucos livros no mundo que resiste completamente a ser cortado”.

Quando me propus fazer Finnegans Wake por um Fio (a ser publicado pela editora Iluminuras no segundo semestre deste ano), quis destacar um fio narrativo do livro de Joyce, ou seja, contar uma das muitas histórias contidas nele. Mas sobre o que é Finnegans Wake? Para Samuel Beckett, o livro não é sobre coisa alguma, é a coisa em si. Já Michel Butor afirma que o Wake nada mais é do que um sonho sobre a linguagem. Outros estudiosos, como Margot Norris e José Carneiro González acreditam, todavia, que algo de fato emerge da leitura do livro e não se pode negar a existência de uma trama que descansa sobre a espessa textura de suas linhas. Segundo o próprio James Joyce, em Finnegans Wake ele conta “a história da família de Chapelizod de uma maneira nova”, usando uma linguagem onírica.

Há ainda os críticos que afirmam não importar saber do que se trata o livro, pois resumir seu enredo seria perder as suas proporções enciclopédicas. Daí a dificuldade em escolher o que destacar no Finnegans Wake.

Além disso, Wake é sonho, um sonho sobre a linguagem e, diria, um sonho sobre uma grande fofoca, cujo tema central é a vida de H. C. E, a personagem principal da trama e o patriarca da família Earwicker, composta por Anna Livia Plurabelle, sua mulher, Shaun, Shem e Issy, seus filhos.

O sonho por si só embaralha a linguagem, a torna repetitiva e imprecisa. A fofoca acentua essa repetição e imprecisão; afinal, um dos grandes prazeres de quem faz e ouve uma fofoca são os detalhes, as pequenas nuances do fato, que mudam, aliás, a cada nova narração. Na fofoca, a linguagem é excessiva; fofocar é ter vontade de falar, como diz Roland Barthes. 

Ao falar da fofoca, Barthes lembra de uma história curiosa: “A caminho de Falero, um homem se aborrece; distingue um outro que caminha mais adiante, alcança-o e pede-lhe que narre o banquete dado a Agatão. Assim nasce uma fofoca de três quilômetros de extensão. Aristodemos assistiu ao famoso Banquete, contou-o a Apolodoro que, a caminho de Falero, conta-o a Glaucon ”.

As personagens de Finnegans Wake, a meu ver, reproduzem essa história lembrada por Barthes: um ouve uma história e vai contando para o outro e assim por diante ao longo das 628 páginas do romance. A diferença é que, no livro de Joyce, as personagens entram em metamorfose, se multiplicam: Shaun e Shem, por exemplo, são igualmente Mutt e Jutt e esses avatares também contam a sua versão dos fatos. Além disso, a voz do acusado, do alvo da fofoca, também é ouvida.

Por outro lado, pode-se pensar que é Joyce quem conta essa longa fofoca aos seus leitores e cada um desses leitores contará a outro o que “ouviu” do escritor. 

A fofoca parece, por isso mesmo, se assemelhar ao conceito de história, que para Joyce era "jogo de salão onde alguém cochicha alguma coisa para a pessoa ao seu lado, que repete o que ouviu para a pessoa seguinte, e assim por diante, até que a última pessoa também ouça, o que então aparece completamente transformado." 

Em Finnegans Wake por um Fio, reconto o que eu ouvi de Joyce, ou o que eu quis ouvir; é a minha versão da história, meu fio narrativo. Neste livro, puxo um desses fios, justamente o que ressalta a história da família Earwicker e o crime de seu patriarca. 

O fato é que todos os livros propiciam muitas experiências de leitura, mas desconheço outro que tenha tantas possibilidades quanto Finnegans Wake. Lembro que Joyce não queria enumerar as páginas de seu romance, ou melhor, de seu poema em prosa (é assim que me dirigirei a ele), permitindo ao leitor adentrar na sua obra de qualquer ponto. A sua enumeração foi uma exigência editorial. Além disso, Wake começa no meio de uma frase e termina no meio de outra que a liga à primeira, enfatizando seu caráter circular, sem início, meio e fim.

*Este é um fragmento do posfácio da tradutora do livro Finnegans Wake por um fio, que será publicado em 2017 pela editora Iluminuras. 

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