Divulgação/Prefeitura de Porto Feliz
Divulgação/Prefeitura de Porto Feliz

Fóssil à deriva

Fantasmas, diamantes e borrachudos no resgate de um batelão em Porto Feliz

Christian Carvalho Cruz, de PORTO FELIZ

18 Setembro 2010 | 16h00

Entretanto, foi assim que sucedeu. Vinha o Pantaneiro por aquele sertaozão de Deus-abençoe, mato fechado e fresco, depois de desbarrancar do calor da estrada de terra para a beira do riacho. Vinha de sola nua, porque é assim que desde criança ele gosta de andar. Andar para nada, só andar. A água dava no joelho, e o Pantaneiro pôde entrar e ficar de pé lá no meio, só de calção, lançando a linhada aos lambaris. Em estreiteza, o ribeirão que chamam de Engenho D’Água, faz tempo assedentado por causa da estiagem, media uns cinco metros. Adiante e às costas, o leito cuspia as pedras lisas para os raios do sol alumiar. Seu menino de 16 anos nadava ali longinho, num pedaço mais fundo. E Nina, a mestiça de pastor belga com qualquer coisa, descansava na margem. Saíram de casa às 6 horas e ainda não passava das 9.

 

Nos antigamentes bem que o Pantaneiro respirou o ar do pantanal. Vinte anos atrás, quando contava 18, quis experimentar coisa outra que não fosse a fumaça do corte da cana, onde estreou os 9. Foi cheirar bosta de vaca em latifúndio. Mas o apelido veio mesmo da mania de se meter no mato e andar, andar, andar até cansar. E então voltar para casa, satisfeito com o corpo doído e varado por borrachudo. "Borrachudo é bom. Sacudo a árvore onde eles ficam só para levar picada. Porque depois tenho no que pensar - a coceira - enquanto não chega o dia de ir andar no mato outra vez." Na certidão esse é o Sidnei Aparecido de Souza. Mas ele tem pouco de Sidnei e muito menos de Aparecido. Cabra silencioso, pele e compleição de touro baio, na sua Porto Feliz (SP) natal ele é o Pantaneiro do posto de gasolina. Por R$ 1.000 e mais uma cesta básica por mês ele abastece, lava, alinha, balanceia, troca óleo e o que mais vier. "Sou que nem Bom Bril." Fez até a quarta série ali mesmo em Porto Feliz. Tivesse feito noutro canto essa história talvez não estivesse sendo contada.

 

Há mais de três séculos trepada numa colina na margem esquerda do Rio Tietê, a 117 km da capital, Porto Feliz era de onde partiam os bandeirantes atrás do ouro de Cuiabá, no século 18. Viagem de semestre inteiro, Brasil adentro, feita em canoas imensas cavadas em tronco único de peroba ou ximbaúva: eram os batelões, com seus mais de 10 metros de comprimento, 1,5 de largura, 1 de profundidade e 0,70 de espessura. Chamadas monções, as expedições fluviais com 300 batelões e 3 mil homens deixavam felicidade avantajada na partida e maior ainda na chegada, daí o Porto ser Feliz. Primeiro, gritava a festiva esperança de voltar rico. Depois, o contentamento de ter voltado é vivo, apesar das corredeiras e dos ataques de índios ao longo dos 3.500 quilômetros de rios. Todo porto-felicense, até os da 4ª série, conhece e tem orgulho danado de passado tão grande que ajudou a empurrar as fronteiras do País. O desenho do batelão está no brasão do município e na logomarca da prefeitura, na qual se lê: "Nossa gente faz história".

 

Naquele domingo no Engenho D'Água, porém, foi outra coisa que primeiro estalou na mente do Pantaneiro quando ele avistou metro e meio de tora perto de onde caiu a linhada. "Um cocho! Vou levar para a patroa plantar as plantas dela." A certeza se desmanchou assim que o Pantaneiro se aproximou e viu que, além do metro e meio aparente, tinha outro tanto dentro do barranco e mais um naco afundado no lodo do riacho. Pensou em batelão. Ele conhecia um, de ver nos livros, de tanto ouvir falar e, ora, de apreciar ao vivo e em cores. Afinal, o outro exemplar de batelão encontrado no Estado passou anos exposto no antigo porto, hoje Parque das Monções, a oito quilômetros dali. Batelão de respeito: 18 metros de comprimento, achado numa fazenda da região nos anos 30. Forte que só vendo, o bicho aguentou muitas outras décadas ao relento, com criancinhas dentro posando para foto e namorados canivetando corações. Parte dele chegou a ser exposta no Museu Paulista, da capital. E hoje, embora partido em dois, ele descansa no Museu das Monções, em Porto Feliz. Tem para lá de 200 anos.

 

Pois aquele pedaço de madeira velha deitado na margem bem que parecia um batelão, pensou o Pantaneiro. "Aí não sei o que me deu. Me deu um negócio que me puxou três noites seguidas para lá. Eu ia de farolete, sozinho, escavar para tirar ele dali. Usava uma enxadinha de pegar minhoca. Não conseguia pensar noutra coisa, aquilo não saía de mim. Parecia um chamado." Regina, a patroa que por pouco não ganhou um cocho histórico, ficava fula toda vez que via o marido chegar em casa imundo de terra. "Deixa disso, homem. Batelão é coisa de livro de escola. Não existe mais, não. Você está endoidando com essa história." Os companheiros de truco e fritada de lambari (ele pescou 125 no domingo) diziam o mesmo. "Pirou." Nos dias seguintes, no posto de gasolina, o Pantaneiro só queria que desse o fim do expediente para tocar pro ribeirão. Mas a força do "chamado" aumentava na mesma medida que a dos braços do Pantaneiro minguava. Sozinho ele jamais daria conta de exumar o tronco. Contou ao patrão, que avisou à Prefeitura e deu no que deu. O Pantaneiro pode ser o descobridor do segundo batelão oficial.

