Fotógrafa Cindy Sherman faz selfies como só ela sabe no Instagram

Fotógrafa Cindy Sherman faz selfies como só ela sabe no Instagram

Autora de célebres autorretratos nos anos 1970 cria conta em rede social e questiona padrões de fotos na web

Jason Farago, The New York Times

12 Agosto 2017 | 16h00

Os perturbadores da mídia têm o Twitter; os adolescentes, o Snapchat; e os mais conservadores, o Linkedin. Mas no mundo da arte a rede social preferida continua sendo o Instagram, onde a beleza mundial é dissecada em quadrinhos.

Esse aplicativo de compartilhamento de fotos é o verdadeiro meio de divulgação de novas mostras, além de palco para artistas e curadores se destacarem num vasto campo disperso pelo mundo. A maioria dos artistas usa o Instagram como todos nós, como documentos do fascínio diário ligeiramente maquilados para o consumo público. Mas a fotógrafa Cindy Sherman – que conhece mais que a maioria os engodos das selfies – vem discretamente explorando o potencial do Instagram para algo além da promoção pessoal.

Ela criou uma conta particular para o serviço no último outubro, quando estava em Tóquio; na semana passada, em aviso, ela abriu a conta e mudou assinatura para @_cindysherman_ (originalmente, ela usava @misterfriedas_mom, em homenagem a sua arara de estimação). De repente, passou a mostrar não apenas fotos de refeições e de crepúsculos, mas uma bateria de 30 selfies distorcidas, deformadas por manchas, clarões e reflexos de caleidoscópios. 

Não sei por que ela tornou públicas as cerca de 600 fotos de sua conta, mas vejo nisso um lance de generosidade de uma artista menos extrovertida que a maioria dos caçadores de fotos do Instagram. Suas novas e cambiantes selfies  são ao mesmo tempo estranhas, hilárias e pungentes. Elas desmistificam as influências e experimentações de uma grande artista, mostrando a distância entre as selfies enviesadas de Cindy, vitais e perturbadoras, e as selfies simplesmente narcisistas. 

Desde seu icônico Untitled Films Stills (1977-80), Cindy está há décadas no centro de suas fotos de profunda reflexão, mas nunca chegou a ser extrovertida quanto sua arte possa sugerir. Seus primeiros Intagrans (prefiro não chamar de arte) foram feitos para circuito privado. Documentavam campos de arroz do Japão, galinhas de East Hampton, neve em galhos de pinheiro, nuvens vistas da janela de um avião e até pratos atraentes. 

Como a maioria dos artistas do Instagram, ela também usou sua conta para registrar shows a que assistiu (há mais de 20 fotos do recente blockbuster da Shchukin Collection, na Fundaçãlo Louis Vuitton) e para celebrar outros artistas, incluindo a fotógrafa ativista sul-africano Zanele Muholi, que também usa disfarces em seus autorretratos. 

Apenas em meados de maio Cindy passou a recorrer a sua câmera de celular para selfies. A mudança parece ter ocorrido quando ela baixou o Facetune, um aplicativo que permite retoques radicais com um simples toque de dedo. “Sou boa em usar meu rosto como tela”, disse ao The Guardian em 2011.

O Facetune permite exatamente isso. Os usuários podem suavizar a pele com cremes corretivos virtuais, eliminar rugas e mudar o formato da cabeça como se ela fosse feita de massa de modelar. Cindy também usa o Perfec365, um aplicativo de simulação de maquilagem. Com tudo isso, seu agressivo sombreado nos olhos e o excessivo blush ( lembrando maquilagem de palhaços) seguramente não eram o que sua equipe de marketing tinha em mente.

Em seu primeiro autorretrato no Instagram, de 12 de maio, ela aparece de olhos contraídos e dentes intensamente brancos, a pele suavizada por uma espécie de névoa artificial. Um dia depois, volta mais agressiva, torcendo os lábios e com a pele manchada por uma fuligem digital. Preferindo a proporção 16:9 do iPhone em vez do formato quadrado padrão do Instagram, Cindy rapidamente produziu mais de três dezenas de autorretratos que, embora claramente feitos sem o mesmo rigor se sua arte, ainda carregam o melhor de seus trabalhos de estúdio (na semana passada ela postou mais dois).

Um post de 23 de maio, tirado do banco de trás de um carro, no qual ela aparece com a pele envelhecida contrastando com uma luz de fundo prismática, lembra seus autorretratos mulheres da década de 2000. Numa selfie meio alienígena em que posa com sua arara, de 4 de junho, ela está de pé em frente de um improvável fundo rural, como no autorretrato “Centerfolds”, feito com projeção rear-screen. Outras selfies alinham-se com sua série “Horror”, inspirada em palhaços, e alguns acréscimos digitais disjuntivos lembram as próteses de suas desafiadoras “Sex Pictures” do início dos anos 1990. No início, Cindy pode ter apenas brincado com os filtros dos aplicativos de retoque, fazendo com seus truques de estúdio uma piada para amigos. E, enquanto fãs do Instagram obcecados consigo mesmos se valem dos aplicativos de retoque para se promover, maquilar e fazer ficção de si, Cindy, paradoxalmente, usa os incontáveis recursos dos aplicativos para derrubar suas muitas máscaras. 

A partir de Untitled Film Stills, Cindy desapareceu em suas fotos, jogando com estereótipos de mulheres do fim dos anos 1970 e início dos 80 ou fundindo-se na sujeira de trabalhos grotescos dos anos 1990. Entretanto, recentemente ela postou duas selfies tiradas de um leito hospitalar. Em uma, sua pele está rosada e suave como a de uma boneca Kewpie; na outra, a pele está envelhecida e enrugada e o rosto de Cindy lembra uma esfera inchada. A selfie mais clean lembra suas subestimadas fotos de bonecas, e a mais distorcida evoca fotos mais macabras. As duas, porém, surgem como um testemunho direto do sofrimento corporal da artista. Cindy também postou uma foto comida de hospital – carne com batatas num molho escuro, o oposto de um prato atraente – e um vídeo feito de sua cama hospitalar, no qual visitantes cantam um hino. As selfies do hospital são uma oferenda particularmente pungente de uma artista que sempre fugiu da autobiografia.

Há exatamente um ano, Cindy Sherman manifestou em entrevista a “The New York Times” uma clara opinião sobre compartilhar fotos na mídia social. “Acho vulgar”, sintetizou. Evidentemente, mudou de ideia. Entretanto, algo de seu julgamento inicial persiste em suas abomináveis selfies e incomuns revelações pessoais.

Uma das mais importantes lições da fotografia de Cindy é que os papéis e aparências que regem as normas sociais não são impostos de cima para baixo: nós mesmos os criamos, e a medida de sua perniciosidade está em que nem sequer os notamos. Agora, Cindy reafirma online que nunca somos nós mesmos nas selfies – e os disfarces mais perigosos são os sorrisos forçados que agora criamos com o dedo indicador. / Tradução de Roberto Muniz

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