Daniel Becerri/Reuters
Daniel Becerri/Reuters

França quer aumentar população de lobos e fazendeiros resistem

País se encontra no dilema clássico de La Fontaine entre o lobo e o cordeiro

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2018 | 16h00

A França está em meio a um novo episódio da “febre do lobo”, que a atinge de vez em quando e que lança durante algumas semanas dois exércitos ferozes, um contra o outro: o dos amigos dos lobos e da selvageria primitiva, contra aquela dos amigos da agricultura e dos cordeiros.

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O que é complicado e o que torna o status do lobo eternamente ameaçado é que os dois lados se insultam, lançam maldições, arrebentam-se, entram em conflito e agridem-se em nome dos mesmos valores: respeito pela natureza, amor às florestas e recusa a causar danos a uma espécie animal. Em suma, vivemos na escala de uma nação, um antigo ritual de nossa história: a batalha imemorial entre o Lobo e o Cordeiro, para usar o título de uma fábula de um dos maiores poetas franceses no século 17, La Fontaine.

Por que a guerra do lobo e o cordeiro hoje? O governo acaba de definir sua estratégia para resolver o destino do lobo nos próximos seis anos, até 2023. Trata-se de determinar em que condições e em que quantidade o lobo, este animal magnífico, selvagem e protegido, pode ser abatido.

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O plano visa garantir a viabilidade da espécie na França, onde se acredita que deverá haver 500 lobos no final desses seis anos, contra apenas 360 hoje. Tal programa implica que um certo número de lobos pode ser abatido “para impedir danos significativos aos rebanhos de ovelhas”. A quota de animais a serem sacrificados chega a 40 para este ano, depois do que oscila entre 10% e 12% da população “lupina”, e, se necessário, alguns tiros adicionais poderiam ser autorizados para manter o equilíbrio.

Outras medidas visam aplacar a cólera das associações de proteção do lobo. Por exemplo, o novo regime condicionaria o nível das indenizações pagas aos criadores em relação cumprimento, pelo agricultor, de certas precauções. Por exemplo, a presença de cães capazes de controlar o lobo, as cercas, o agrupamento noturno de rebanhos.

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Portanto, o plano faz tudo para atender aos medos ou desejos dos dois lados. Resultado: as associações de proteção dos lobos estão furiosas. E os criadores estão em uma fúria extrema. As associações para a proteção de animais selvagens atacam o texto perante o Conselho de Estado, com o argumento de que se “continua a tratar o lobo como nocivo” e que isso coloca em risco “a viabilidade da população lupina”. Os criadores, por sua vez, acreditam que este texto não garante o “ataque zero aos rebanhos”, enquanto o número de ovelhas atacadas e mortas continua a aumentar (12 mil em 2017).

O que complica o caso é que ninguém concorda nem com as cifras nem com a contagem de lobos. Os agricultores acreditam que o governo minimiza o número de lobos, de modo a pagar menos subsídios aos pastores e a aumentar “sorrateiramente” a população de lobos. Segundo os criadores, a França contaria já com bem mais de 500 lobos que, teoricamente, formam o objetivo para o ano 2023.

No fundo dessas brigas, e esquecendo por um momento as apostas econômicas desta “batalha do lobo”, vemos também duas “filosofias” em colisão, a do caçador e a do camponês, a “civilizada” e a do “selvagem”. De um lado, aqueles que amam o lobo por sua nobreza, sua coragem e, sobretudo, porque, em nosso mundo higienizado, domesticado até o fim, o lobo é uma das grandes feras cuja presença preservou uma parte da “selvageria” primitiva. Do lado oposto, os fazendeiros, aqueles que são responsáveis por manter a beleza do mundo, sua fertilidade, suas lindas imagens, ao mesmo tempo em que produzem o abastecimento para multidões de seres humanos.

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Brigitte Bardot é uma amiga dos animais. Seu compromisso com a defesa de todos os animais é eficaz e admirável (bebês foca, peles sobre os ombros de belas damas etc.). Mas nesta luta, ela tomou o partido dos lobos. Os amigos dos cordeiros ficaram ofendidos. Eles dizem que B.B. sempre seguiu o grupo de grandes feras e predadores. “Nós nunca vimos B. B. lamentar o sofrimento dos animais que foram vítimas dos grandes predadores. Ovelhas, vacas, cavalos, asnos, cachorros, mortos em terríveis condições, são curiosamente esquecidos por Brigitte Bardot.”

Não é justo. Brigitte também defendeu os animais pacíficos ou domésticos, como os jumentos, por exemplo, para não mencionar sua valente ação contra a obscenidade dos matadouros. Na verdade, ela está dividida, como muitos de nós, entre estes dois polos da vida animal: o lobo e o cordeiro. E hoje ela está toma a defesa do último grande predador do continente europeu. / Tradução de Claudia Bozzo 

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