 

 

Lembrança. Os batelões de 'A Partida da Monção' (1897), de Almeida Júnior, estavam em todos os livros da escola. Foto: Acervo do Museu Paulista

 

 

Pode, porque ainda não está confirmado que seja um batelão. Para Jonas Soares de Souza, historiador da região e sabido dos assuntos das monções, tem tudo para ser. "Ele possui todas as características de uma embarcação do período das monções, mas é preciso uma análise de especialistas para confirmar a antiguidade." Quiçá 300 anos. O prefeito de Porto Feliz, Cláudio Maffei, professor de história, diz que pediu os devidos estudos a arqueólogos da USP. E, enquanto os técnicos não vêm, ele mesmo vai se arriscando nas contas. "Uma das partes estava enterrada a mais de 2 metros de profundidade no barranco. Se pensarmos em 1 centímetro de sedimentos depositados por ano ali, temos mais de 200 anos." O que dá para saber com exatidão é o tamanho (8,40 metros de comprimento), o peso ( 2 toneladas) e, botando fé no Osmar da Silva - grande conhecedor de árvores e funcionário da prefeitura que cuida das 53 pontes de pau da cidade -, o tipo da madeira. Durante os trabalhos de resgate da embarcação, que consumiram três dias do empenho de 13 homens, um guindaste e uma bomba de sucção, fora as cordas e os cabos de aço, Silva arrancou uma lasca do barco, mastigou e vaticinou: "Peroba". Segundo ele, o amarguinho casado com a dureza é característica perobana. "Cambará e aroeira também são amargas, mas não viram ferro infinito quando são molhadas. Isso é coisa da peroba."

 

Mas se não for um batelão, o que pode ser? Talvez uma piroga, a canoa indígena também cavada em tronco só que serviu de inspiração aos antigos monçoeiros. Só que a piroga é mais rasa e mais estreita que um batelão. De modo que, sem o laudo dos arqueólogos, a peça encontrada pelo Pantaneiro pode ser tudo - um cocho descomunal, um batelinho ou até um pirogão. Cético de carteira assinada, o antiquário local, Rubens Castellucci, conta que só viu dois batelões em 82 anos de vida em Porto Feliz. E olha que ele rodou tudo por ali, fazenda por fazenda, atrás de antiguidades. "Tem o que está no museu e tinha um nas terras de papai, servindo a ração dos cavalos. Vendemos o lugar, não sei o que virou." O prefeito Maffei, que é do PT, prefere crer em luta de classes entre os viajantes do passado. "Vai ver os monçoeiros ricos tinham um batelão grande igual ao nosso primeiro, e os pobres tinham um batelão menor como esse do Pantaneiro."

 

Maffei abaixa a voz, olha de lado, se achega, e do bolso da camisa saca uma pedra. Translúcida, tem uns 2 centrímetros. "Não quero afirmar nada, mas isso aqui nós tiramos de dentro do batelão. Estava na parte da frente, a enterrada no barranco." Sério, o prefeito arranha o tampo de vidro da mesa com a pedra. "Está vendo? Ela risca o vidro. Não dizem que diamante risca o vidro?" Na falta de um joalheiro na cidade, a pedra é imediatamente levada ao Jânio Teixeira, relojoeiro. Ele põe a pedra sobre a bancada de luz, examina com a lente e, à la Osmar das pontes, vaticina: "Nada". Ele também não quer afirmar, mas, olhando assim de repente, parece nada. Não tem importância. Para muitos na prefeitura, juntando batelão e pedra, se tudo for somente um sinal de bom agouro já está de bom tamanho. Porto Feliz é candidata a cidade-base para a Copa do Mundo de 2014. Concorre com outros 50 municípios para hospedar uma das seleções que virão para o torneio. Quem sabe os espíritos dos bandeirantes estejam querendo dizer alguma coisa?

 

Assombração. Ao Pantaneiro nada disseram, dois meses antes de ele encarar o batelão enterrado no riacho. Em verdade, era um só. O Pantaneiro estava a andar de novo com seu menino e a Nina, dessa vez ladeando um canavial pertinho de um braço do Tietê. Quando subiu a encosta e alcançou a picada, deu de cara com ele, a 20 metros de distância: um homem de 1,80 m, barba longa e escura, chapéu, bota, bacamarte e gibão. Se olharam por não mais que dez segundos. "Até que ele pinchou assim para as esquerdas e desapareceu no meio da cana." Foi até lá com a cachorra, que não farejou nada nem encontrou pegadas. O Pantaneiro desgosta de detalhar o causo, mas acha que há de ter união entre os dois acontecimentos - o batelão que ele viu primeiro e o bandeirante que ele viu sozinho.

 

Agora menos angustiado, o Pantaneiro ainda não reencontrou com o batelão desde o dia em que o tiraram do Engenho D’Água e o mergulharam no Rio Avecuia, dentro do Centro de Educação Ambiental da prefeitura. Foi recomendação de um restaurador, para não se correr o risco de o barco ressecar e esfarelar que nem paçoca. A zeladora do lugar, Lúcia Ferraz, deu para conversar com a embarcação. "Eu ficava sozinha o dia todo aqui. Depois que o batelão chegou sempre tem gente. Por isso vou lá, falamos, o chamo de Vossa Excelência." Submerso, amarrado em um mourão e cercado de curimbatás graúdos, o batelão não parece triste nem cansado. Diria o Pantaneiro que encontrou nova função. Sendo o Avecuia o manancial-mór da cidade, a gente de Porto Feliz, não bastasse fazer história, passou a bebê-la também.

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