Foro íntimo

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Entrevista com

Fabiano Grassi

Paula Sacchetta, O Estado de S. Paulo

28 Novembro 2014 | 16h00

Ele só tinha a luz que entra pela janela, o sol que se põe bem ali adiante, o piso de tacos na sala do apartamento, paredes brancas e a câmera de um telefone celular. Foi assim que Fabiano Grassi, o Fabs, de 42 anos, paulistaníssimo, como diz, estilista por formação e profissão, resolveu fotografar mulheres seminuas. Conheceu o ofício “depois de velho”, na faculdade de moda. Começou fotografando a rua, logo pulou para os retratos e então para as moças com pouca roupa deste trabalho sem nome que ele diz ainda estar elaborando. Da rua, puxou para dentro de casa a luz e a sombra, o alto contraste e o foco automático. Compõe tudo ali na hora, na tela do celular, sem ensaios, sem cortes posteriores, como se as cenas em sua sala fossem durar apenas o tempo do registro. Só que depois ele as põe no Instagram e voilà. Fabs já tem mais de 95 mil seguidores, e o número não para de crescer. 

Por que fotografar mulheres nuas?

Sempre fiz foto de rua, era do que mais gostava. Mas por causa do meu trabalho de estilista eu só podia sair para fotografar aos fins de semana. Só que sábado e domingo a rua não é a mesma coisa, a paisagem não é a mesma, as pessoas não são as mesmas. Comecei então a fazer retratos. Estava buscando algo mais silencioso, mais íntimo. Em fevereiro comecei a pensar em ensaios mais específicos sobre o corpo, e depois, em agosto, passei a fotografar mulheres seminuas. Tudo que eu tinha era a pessoa na minha casa e uma luz maravilhosa. 

Por que você chama seus retratos de ‘íntimos’?

Porque não são ensaios sensuais, são íntimos. Assim me interessa mais. O nu no meu caso está a favor da foto, não é o nu pelo nu. As mulheres podem até estar de roupa em alguns casos, desde que seja uma indumentária que converse com a foto e não chame demais a atenção. Segundo meu mestre e atual professor Carlos Moreira, cada vez que faço uma fotografia dessas eu falo muito mais de mim que das modelos. E é assim. É a fotografia, a composição, o corpo naquele contexto, não o corpo meramente exposto aos olhos alheios. É uma coisa intimista, não sensual. Uma coisa meio dos anos 1970, uma obsessão minha. Essas mulheres chegam quase sempre com lingeries lindas, de renda, trabalhadas. Levam sempre a mais bonita, porque ninguém compra lingerie para estar feia. Mas a lingerie não importa na foto. 

Como são as sessões?

Não penso muito, somente sigo a intuição. Fotografo em preto e branco. Quando eu olho o visor vejo a cena em preto e branco, mas o arquivo original é colorido. Então, nada me contamina, a cor do cabelo, a cor da pele, nada. Dou atenção mais ao geométrico que ao humano até. Essa descontaminação ajuda na composição. E, claro, tem a parte criativa, a mulher sempre participa. Para as fotos com o espelho - achei esse espelho no lixo, na Avenida do Estado - me inspirei numa imagem do fotógrafo inglês Bill Brandt. Não é uma mulher nua, mas uma mulher e um espelho.

Quem são essas mulheres?

A primeira foi uma amiga. Pedi e ela topou. Depois pedi para uma menina no Instagram - ela é fotógrafa e achei que seria mais fácil. Aí apareceu outra: uma bailarina que fez a série deslanchar, porque não é todo mundo que chega com uma expressão corporal daquelas. Hoje, muitas me procuram querendo ser fotografadas. E a maioria eu vejo pela primeira vez ao vivo quando abro a porta de minha casa. Então conversamos um pouco, tentando imaginar juntos o universo das fotos. A sala é pequena e uso uma lente grande-angular, então as fotografo sempre de muito perto. O melhor, porém, é ver como elas estão tão disponíveis para aquilo. Acho que é por causa de certa vaidade feminina, sensação de liberdade, transgressão talvez. O fato, como disse uma amiga, é que toda mulher gostaria de ter uma foto dela mesma assim, natural e íntima.

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